Pela Lei da Ficha Limpa, ele está fora, mas o PT vai tentar modificar esse entendimento. Artigo do desembargador Aloísio de Toledo Cesar, publicado pelo Estadão:
Entre
os petistas vem circulando uma frase proferida pelo ditador Getúlio
Vargas ao ser deposto na qual profetizava sua volta ao poder. Realmente,
no dia 1.º de novembro de 1945, ao ser deposto, ele embarcou no
Santos-Dumont num avião da FAB que o levaria a São Borja, sua terra.
Ao
seu sobrinho Serafim Dornelles, que o acompanhava, ele ditou a seguinte
profecia, relatada no livro de Lira Neto: “Deves ter ouvido dizer que a
política se assemelha a um jogo de poder. Indiscutivelmente, em alguns
pontos se assemelham. Por exemplo: eu sou uma pedra que foi movida da
posição que ocupava. E eles pensam que vou permanecer onde me colocaram.
É o grande erro deles. Não sabem que vamos começar um novo jogo – e com
todas as pedras de volta ao tabuleiro”.
Tinha
razão o renitente ditador, porque um novo jogo político começou e ele
foi candidato à Presidência da República, concorrendo com o brigadeiro
Eduardo Gomes, do grupo de militares que o alijara do poder. Venceu as
eleições e o País só ficou livre dele com sua morte, por suicídio.
Entre
os petistas a agitação é compreensível, porque seu líder máximo, Lula
da Silva, está solto e deu a entender que se for para o bem do País fará
o sacrifício de concorrer contra o presidente Jair Bolsonaro nas
eleições do ano que vem. Veja-se que esse futuro assusta mais do que o
bicho-papão para criancinhas: de um lado, teremos o rei da incompetência
e do desprezo pelos milhares de brasileiros mortos pela covid e, de
outro, o rei da corrupção, que fez o Brasil figurar mundialmente como um
dos mais corruptos países do mundo.
No
que se refere especificamente ao ex-presidente Lula existem incertezas
jurídicas, mas a Justiça – ora, a Justiça, pensarão os petistas – é algo
que se pode superar ou anestesiar. Não conseguiu o filho do presidente
Bolsonaro atenuar a força do processo das rachadinhas?
A
rigor, durante longo período as decisões judiciais que envolviam os
atos do ex-presidente Lula foram severas e sempre tendentes à
condenação, razão pela qual ele se viu privado dos direitos políticos
pelo prazo de oito anos e perdeu os imóveis no Guarujá e em Atibaia.
Já
em liberdade, os brasileiros perceberam que ele era mais importante
preso do que solto. Ainda hoje, podendo circular pelo País, Lula já não
ocupa as primeiras páginas dos jornais e as notícias a respeito dele
ganham pouco destaque.
Mas,
curiosamente, em relação a ele vem ocorrendo nos tribunais superiores
uma espécie de abrandamento, indicador de que talvez ele consiga
livrar-se daquela parte das condenações que o impede de concorrer.
Tome-se em conta também que ele possui no Supremo Tribunal Federal
vários e agradecidos ministros, que são mais leais a ele do que ao
Brasil.
Basta
lembrar, por exemplo, que o ministro Gilmar Mende mudou suas convicções
do dia para a noite e, num voto envergonhado, permitiu que Lula saísse
da cadeia. Não se pode afastar a previsão de que coisas assim voltem a
ocorrer e a permitir que o mais corrupto dos presidentes anule a
condenação que o impede de disputar eleições pelo prazo de oito anos,
prevista na Lei da Ficha Limpa e presente nas condenações de Lula.
A
Lei da Ficha Limpa surgiu de um projeto de iniciativa popular, com
apoio de quase 2 milhões de brasileiros, e tornou-se uma importante
ferramenta à disposição dos eleitores no momento de escolher seus
candidatos. Tanto é assim que “ficha limpa” e “ficha suja” se tornaram
as expressões mais práticas para definir um bom e um mau político.
A
lei proíbe por oito anos a candidatura de quem tiver o mandato cassado,
renunciar para evitar a cassação ou for condenado por decisão
definitiva (transitada em julgado) ou de órgão colegiado, mesmo que,
nesse caso, ainda haja possibilidade de recursos.
De
acordo com o texto, são inelegíveis os candidatos condenados em razão
da prática de crimes contra a economia popular, a fé pública, a
administração pública e o patrimônio público; por crimes contra o
patrimônio privado, o sistema financeiro, o mercado de capitais e os
previstos na lei que regula a falência; e por crimes contra o meio
ambiente e a saúde pública.
Também
não estão aptos a concorrer a eleições candidatos que tenham cometido
crimes eleitorais com previsão de pena privativa de liberdade; crimes de
abuso de autoridade, quando houver condenação à perda do cargo ou à
inabilitação para o exercício de função pública; de lavagem ou ocultação
de bens, direitos e valores; de tráfico de entorpecentes e drogas
afins; crimes de racismo, tortura, terrorismo e hediondos; de redução à
condição análoga à de escravo; crimes contra a vida e a dignidade
sexual; e crimes praticados por organização criminosa, quadrilha ou
bando.
Enfim,
a prevalecer o que dispõe a bem-vinda Lei da Ficha Limpa, o
ex-presidente está fora da disputa, mas é claro que os petistas vão
tentar modificar esse entendimento. O risco Bolsonaro-Lula poderá
assombrar-nos bastante no ano que vem.
DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇADO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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