Paulo
Francis dizia que o grande ator não é gente. “É outra coisa, muito
acima de gente comum”, garantia. E apresentava a prova definitiva. “Por
exemplo: nem o mais infeliz viúvo do mundo vai chorar como Marlon Brando
no túmulo da mulher, na cena de O Último Tango em Paris. E ele só foi
viúvo no cinema”. Se ainda estivesse por aqui, creio que encamparia a
complementação da tese que esbocei faz tempo: o grande canastrão também
não é gente. É outra coisa, muito abaixo de gente comum. Interpretando o
papel do Juiz dos Juízes na versão data venia da Ópera dos Malandros,
encenada na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes
provou que nem o mais desqualificado juiz de futebol conseguiria superar
em canastrice vigarista o ministro que faz o que pode — e, com
frequência crescente, o que não deve — para elevar o cinismo a uma forma
de arte.
O
Maritaca de Diamantino festejou nesta semana o parto de outro Dia da
Infâmia, em gestação desde que o ministro Edson Fachin resolveu anular
as condenações impostas a Lula nos processos que nasceram e cresceram em
Curitiba. O lugar certo era Brasília, mudou de ideia o relator dos
casos da Lava Jato, depois de cinco anos afirmando o contrário. Fachin
ressalvou que a decisão não transforma Lula em inocente. Continua
culpado, mas nada deve à Justiça e os processos terão de recomeçar do
zero. A ficha não está limpa, mas o dono do gordo prontuário está
liberado para disputar até a Presidência da República. Animadíssimo com a
absolvição do bandido, Gilmar tentou já no dia seguinte punir o
mocinho. Era só fazer de conta que Sergio Moro ainda usava fraldas
quando descobriu que viraria ministro de Estado se prendesse um
ex-presidente da República. Por isso, o juiz não foi imparcial ao julgar
o mundaréu de bandalheiras envolvendo um tríplex no Guarujá. Por isso,
bastava oficializar a suspeição de Moro, sepultar a maracutaia e
apressar o velório da Lava Jato.
A
cada cinco anos, Gilmar esquece o que disse nos cinco anteriores. Em 19
de agosto de 2015, por exemplo, parecia enxergar as coisas como as
coisas eram. “O que se instalou no país nos últimos anos e está sendo
revelado na Lava Jato é um modelo de governança corrupta, algo que
merece um nome claro: cleptocracia”, constatou. (Cleptocracia, aliás,
não é um nome claro para muitos brasileiros. Sua Excelência poderia ter
substituído o palavrão pelo seu significado: um lugar governado por
ladrões.) “A Lava Jato estragou tudo”, prosseguiu. “O plano era
perfeito, mas esqueceram de combinar com os russos.” Agora, “a operação
que salvou a Petrobras” tornou-se “o maior escândalo judicial da nossa
história”. E Gilmar age como inimigo juramentado do juiz que liderou a
mais destemida e produtiva operação anticorrupção da História. (Tente
entender: Gilmar, desafeto de Moro, considerou-se insuspeito para
participar do julgamento do juiz da Lava Jato. E Moro foi colocado sob
suspeição porque seria inimigo de Lula e, portanto, incapaz de portar-se
imparcialmente. Difícil entender? Não se incomode. Se alguém entendeu,
não contou a mais ninguém — talvez para não receber à meia-noite um
mandado de prisão em flagrante assinado com um X por Alexandre de
Moraes.)
Um
pedido de vista do ministro Nunes Marques adiou por uma semana o final
infeliz do faroeste à brasileira que teve Gilmar como produtor, diretor,
roteirista e astro do elenco de canastrões. Irritado com o voto
favorável a Moro, assustou Nunes Marques sublinhando com um medonho sobe
e desce do beiço o palavrório amalucado: o bom ladrão se salvou, mas
não há salvação para um juiz covarde. (O Brasil que presta acha que o
ladrão é Lula, e nada tem de bom. Acha também que covardes são juízes
que agem como padroeiros de bandidos.) Como sempre acontece com atores
de picadeiro, as lágrimas continuaram longe dos olhos quando o orador
tentou chorar em homenagem ao advogado Cristiano Zanin, pelo esforço que
fez para resgatar da cadeia um corrupto duas vezes condenado em segunda
instância. Não é pouca coisa. Mas não é tudo. Gilmar também fingiu
ignorar que a vitória da obscenidade estava assegurada. Sabia fazia
muito tempo que Cármen Lúcia topara sujar a biografia para reduzir-se a
Carmendes. Haja cinismo.
Comecei
com Paulo Francis, termino com Tom Jobim. Numa noite no Rio, minutos
antes do início da entrevista para um programa de TV, ouvi a pergunta
inesperada. “Você sabia que sou especialista em olhares?”. Não, não
sabia. Tom foi em frente: “É muito útil. Os olhos escancaram a alma e o
caráter, descubro como a pessoa é em um segundo. Tem o olhar honesto, o
esquivo, o sincero, o dissimulado, o arrogante, o confiante, o medroso, o
perverso, e por aí vai. Um grande ator consegue mudar o modo de andar, o
penteado, o figurino. Pode engordar ou emagrecer, pode usar maquiagem
para ficar mais jovem ou mais velho, pode mudar quase tudo. Menos o
olhar. Ninguém me engana. Nem o Marlon Brando”. Marlon Brando, de novo.
Nesta semana, lembrei-me dessas conversas e lamentei de novo a partida
da grande dupla. O que Francis estaria escrevendo sobre Gilmar Mendes? E
como Tom Jobim definiria o olhar do gerentão do Supremo?
Eis
aí uma mirada que conheço bem. Já vi esse olhar inconfundível nas
brigas no portão do grupo escolar e do colégio, nos tensos barulhos de
1968, nos tumultos que encerraram antes da hora o jogo de futebol na
várzea, a bordo do avião forçado ao pouso de emergência, num país
assombrado pelo fantasma da guerra civil, em dois arranha-céus lambidos
pelo fogo — enfim, já vi esse olhar em rostos alheios confrontados com
perigos reais e imediatos. É o mesmo exibido por Gilmar Mendes nos
vídeos que o mostram em alguma rua de Portugal, tentando afastar-se de
dois ou três brasileiros indignados com o que fez, faz e pretende fazer
depois de cobrir-se com a toga negra, fantasia que o transforma em
Gilmar, o Supremo. É o olhar de quem esbanja valentia em duelos
retóricos e bate-bocas em sessões do tribunal, mas sabe desde a infância
que será sitiado pelo pânico quando a situação requerer a coragem
física que sempre lhe faltou. Sublinhado pela palidez e pelo sorriso
bestificado do pugilista no momento do nocaute, o olhar do ministro é o
desenhado pelo medo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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