Como os Estados Unidos vão aumentar os impostos sobre empresas, secretária do Tesouro propõe que outros países também subam as taxas. Vilma Gryzinski:
Nada como ser hiperpotência, com uma moeda na qual são feitas 88% das transações internacionais, entre tantos outros atributos.
A
naturalidade com que Janet Yellen, a secretária do Tesouro do governo
Biden, propôs uma alíquota mínima para os impostos sobre empresas em
todo o mundo é um exemplo de exercício do poder sem nenhum
constrangimento.
O
imposto global não é uma ideia nova, mas o motivo pelo qual foi
ressuscitado por Yellen não podia ser mais óbvio: manter a
competitividade das empresas americanas.
O
governo Biden tem um projeto hiperkeynesiano de investimentos em massa e
uma das fontes de financiamento serão os impostos sobre renda das
entidades jurídicas.
A
alíquota de 21%, reduzida a este nível pelo governo Trump com base na
doutrina oposta, a de que empresas menos agravadas produzem mais e
beneficiam a todos, vai subir para 28%. Também haverá uma taxa de 15%
para empresas que exercem – legalmente – a contabilidade criativa e
movimentam seus ativos em contas externas. A taxa incidirá sobre os
lucros que constam na prestação de contas aos investidores.
“As companhias não vão mais poder esconder sua renda em paraísos fiscais como as Ilhas Cayman e a Bermuda”, disse Joe Biden.
Para
evitar que países precisando de investimentos e de postos de trabalho
ofereçam vantagens fiscais a multinacionais espremidas nos Estados
Unidos, nada como um bom imposto global ao estilo do sugerido por Janet
Yellen.
“Os
Estados Unidos costumavam se comportar como a polícia do mundo; agora,
querem se tornar o fiscal global de renda”, reclamou o colunista Ben
Wright no Telegraph.
O
capital costuma ir para onde é mais bem tratado e a fluidez do
capitalismo contemporâneo certamente cria buracos negros fiscais que
beneficiam as empresas mais ágeis e mais poderosas, principalmente os
quase monopólios do mundo digital.
Mas
daí a acreditar que seria possível colocar todos os grandes agentes
econômicos internacionais numa hipotética sala de reuniões e sair de lá
com um acordo sobre um imposto mínimo global vai uma tremenda diferença.
Mesmo
muito distante da realidade, a proposta de Janet Yellen serve como uma
sinalização: os americanos vão martelar o assunto sempre que puderem,
enquanto gastam como um porta-aviões inteirinho de marinheiros bêbados.
Do
ponto de vista de observadores neutros, será interessante acompanhar
qual sistema funciona mais: o de Donald Trump, baseado no incentivo ao
espírito animal da livre iniciativa, ou o de Joe Biden, ancorado em
investimentos em massa do governo.
Um
mês antes da pandemia virar o que viria a ser, em janeiro do ano
passado, o desemprego bateu nos Estados Unidos em apenas 3,5%.
Joe
Biden pretende não apenas fazer a mesma coisa, com outros métodos, mas
superar a pujança dos anos Trump e criar 19 milhões de empregos na base
da caneta. Nada sutilmente, a gastança toda tem o nome oficial de Plano
de Empregos Americanos.
O
grau de ambição do programa Biden é impressionante: além do 1,9 trilhão
já liberado para enfrentar os efeitos da pandemia e colocar 1 400
dólares na conta da maioria dos americanos todo mês, ele quer mais 2,3
trilhões para gastar em obras de infraestrutura e investimentos sociais.
Somando
tudo, os pacotes já dão quase um quarto do PIB americano. Através dos
aumentos de impostos para as empresas, o governo pretende levantar até
2,5 trilhões de dólares em quinze anos.
A
favor do governo Biden existem os prognósticos otimistas para a
economia pós-pandêmica. Segundo o FMI, os Estados Unidos vão crescer
6,4% este ano, um aumento excepcional para compensar a derrocada do ano
passado, e 3,4% o ano que vem.
Outros
países que controlaram a pandemia ou não caíram inteiramente nela
também têm perspectivas otimistas de crescimento. China, 8,4%. Índia,
12,5%. Reino Unido, 5,3% este ano e 5,1% em 2022.
Dá uma inveja danada.
Sobre
o aumento de impostos, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo e
unanimemente considerado o maior malabarista fiscal do planeta, declarou
que apoia o plano do governo Biden de focar em gastos em infraestrutura
e que isso “vai exigir concessões de todas as partes”.
“Esperamos
que o Congresso e o governo se unam para encontrar a solução correta e
equilibrada para manter ou aumentar a competitividade dos Estados
Unidos”.
Só não pode ser aumentando o imposto dos outros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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