Um alvo de Popper foi o marxismo, que se parece mais com a astrologia do que com a astronomia porque, à falta da capacidade de fazer previsões corretas, sobra a criatividade para dar explicações sem assumir erros. Ensaio de Bruna Frascolla, publicado pelo Estado da Arte:
O
que é ciência? Esta é uma pergunta filosófica jovem, porque é recente a
própria concepção de ciência como algo autônomo. Por muito tempo, todo
conhecimento verdadeiro era parte da filosofia: o tronco seria a
metafísica, ou filosofia primeira, e daí sairiam ramos, como a filosofia
natural (ou física) e a filosofia política. O importante era dar os
porquês e apontar as causas, remontando-as até o primeiro princípio, ou
Deus.
Se
você fosse um estudioso nascido na Antiguidade ou na Idade Média,
provavelmente acreditaria que o universo é uma esfera composta por cinco
elementos, e que cada qual ocupa o seu lugar natural. O elemento terra
fica abaixo de todos, no núcleo, por ser o mais grave; em seguida vem a
água, que fica sobre a terra; depois o ar, que é mais leve do que a
água; depois o fogo, que vemos querer subir, com suas chamas apontando
para cima; e por fim o éter, que compõe as estrelas que vemos fixas no
firmamento. Esta é uma física capaz de dar todos os porquês: por que a
pedra cai? Porque é do elemento terra, que quer ficar debaixo do
elemento ar. Pela mesma razão a pedra afunda, pois o elemento também é
mais pesado do que a água. Se a atirarmos para cima, cometemos um
movimento violento, contrário à natureza, e ela logo ruma ao seu local
natural, que é abaixo do ar. Já alguns corpos boiam porque são mistos, e
o ar dentro de si quer ficar acima da água. Se o corpo misto afundar, é
porque tem mais terra do que ar em sua mistura.
Tudo
deu errado só no século XVI, quando Galileu apontou sua luneta para a
lua e enxergou uma “outra terra”, com montanhas, vales e até lagos. Ora,
tais elementos não poderiam estar aí; teriam todos de “cair” no nosso
planeta. Mais tarde, Newton abandonaria de vez os elementos, e
trabalharia com corpos regidos leis naturais. O planeta terra seria uma
espécie de ímã gigante que atrai os corpos que estão sobre si com uma
força que ele batizou de gravidade; e, em vez de ser possível explicar
por que uma pedra cai depois de a lançarmos para o alto, é possível
prever com detalhes o seu movimento, uma vez que se tenham observado
regularidades na natureza e inferido leis a partir daí. Foi só com essa
reviravolta da modernidade que surgiu essa coisa que hoje, olhando para
trás, chamamos de ciência, mas que à época era ainda chamada de
filosofia natural.
Tendo
a ciência se emancipado da filosofia, esta pôde perguntar que é aquela.
E foi em meados do século passado que ocorreu a revolução filosófica
que nos interessa.
Para
dizer o que é ciência, o mais natural seria insistir no seu caráter
experimental, por oposição ao caráter abstrato da matemática. Os
filósofos fizeram isto, e no século XX os positivistas lógicos
acreditavam que tinham decifrado o método científico. O trabalho de um
cientista consistiria em purgar seu vocabulário de palavras que não
correspondessem a nada de experimental, só afirmar proposições que
fossem passíveis de experimentação e, por fim, verificá-las na
experiência. Tudo aquilo que não passasse por tais crivos seria
“metafísico”, ou destituído significado, e a ciência seria o conjunto de
proposições verdadeiras acerca do mundo.
Eis
então que entra em cena Karl Popper. Ele aponta que também a astrologia
só se refere a elementos observáveis (os mesmos da astronomia) e também
faz proposições passíveis de experimentar (fulano é de Áries; Áries são
geniosos). Quanto à verificação, é perfeitamente possível elencar
infinitas pessoas nascidas entre 21 de março e 20 de abril que sejam
geniosas, e assim confirmar a asserção. Se for enumerando corvos pretos
que um cientista prova que todo corvo é preto, então um
cientista-astrólogo deverá poder computar Áries geniosos para provar que
todo Áries é genioso. É verdade que pode aparecer um Áries que não seja
genioso – deparado com isso, o astrólogo contará com explicações para
essa contradição, e aludirá ao ascendente. Essa eterna possibilidade de
explicar um fato contrário às expectativas sem admitir falhas na teoria,
nem alterá-la, é a diferença crucial.
