Execrada como obra do capeta, a economia de mercado proporcionou dignidade a muito mais pessoas do que o Estado do bem-estar. Ubiratan Jorge Iorio via revista Oeste:
“O
livre mercado não é a salvação do mundo, porém é o que oferece as
melhores oportunidades para a prosperidade humana e para que cada pessoa
escolha em liberdade.”
Robert Sirico
São
contumazes, sempre que se aponta o desempenho econômico sofrível das
sociedades que se afastaram da economia de mercado, as tentativas de
contrapor-se a esse fato — que a História mostrou ser irrefutável —,
desviando o assunto para o campo da ética, como se economia e ética,
transações voluntárias e princípios morais, liberdade e respeito ao
próximo fossem, além de separáveis, mutuamente excludentes. A lábia é
que no sistema de livre mercado os indivíduos somente se preocupariam em
tirar vantagens dos outros, sem compromissos com as diferenças entre
certo e errado, moral e imoral, interesse privado e “consciência
social”.
Essas
argumentações são falaciosas, porque a superioridade da economia de
mercado, da liberdade econômica e dos mercados livres sobre os arranjos
econômicos que operam debaixo da intervenção de governos não se limita
aos resultados econômicos: é válida também no campo moral. A relutância
por parte de muitas pessoas em aceitar as vantagens éticas e morais do
livre mercado é, em boa parte, fruto de uma comparação subliminar e sem
pé nem cabeça entre defeitos supostamente crônicos de mercados reais e
qualidades supostamente ideais de governos e, obviamente, de uma
doutrinação competentemente conduzida pelos defensores do
intervencionismo, de todos os matizes.
“Eu
não aceito que a ética do mercado, que é profundamente malvada,
perversa, a ética da venda, do lucro, seja a que satisfaz ao ser
humano.” Essa dupla declaração, de amor ao equívoco e ódio à verdade, é
do “patrono da educação” no Brasil, aquele que foi canonizado pelos
políticos e economistas de esquerda e é invocado nas pregações de
teólogos embusteiros, que propõem “libertar” os fiéis impondo-lhes um
regime que os levará inevitavelmente à servidão. É claro que o badalado
“educador” tinha o direito de aceitar ou rejeitar qualquer coisa, mas é
óbvio que sua afirmação acima desnuda uma ignorância espantosa acerca da
natureza dos mercados livres, além de outras finalidades pouco retas,
como a de enfiar a teoria de exploração marxista na cabeça de
estudantes.
Escora-se
a falácia na ideia de que os mercados são como convescotes, em que
egoísmo e ganância são considerados virtudes, quando na verdade nem um
nem outra chegam sequer a ser requisitos para uma verdadeira economia de
mercado. Poucas afirmações são tão equivocadas como a de que a
liberdade econômica mina a vida social, desconhecendo que essa liberdade
é precisamente o arranjo social que mais incentiva o mérito, as trocas e
o comércio voluntários, as recompensas, a busca pelos sonhos pessoais, a
educação por meio da revelação de erros e vários outros atributos. A
verdade, desconhecida por muitos, é que o mercado é um espaço moral em
que muitas virtudes — como trabalho, esforço, dedicação, coragem,
perseverança e criatividade — são incentivadas como meios justos e
lícitos de alcançar recompensas.
A
narrativa de que os mercados são moralmente inferiores a outras formas
de coordenação social precisa ser desmascarada. Empresários virtuosos
precisam deixar de ser considerados generalizadamente como exceções ou
contradições e a identificação automática de comportamentos antiéticos
com o processo de mercado deve deixar de ser aceita como verdade
absoluta, passando a ser vista como exceção. Porém, é preciso ter
cuidado para não cometer o erro crasso de, na tentativa de contestar o
mito da malvadeza dos mercados, fazer uso de argumentos que exaltam o
egoísmo como se fosse uma “virtude”, como fez a escritora libertária e
ateísta Ayn Rand.
O
caminho correto é mostrar que desde o surgimento espontâneo dos
mercados, há milênios, eles são processos inseparáveis dos fundamentos
éticos que regem as sociedades. Há três meios tradicionais para
percorrer essa via: mostrar que os mercados são ordens morais porque
promovem a cooperação social; esclarecer que as recompensas ao sucesso e
aos méritos possibilitam uma justiça distributiva natural; e informar
que os mecanismos dos mercados são aéticos, que funcionam
independentemente de qualquer conteúdo moral e, portanto, qualquer
mercado “funciona” perfeitamente, seja o de fraldas para bebês, seja o
de tequila.
Esses
três meios são válidos, mas acredito que a defesa mais completa, com
bases argumentativas morais, deve mostrar como o processo de mercado não
apenas propicia, mas principalmente requer e recompensa a moralidade,
uma vez que seu funcionamento é tanto melhor quanto mais os
participantes possuem virtudes e qualidades, que são exatamente as que
tornam possíveis as recompensas naturais.
