Não se vence a irresponsabilidade petista com outra irresponsabilidade, adverte editorial do Estadão:
Jair
Bolsonaro está conseguindo fazer o que parecia impossível. Ao ignorar
suas responsabilidades e debochar continuamente dos problemas do País e
da saúde dos brasileiros, está abrindo caminho para o retorno político
do sr. Luiz Inácio Lula da Silva, seja por meio de algum preposto, seja
pessoalmente, agora que o ministro Edson Fachin anulou todas as
condenações do demiurgo de Garanhuns – e na hipótese de que o Supremo
mantenha essa nefasta sentença. Bolsonaro, por palavras e omissões,
ajudou a recriar o monstrengo que já atormentou em demasia este país.
O
assunto é da maior gravidade, pois traz de volta ao cenário político um
grande perigo para o País. Aquele que foi eleito por ser o mais
antipetista dos candidatos não apenas descumpre suas promessas de
campanha, como está produzindo a perfeita antítese das expectativas do
seu eleitorado: o ressurgimento do fantasma do lulopetismo.
Não
se trata de mera hipótese ou recurso retórico. Recente pesquisa de
opinião feita pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria)
constatou que, nas atuais circunstâncias, o líder político com maior
potencial de voto é o sr. Luiz Inácio Lula da Silva. Nada mais nada
menos que metade dos entrevistados revelou a possibilidade de votar em
Lula.
É
desolador constatar que o mais famoso ficha-suja do País, condenado por
corrupção e lavagem de dinheiro, voltou a ser, para metade do
eleitorado, uma opção possível de voto. Tal resultado não se refere
obviamente a nenhum mérito do sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que, como
se sabe, tem nos últimos tempos se dedicado especialmente às suas
pendências com a Justiça penal.
A
pesquisa revela o que o governo de Jair Bolsonaro tem sido capaz de
despertar no ânimo dos brasileiros. Tal é o descalabro da atual
administração federal que metade da população já não vê como impossível
votar naquele cujo governo produziu os maiores escândalos de corrupção
da história do País.
Pode
parecer ironia, mas Jair Bolsonaro está fazendo com que parte
considerável da população se esqueça dos males e prejuízos causados pelo
mensalão e petrolão e já não exclua do horizonte o voto em Lula – ou no
seu preposto. Aquele que prometeu eliminar o lulopetismo é quem está
agora lhe dando uma inesperada e perigosa sobrevida.
Há
quem pense que, por estar inelegível em razão da condenação criminal, o
sr. Luiz Inácio Lula da Silva não representaria perigo ao País. Não
seria, assim, preciso preocupar-se com o líder petista. Nada mais
distante da realidade. Mesmo quando esteve impedido de se eleger, Lula
foi capaz de produzir sérios estragos por meio de seus testas de ferro.
Basta pensar no governo de Dilma Rousseff e nas eleições de 2018.
Fernando Haddad chegou ao segundo turno por obra e graça daquele que, na
ocasião, estava na carceragem da Polícia Federal de Curitiba.
Não
há como amenizar a gravidade da situação criada pelo presidente Jair
Bolsonaro. É um tremendo retrocesso para o País o fato de que parcela
relevante da população, estupefata com os contínuos desastres produzidos
pelo atual governo federal, volte a considerar o PT como um voto
possível. É como se o despautério do tempo presente levasse a esquecer
ou, ao menos, a relevar o aparelhamento político-ideológico da máquina
estatal, os desvios da Petrobrás, a interferência na autonomia do
Congresso, a omissão nas reformas, o abuso do poder político, os
privilégios às corporações.
Em
2018, muitos eleitores votaram em Jair Bolsonaro convictos de que era a
melhor opção para o País. Outros deram o seu voto ao ex-capitão do
Exército pensando que era o único jeito de derrotar o sr. Luiz Inácio
Lula da Silva. Sabiam que, apesar de constar na cédula o nome de
Fernando Haddad, o verdadeiro candidato do PT – quem iria de fato mandar
caso a chapa fosse eleita – era Lula. Agora, há uma situação
inteiramente inversa. Em vez de ser o ex-prefeito petista de São Paulo, é
o próprio Bolsonaro que faz Lula sonhar em ter viabilidade política.
A
situação esdrúxula expõe um novo engano. Quem continua apoiando Jair
Bolsonaro achando que, assim, ao menos impede um mal maior – a volta do
PT ao poder – pode, na verdade, estar contribuindo exatamente para
aquilo que tanto rejeita. Não se vence a irresponsabilidade petista com
outra irresponsabilidade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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