Segundo
Popper, o essencial à ciência é a forma lógica de seus enunciados, que é
a seguinte: afirma-se uma lei preditiva que faz uma proibição; e, uma
vez que tal evento proibido aconteça, a lei é descartada. Assim, as
teorias científicas são científicas porque, sendo preditivas, correm o
risco de ser refutadas. Quanto mais arriscada for uma previsão, mais
valiosa ela será para a ciência, caso seja corroborada e não refutada.
No exemplo dos corvos, o valor científico não reside na contagem de
corvos pretos, mas na clara proibição de corvos de outra cor. À aparição
de um corvo branco, descarta-se a teoria de que todos sejam pretos, e a
ciência avança à medida que a comunidade científica proponha teorias
cada vez melhores. Já o astrólogo não faz previsões precisas; e, se algo
parecer contradizer uma afirmação sua, ele logo traz explicações vagas
para mantê-la de pé.
Popper
se correspondeu com Einstein e debateu a física quântica de Heisenberg
no calor de descobertas científicas. E suas ideias terminaram por ser
aceitas entre cientistas das exatas e biológicas, que logo se esforçaram
para mostrar qual tipo de fenômeno poderia tornar falsas as suas
teorias, a fim de mostrar que elas são científicas.
Com
as ciências humanas, o diálogo não fluiu tão bem. Um alvo de Popper foi
o marxismo, que se parece mais com a astrologia do que com a astronomia
porque, à falta da capacidade de fazer previsões corretas, sobra a
criatividade para dar explicações sem assumir erros. Marx fez uma
previsão: a de que, segundo as leis da história, o proletariado
depauperado dos países industriais faria uma revolução e tomaria os
meios de produção. Mas tal não aconteceu. O país mais industrial que
Marx conheceu, a Inglaterra, tornou-se próspero. Já as revoluções
inspiradas pelo comunismo principiaram pela agrária Rússia, e se
espalharam por países rurais mundo afora. O correto seria abandonar o
marxismo. Mas, assim como o astrólogo aponta ascendentes, o teórico
marxista se esforça para salvar sua teoria em vez de o abandonar. E os
sucessivos fracassos da União Soviética, da China anterior ao
capitalismo, da Etiópia, da Coreia do Norte, de Gana e, mais
recentemente, da Venezuela, nunca servem para provar que a estatização
dos meios de produção produz miséria em vez de riqueza. Nenhuma previsão
marxista se confirma. O trabalho do teórico se resume a usar de toda
sutileza para explicar como Marx está certo mesmo estando errado.
É
uma pena que o trabalho de Popper seja mais lembrado na filosofia da
ciência do que na política. Em parte, porque política também é objeto de
ciência; e, em parte, porque à vigência dos totalitarismos do nazismo e
do comunismo, esse austríaco de origem judaica nunca cedeu a modas
intelectuais e foi defensor constante da democracia.
Ele
tem muito a ensinar a nós, brasileiros. As concepções da política e da
ciência de Popper estão interligadas. Para ele, o homem é o único animal
que não precisa da força bruta para eliminar um concorrente e
progredir, pois pode fazer isso apenas com ideias. Ou seja, com a razão
eliminamos as ideias do oponente, em vez da pessoa física do oponente.
Violência e razão são dois motores antagônicos de ação política: ou
escolhemos guiar a sociedade por uma, ou por outra. Assim, uma vez que
escolhamos na política a razão, a sonhada Revolução está fora de questão
– dado que é violenta. Mas, assim como podemos descartar ideias em vez
de aniquilar pessoas, revoluções devem acontecer no âmbito intelectual
(como a revolução copernicana), e impulsionar reformas sociais. A
sociedade precisa de liberdade, estabilidade e paz para desenvolver
atividades intelectuais. Só nesse ambiente as pessoas expressem os seus
pensamentos. Por outro lado, tendo-a, a sociedade evolui a passos
calmos. Uma vez que se imponha censura plena, esse desenvolvimento
morre, e uma sociedade pode colapsar, regredir ou estagnar. Democracia e
ciência, portanto, andam lado a lado, uma fazendo bem à outra.