Outro
erro comum entre os críticos do livre mercado é o de analisá-lo apenas
pela perspectiva do Homo economicus, aquele sujeito gelado que mora nos
livros de teoria econômica, incapaz de amar, odiar, ter esperança,
desesperança, fé, ceticismo, coragem, medo, temperança, imoderação,
fraqueza etc. Para que não sejam eternamente indiciadas na polícia como
suspeitas, as análises da moralidade dos mercados precisam considerar o
Homo agens, ou seja, o homem normal, que age e que tem virtudes e
defeitos.
Por
outro lado, é também uma tolice tratar o mercado como um deus e
imaginar que os seus integrantes sejam santos e anjos, mas esse não é o
âmago da questão. A pergunta que se impõe é: que alternativas os
críticos da economia de mercado propõem? A resposta é uma só e seu nome é
intervencionismo, entendido no sentido que lhe dava Hayek, incluindo
não só o denominado “socialismo real”, sistema baseado na abolição da
propriedade privada, mas também, genericamente, as tentativas
sistemáticas de realizar experimentos de “engenharia social”, isto é, de
desenhar ou organizar por meio de medidas coercitivas a floresta
inextricável e desconhecida, o verdadeiro emaranhado de interações
humanas que são a essência do mercado e da sociedade.
Ora,
para início de conversa, esses ensaios com cobaias humanas são
impossibilidades lógicas burlescas, são erros intelectuais grotescos,
porque é logicamente impossível que aqueles que têm a pretensão de
organizar ou intervir na sociedade, ou executar um “projeto de país”,
possam armazenar e saber utilizar o conhecimento necessário para
concretizar o seu desejo de impor na prática o seu conceito particular
de felicidade.
O
socialismo e seus respingos de lama — conhecidos como social-democracia
— são píncaros de arrogância utópica que agridem a condição e a
dignidade humanas, a sucessão natural das coisas, as ordens espontâneas.
As instituições mais importantes para a vida em sociedade — morais,
jurídicas, linguísticas, políticas, sociológicas e econômicas — não
foram criadas deliberadamente por ninguém, elas resultam de um longo
processo evolutivo, em que bilhões de indivíduos, geração após geração,
foram, cada um deles, despejando em um imenso reservatório o copo d’água
das suas experiências, vontades, conhecimentos etc., originando dessa
forma comportamentos repetitivos, ou seja, instituições que, portanto,
não brotam de poucas cabeças iluminadas, mas emergem natural e
lentamente do próprio processo de interação social, tornando-o,
inclusive, possível.
Todos
os arranjos opostos à economia de mercado propostos pelos
intervencionistas agridem os princípios morais elementares, porque
corrompem sistematicamente os conceitos milenares de direito e de
justiça. Como considerar “justo” um sistema que, por definição,
consiste em avaliações arbitrárias feitas por políticos, burocratas ou
juízes, com base em suas emoções e interesses particulares, para
definirem os “resultados finais” do processo social que acreditam serem
os melhores? Pode ser “justo” um sistema coercitivo, aplicado de cima
para baixo? Ou impor o seu conceito subjetivo de felicidade aos outros?
Nesses
sistemas, o que se julga não são comportamentos humanos, mas seus
“resultados” percebidos, sob a fantasia da “justiça social”, cuja
finalidade é, precisamente, iludir os que ela faz sofrer, mascarando-se
como atrativa. Do ponto de vista da justiça natural, não existe nada
mais injusto do que o conceito de “justiça social”, que se baseia em
alucinações pessoais de “resultados” dos processos sociais,
desconhecendo o comportamento de cada indivíduo relativamente às normas
do direito tradicional.
Porém,
os mercados não se baseiam somente no respeito à justiça, mas também na
capacidade de os indivíduos se colocarem no lugar dos outros, de
levarem em consideração os desejos alheios. Uma lanchonete cujo dono não
liga para a vontade dos seus fregueses fechará em pouco tempo, porque
seus consumidores não voltarão se não gostarem da comida ou se passarem
mal. A rigor, os mercados não estimulam nem inibem o egoísmo ou a
ganância, eles apenas possibilitam que tanto altruístas como egoístas se
empenhem por seus fins em paz. E mesmo seres iluminados, que dedicam a
vida a ajudar o próximo, mesmo uma Irmã Dulce, precisam do mercado,
tanto quanto os que têm como único objetivo acumular riquezas.
Para
finalizar, há que se ressaltar, em negrito e em letras coloridas, que
foi a economia de mercado que, desde a Revolução Industrial, com o
surgimento do capitalismo, tirou e continua tirando a maior parte dos
seres humanos da pobreza extrema e que, apesar de ser invariavelmente
execrada como obra do capeta, a verdade é que ela proporcionou dignidade
a muito mais pessoas do que o Estado do bem-estar, esse socialismo
nutella que só ajuda a quem lhe rende frutos políticos e, obviamente, do
que o socialismo raiz, notório supressor da dignidade e da liberdade
individuais.
Nestes
dias estranhos, defender a liberdade econômica, expondo claramente sua
superioridade em termos de eficiência e de moralidade, é mais do que
oportuno — é essencial para fazer o mundo parar de flertar com a
desgraça. Parabéns à Revista Oeste por estar, há exatamente um ano,
cumprindo essa tarefa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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