Lembro-me, em minha infância, quando escutava as mulheres dizerem que quando menstruadas não deveriam fazer bolos. Luiz Felipe Pondé via FSP:
Não
que as mulheres não cuidassem de bebês, mas nem por isso podemos fazer
recortes simples a partir das diferenças sexuais e seus papéis sociais.
E essa impossibilidade se deve a, entre outras razões, elementos que a nós parecem irracionais. Quer um exemplo?
Segundo
o antropólogo Alain Testart (1945-2013), no seu “L’Amazone et la
Cuisinière, Anthropologie de la Division Sexuelle du Travail” (Edition
Gallimard, 2014), mulheres participavam, sim, da atividade de caça, mas
nunca com instrumentos que pudessem fazer sangrar o animal caçado. Só
métodos que não implicassem sangramento do animal tinham a participação
das mulheres. O autor dá todos os elementos que sustentam essa afirmação
no livro em questão.
Por
quê? Uma das hipóteses é que o sangue em si fosse a questão. As
mulheres sangram mensalmente por muitos anos —inclusive, esses longos
anos são os anos em que elas são férteis—, e é possível que a
menstruação fosse vista como algum elemento mágico: todo mês sangra, mas
não morre. É possível mesmo que o estar menstruada implicasse algum
tipo de recolhimento nas chamadas “casas de
menstruação”
para uso exclusivo das mulheres, segundo o arqueólogo Brian Hayden no
seu “The Power of Ritual in Prehistory” (Cambridge, 2018).
Lembro-me,
em minha infância, quando escutava as mulheres dizerem que quando
menstruadas não deveriam fazer bolos porque não dava liga. Não há
relação de causa e efeito possível entre uma mulher estar menstruada,
que é um processo fisiológico normal e que se manifesta em sangramento
pelo órgão sexual, e a liga num bolo! Mas, então, por quê? Ninguém tem a
mínima ideia.
É
possível que nossos ancestrais tenham feito algum tipo de vínculo
semelhante para excluir as mulheres da atividade de caça quando o animal
exigia instrumentos de corte para caçá-lo. Isso nada tem a ver com
assumir fraqueza por parte das mulheres, já que elas caçavam em outras
situações, mas deve ter sido algum vínculo de teor “irracional”, como a
história do bolo e da menstruação.
A
menstruação, como se sabe, já foi objeto de muito trabalho de
significação. De um lado, alguns a consideravam indício de castigo
divino, de outro, algumas creem que regarem alfaces com sangue menstrual colhido num cone significa emancipação feminina espiritual e política.
Você vê, minha cara leitora, como continuamos uma espécie atolada em elementos irracionais?
A
menstruação também é objeto de enorme erotização por parte de muitos
homens. Alguns homens têm um prazer especial em fazer sexo oral em
mulheres menstruadas para sugar-lhes o sangue, como num ato vampiresco,
que pode começar lambendo o sangue que escorre pelas pernas até chegar à
fonte de tão almejada delícia.
Muitas mulheres que já passaram pela menopausa
dizem sentir saudade da menstruação, o que não pode ser uma “saudade
racional”, já que a menstruação, além de implicar cuidados higiênicos
que às vezes podem atrapalhar o cotidiano, ela pode causar dor e
limitação de algumas atividades. Saudade, então, do quê?
É
possível que seja saudade da juventude, saudade da fertilidade, saudade
da potência de gerar vida, saudade do próprio desejo sexual mais forte
no momento fértil, antes da menstruação. A verdade é que sangrar aqui
encerra um ciclo de fertilidade e abre outro e, assim, deixa a mulher,
de novo, pronta pra ser fecundada.
A
força da fertilidade sempre foi um elemento muito importante nas
religiões politeístas. O poder de gerar vida sempre foi uma forma de
mistério.
Hoje,
coitada, a menstruação não tem mais essa força. Ela tem sido mesmo
objeto de polêmicas de linguagem. O politicamente correto, herdeiro da
Santa Inquisição, tem lambido o tema com sua longa e gelada língua de
réptil. Algumas dessas línguas dizem que não podemos falar que mulheres
menstruam.
Devemos nos referir a elas como “pessoas que menstruam”. Deixemos a caravana passar. E a vida seguir o seu curso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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