Dado
que as ciências sociais também são ciência, também têm que criar
teorias preditivas passíveis de serem contraditadas. E sua principal
tarefa, segundo Popper, consiste em “identificar as repercussões não
desejadas de ações humanas intencionais.” Isto tanto deixa clara a sua
utilidade, como a distingue de invectivas morais mais dignas de religião
do que de ciência. Não é objeto da ciência social revelar-se benévola
para com os pobres enquanto censura os ricos, nem proclamar karmas
históricos: é conhecer o funcionamento da sociedade e ser capaz de fazer
previsões precisas. Uma vez que se disponha de conhecimento, aí sim
tem-se condições para traçar políticas eficazes para alcançar
finalidades nobres.
Esse
sistema de mútua propulsão entre sociedade democrática e ciência tem
uma falha, porém: permite a defesa da violência. É o chamado paradoxo da
tolerância, pois a tolerância para com a intolerância engendra a
intolerância. A solução de Popper é parecida com a que adotamos com o
racismo, e consiste em criminalizar a defesa da violência – a qual
sempre vem acompanhada do descrédito da razão. Deve-se sempre combater
tais ideias na esfera pública, mas estruturas de seita são-lhe imunes.
Intolerantes “podem proibir os seus seguidores de ouvir argumentos
racionais, porque isto é ilusório, e ensinar-lhes a responder a
argumentos com o uso dos “punhos ou pistolas.” Aí, sim, criminaliza-se
um movimento intolerante. Ele renuncia à razão, não cabe no debate de
ideias e só pode pretender o poder pela via da força, da Revolução.
Infelizmente,
elogiar a democracia no Brasil é muito fácil; tão fácil, que até os
intolerantes amam fazê-lo. Basta dizer que “democracia” significa “povo
no poder”, para em seguida dizer “o povo sou eu”, determinar quem é
“povo” de verdade e indicar dentro do Estado os inimigos do povo. Isto é
velho, e por isso Popper já se preocupava em não cair em armadilhas
verbais. Diz ele: “Só há dois tipos de instituições governamentais: as
que possibilitam a mudança de governo sem derramamento de sangue, e as
que não. Mas se o governo não pode ser mudado sem derramamento de
sangue, não pode, na maioria dos casos, ser removido de jeito nenhum.
Não precisamos disputar palavras, nem tais pseudoproblemas, como o do
significado verdadeiro ou essencial da palavra ‘democracia’. Podem
escolher o nome que preferirem para os dois tipos de governo. Eu,
pessoalmente, prefiro chamar o tipo de governo que pode ser removido sem
violência de ‘democracia’, e o outro de ‘tirania’.”
Pois
bem. No Brasil esperamos as eleições de outubro, e não há a mais remota
hipótese de o governo continuar o mesmo. Não obstante, intelectuais e
associações científicas insistem que vivemos em um estado de exceção, ao
mesmo tempo que… esperam sair de uma ditadura e ingressar na
normalidade democrática através do voto. É claro que muitos profetizaram
que as eleições não ocorreriam. Mas também é claro que não irão rever
suas posições, pois são pseudocientistas. Uma vez declarado que as
elites brasileiras, inimigas do povo, são neoliberais, odeiam pobres e
por isso golpearam a democracia, não há evento concebível para desmentir
a tese. Ao contrário, todo evento novo ou é enquadrado de qualquer
jeito nos moldes dessa teoria, ou é ignorado. Assim como fazem os
astrólogos.
Seria
um grave problema se recursos públicos fossem privatizados por uma
agenda criacionista. Não bastasse a impropriedade do destino de recursos
públicos, com isto também se paralisariam avanços nas ciências
biológicas. Que tal seria desenvolver vacinas rejeitando a evolução, ou
instalar satélites de meteorologia acreditando em terra plana?
Perderíamos todos. Pois é isso que ocorre no campo da política: quanto
mais as universidades públicas abrem “cursos de golpe” Brasil afora, e
quanto mais partidarizadas ficam entidades como a SBPC e associações de
pós-graduações, mais somos convencidos a fazer o exato oposto do que
pretendem: parar de financiá-las. Embora saibamos que as universidades
não são só isso, tais manifestações tornam patente que há algo muito
errado com elas. É grave para o Brasil ter o lugar da ciência política
ocupado por uma pseudociência divisiva e intolerante, e ainda
financiá-la com dinheiro público. Tal situação obriga a repensar os
atuais modelos de autonomia universitária e de financiamento público.
Bruna
Frascolla é doutora em Filosofia pela UFBA, articulista e tradutora dos
Diálogos sobre a religião natural, de David Hume (Edufba, 2016).
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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