Os negacionismos em guerra de Jair Bolsonaro para a realidade da pandemia, e do jornalismo nacional para a realidade do “Brasil instável”, se equivalem. Fernão Lara Mesquita:
O maior escândalo do Brasil é não haver escândalo com o maior escândalo do Brasil.
Se
há um fato que ulula clamorosamente aos céus desde o primeiro minuto
desta pandemia é que o apertamento insalubre do favelão nacional em
geral e o do transporte público em particular são os caldos de cultura
onde se dá a metástase da Covid-19 sobre a população brasileira.
Oito
em cada 10 mortos na pandemia são colhidos nesse molho. Mas como o
governo, o antigoverno e a imprensa negacionista ignoram tudo que não
seja uns aos outros, a tragédia passou de anunciada a consumada sem que
nenhum jornal ou programa jornalístico, senão uns poucos como o do
Datena na TV Bandeirantes que destaca essa obviedade todos os dias com
cenas tão indiscutíveis quanto angustiantes, pusesse o dedo nessa ferida
aberta.
Quarta-feira,
surpreendentemente, O Estado de S. Paulo que é um desses que não perde
tempo com nada senão as soladas e punhaladas desferidas umas contra as
outras pelas 30 e tantas máfias sustentadas pelo Estado que disputam o
controle do seu patrono comum para assumir o comando da exploração do
povo brasileiro, descobriu de repente o tema ao qual condescendeu
dedicar ao menos uma vez o último dos três editoriais diários com os
quais hierarquiza os dramas nacionais.
Tratava de uma pesquisa do Instituto Locomotiva em parceria com a CUFA (Central Única de Favelas) que constatava o seguinte:
* mais de 70% das famílias faveladas estão sobrevivendo com menos de metade da renda que tinha antes da pandemia;
* nas últimas semanas 68% dos moradores de favelas não tiveram dinheiro para comprar comida;
*
75% tiveram de deixar “o próprio negócio” (ainda que fosse um estojinho
de manicure ou um isopor para vender água na esquina) e desses mais da
metade ficou sem trabalhar nos 5 meses seguintes;
* 93% não têm um tostão guardado;
* 96% dos que receberam auxilio de emergência compraram comida para amigos e parentes;
* de dezembro, quando cessou a ajuda emergencial, para cá, as doações caíram vertiginosamente.
O
Instituto Locomotivo não desvendou nenhum mistério insondável. A
distribuição de R$ 600 por mês, pouco mais de US$ 100, a 60 milhões de
famílias durante um semestre foi suficiente para desencadear um “choque
inflacionário” nos setores de alimentos e materiais de construção
baratos, o que, até para o mais desavisado dos desavisados, era quanto
bastava para mostrar o tamanho e a profundidade da miséria do Brasil.
O
favelão nacional, neste país de funcionários públicos e pobres cada vez
mais pobres a que estamos reduzidos, hoje exclui, fora os “donos do
Estado” e os muito ricos, apenas e tão somente o círculo minguante da
classe média meritocrática dos setores que mantém alguma prosperidade
porque atrelados ao mercado global, como os do agronegócio e alguns
outros poucos.
Entre
2011 e 2020, mostra outra pesquisa da Consultoria I-Dados com base na
PNAD Contínua do IBGE publicada no Valor esta semana, a renda do
funcionalismo público, onde não ha demissões nem dentro nem fora de
pandemias, avançou 20,4% entre celetistas e 13,1% entre concursados e
militares (ainda “no ostracismo” na maior parte do período medido) acima
da inflação, enquanto a do trabalhador do setor privado que conseguiu
manter o emprego, hoje uma escassa minoria, subiu apenas 7,1%. O fosso
se aprofunda ano a ano graças aos aumentos que, chova ou faça sol, a
privilegiatura tem, não por esforço mas por força de norma
constitucional (!!!!), dos quais não admite abrir mão nem para mitigar a
maior catástrofe humanitária da história do Brasil, neste que a
imprensa negacionista, sem pejo de fazer eco aos 11 monocratas comedores
de lagostas do STF, saúda como um perfeito “estado democrático de
direito”.
A
pornográfica abundância da privilegiatura e a miséria medieval do
favelão nacional são causa e consequência uma da outra e não há grau de
cegueira capaz de esconder de boa fé essa realidade que, no entanto, a
maior parte da imprensa nacional opta por não enxergar: o povo
brasileiro enfrenta a pandemia nas ruas não porque seja adepto da roleta
russa mas porque foi reduzido a uma condição de não poder adiar por 24
horas sequer o provimento da própria sobrevivência.
Os
negacionismos em guerra de Jair Bolsonaro para a realidade da pandemia,
e do jornalismo nacional para a realidade do “Brasil instável” se
equivalem. A “birra” de um alimenta a “birra” do outro. Os dois “se
empacam” mutuamente, feito mulas. Fazem o jogo da privilegiatura e
excluem a ponta-pés de cena qualquer hipótese de discussão de
providências realistas que, eventualmente, poderiam salvar milhares de
vidas como, por exemplo, a de escalonar os horários para o trabalho de
subsistência que nenhum discurso alienado vai fazer cessar de modo a
desafogar a lotação do transporte público, ou a de inundar as favelas e
quase favelas das oceânicas periferias que cercam as pequenas ilhas
urbanizadas que restam com álcool-gel e máscaras numa ação de
mobilização nacional que, a custa de um troco perto do benefício
possível, junto com uma boa campanha publicitária, poderia mitigar
substancialmente a falta de condições de higiene que a inchação mórbida
do Estado roubou ao país.
Não
é a falência de órgãos atacados pelo covid-19 que tem determinado a
escala trágica alcançada pela pandemia no Brasil. É antes a doença dos
corações e mentes da esmagadora maioria dos que personificam essas duas
faces da tragédia brasileira e, de costas uns para os outros e para o
Brasil Real, rebolam-se na segurança do privilégio pago com dinheiro
público e na ideia estupenda que fazem de si mesmos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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