MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 10 de abril de 2021

O escândalo da falta de escândalo

 



Os negacionismos em guerra de Jair Bolsonaro para a realidade da pandemia, e do jornalismo nacional para a realidade do “Brasil instável”, se equivalem. Fernão Lara Mesquita:


O maior escândalo do Brasil é não haver escândalo com o maior escândalo do Brasil.

Se há um fato que ulula clamorosamente aos céus desde o primeiro minuto desta pandemia é que o apertamento insalubre do favelão nacional em geral e o do transporte público em particular são os caldos de cultura onde se dá a metástase da Covid-19 sobre a população brasileira.

Oito em cada 10 mortos na pandemia são colhidos nesse molho. Mas como o governo, o antigoverno e a imprensa negacionista ignoram tudo que não seja uns aos outros, a tragédia passou de anunciada a consumada sem que nenhum jornal ou programa jornalístico, senão uns poucos como o do Datena na TV Bandeirantes que destaca essa obviedade todos os dias com cenas tão indiscutíveis quanto angustiantes, pusesse o dedo nessa ferida aberta.

Quarta-feira, surpreendentemente, O Estado de S. Paulo que é um desses que não perde tempo com nada senão as soladas e punhaladas desferidas umas contra as outras pelas 30 e tantas máfias sustentadas pelo Estado que disputam o controle do seu patrono comum para assumir o comando da exploração do povo brasileiro, descobriu de repente o tema ao qual condescendeu dedicar ao menos uma vez o último dos três editoriais diários com os quais hierarquiza os dramas nacionais.

Tratava de uma pesquisa do Instituto Locomotiva em parceria com a CUFA (Central Única de Favelas) que constatava o seguinte:

* mais de 70% das famílias faveladas estão sobrevivendo com menos de metade da renda que tinha antes da pandemia;

* nas últimas semanas 68% dos moradores de favelas não tiveram dinheiro para comprar comida;

* 75% tiveram de deixar “o próprio negócio” (ainda que fosse um estojinho de manicure ou um isopor para vender água na esquina) e desses mais da metade ficou sem trabalhar nos 5 meses seguintes;

* 93% não têm um tostão guardado;

* 96% dos que receberam auxilio de emergência compraram comida para amigos e parentes;

* de dezembro, quando cessou a ajuda emergencial, para cá, as doações caíram vertiginosamente.

O Instituto Locomotivo não desvendou nenhum mistério insondável. A distribuição de R$ 600 por mês, pouco mais de US$ 100, a 60 milhões de famílias durante um semestre foi suficiente para desencadear um “choque inflacionário” nos setores de alimentos e materiais de construção baratos, o que, até para o mais desavisado dos desavisados, era quanto bastava para mostrar o tamanho e a profundidade da miséria do Brasil.

O favelão nacional, neste país de funcionários públicos e pobres cada vez mais pobres a que estamos reduzidos, hoje exclui, fora os “donos do Estado” e os muito ricos, apenas e tão somente o círculo minguante da classe média meritocrática dos setores que mantém alguma prosperidade porque atrelados ao mercado global, como os do agronegócio e alguns outros poucos.

Entre 2011 e 2020, mostra outra pesquisa da Consultoria I-Dados com base na PNAD Contínua do IBGE publicada no Valor esta semana, a renda do funcionalismo público, onde não ha demissões nem dentro nem fora de pandemias, avançou 20,4% entre celetistas e 13,1% entre concursados e militares (ainda “no ostracismo” na maior parte do período medido) acima da inflação, enquanto a do trabalhador do setor privado que conseguiu manter o emprego, hoje uma escassa minoria, subiu apenas 7,1%. O fosso se aprofunda ano a ano graças aos aumentos que, chova ou faça sol, a privilegiatura tem, não por esforço mas por força de norma constitucional (!!!!), dos quais não admite abrir mão nem para mitigar a maior catástrofe humanitária da história do Brasil, neste que a imprensa negacionista, sem pejo de fazer eco aos 11 monocratas comedores de lagostas do STF, saúda como um perfeito “estado democrático de direito”.

A pornográfica abundância da privilegiatura e a miséria medieval do favelão nacional são causa e consequência uma da outra e não há grau de cegueira capaz de esconder de boa fé essa realidade que, no entanto, a maior parte da imprensa nacional opta por não enxergar: o povo brasileiro enfrenta a pandemia nas ruas não porque seja adepto da roleta russa mas porque foi reduzido a uma condição de não poder adiar por 24 horas sequer o provimento da própria sobrevivência.

Os negacionismos em guerra de Jair Bolsonaro para a realidade da pandemia, e do jornalismo nacional para a realidade do “Brasil instável” se equivalem. A “birra” de um alimenta a “birra” do outro. Os dois “se empacam” mutuamente, feito mulas. Fazem o jogo da privilegiatura e excluem a ponta-pés de cena qualquer hipótese de discussão de providências realistas que, eventualmente, poderiam salvar milhares de vidas como, por exemplo, a de escalonar os horários para o trabalho de subsistência que nenhum discurso alienado vai fazer cessar de modo a desafogar a lotação do transporte público, ou a de inundar as favelas e quase favelas das oceânicas periferias que cercam as pequenas ilhas urbanizadas que restam com álcool-gel e máscaras numa ação de mobilização nacional que, a custa de um troco perto do benefício possível, junto com uma boa campanha publicitária, poderia mitigar substancialmente a falta de condições de higiene que a inchação mórbida do Estado roubou ao país.

Não é a falência de órgãos atacados pelo covid-19 que tem determinado a escala trágica alcançada pela pandemia no Brasil. É antes a doença dos corações e mentes da esmagadora maioria dos que personificam essas duas faces da tragédia brasileira e, de costas uns para os outros e para o Brasil Real, rebolam-se na segurança do privilégio pago com dinheiro público e na ideia estupenda que fazem de si mesmos.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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