"Uma civilização que legaliza a eutanásia perde todos os direitos ao respeito", afirma o escritor francês Michel Houellebecq em sua oluna no Le Figaro. Artigo de Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:
A
Assembleia Nacional da França está discutindo nesta semana a criação de
uma nova lei nacional autorizando a eutanásia, ou o suicídio assistido,
no caso de patologias graves. Sempre controverso, o escritor francês
Michel Houellebecq publicou na última segunda-feira, em sua coluna no
jornal “Le Figaro”, um artigo bastante forte contra o projeto de lei. O
debate vem ganhando ainda mais relevância em meio à pandemia de
Covid-19, que nos confronta diariamente com a nossa mortalidade e com a
fragilidade da vida humana.
Intitulado
"Uma civilização que legaliza a eutanásia perde todos os direitos ao
respeito", o artigo de Houellebecq classifica a eutanásia como "uma
ruptura antropológica sem precedentes". O escritor afirma que, no fundo,
"ninguém quer morrer", e que mesmo uma vida de sofrimento é melhor que a
morte. Há controvérsias.
Este
é um daqueles debates que costumam provocar opiniões acaloradas, mas
que nunca chegarão a uma solução de consenso. A eutanásia – entendida
como o ato intencional de provocar uma morte indolor para aliviar o
sofrimento provocado por uma doença dolorosa e incurável, sempre
mediante o pedido expresso do paciente – envolve questões morais e
religiosas de difícil superação.
Mesmo
aquelas pessoas que, no plano teórico e abstrato, têm as convicções
mais arraigadas contra a eutanásia podem passar por conflitos profundos
quando veem um ente querido sofrer por um período prolongado e sem
chance de cura. O debate passa também, é claro, pela questão do
livre-arbítrio: um paciente desenganado tem o direito de escolher
morrer?
Desde
2016 a lei sobre o assunto que vigora na França, conhecida como Lei
Clays-Leonetti, autoriza o uso de sedação profunda e continuada até que o
paciente morra, o que pode levar anos, mas proíbe uma eutanásia
“ativa”, isto é, que se tomem medidas para acelerar sua morte. Já o novo
projeto de lei prevê a legalização de medidas que provoquem o óbito, em
determinadas condições.
Basicamente
o projeto estabelece que todo adulto com uma enfermidade grave e
incurável, em fase avançada ou terminal, tem o direito de preferir a
morte a um sofrimento que ele considere insuportável e que nenhum
tratamento pode aliviar. Tem o direito, também, de contar com ajuda
médica para morrer de forma assistida – e de deixar diretrizes por
escrito para isso, caso fique inconsciente. A decisão final teria que
ser referendada por um colegiado de três médicos.
Já
é assim que funciona em alguns países da Europa, como a Bélgica, a
Suíça e a Holanda. Na Holanda, o médico está autorizado a administrar um
medicamento que provoque a morte quando o paciente assim solicita,
desde que tenha pleno conhecimento dos fatos e padeça de um sofrimento
insuportável e interminável em função de uma enfermidade diagnosticada
como incurável. Já a Bélgica foi o primeiro país a autorizar a eutanásia
em crianças com "capacidade de discernimento" que sofram de uma doença
incurável.
A
Espanha também aprovou recentemente (no último dia 18 de março) uma lei
que facilita o procedimento da eutanásia e dá ao paciente o direito de
recusar um tratamento, e Portugal está debatendo o assunto. Na Itália, o
Tribunal Constitucional descriminalizou o suicídio assistido – quando o
próprio indivíduo injeta a dose letal de um a substância - em setembro
de 2019, em condições específicas.
Já
no Brasil, a eutanásia é um crime similar ao assassinato, ainda que
exista um atenuante no caso de o ato “ter sido realizado a pedido da
vítima e tendo em vista o alívio de um sofrimento latente e inevitável”,
caso em que a pena de reclusão é reduzida para um período que vai de
três a seis anos.
Em
seu artigo, Houellebecq - autor do premiado romance "Partículas
elementares" e do controverso "Submissão", sobre o processo de
islamização da França - lembra que, na grande maioria dos casos, existem
maneiras de aliviar a dor, como o uso da morfina, e se espanta com o
apoio da maioria absoluta da população francesa à eutanásia.
Ele
associa a popularidade da causa à manipulação da linguagem, que
distorce o sentido de palavras como “compaixão” e “dignidade”: seu
argumento, no primeiro caso, é que não se mata (ou não se deixa morrer)
ninguém por compaixão; no segundo, é que não podemos reduzir a dignidade
de um ser humano ao seu estado de saúde e à sua condição física, já que
se trata de um conceito moral. Por fim, ele elogia os médicos que,
leais ao juramento de Hipócrates, se recusam a adotar a eutanásia, mesmo
quando protegidos pela lei.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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