Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling falaram de 'Brasil: Uma biografia'.
Wagner Moura aplaudiu as autoras do best-seller; ator falou ao G1.
Lilia
M. Schwarcz (em pé) e Heloísa M. Starling, autoras de 'Brasil: Uma
biografia', durante mesa na Flip 2015 (Foto: Divulgação)O encontro, agendado como mesa bônus já depois do anúncio da programação, foi o que mais prendeu atenção do público do evento até aqui. As participantes apontaram incisivamente o que consideram "questões" ou "problemas" centrais do Brasil.
"A nossa história é paradoxal, escravagista e insurgente, cruel e generosa", disse Heloisa. As pessoas na plateia aplaudiram bastante. Uma delas foi o ator Wagner Moura ("Tropa de elite"). Logo agós o fim do debate, ele afirmou ao G1: "Essa discussão me interessa como artista no que eu quero criar e para poder entender minha geração e as gerações passadas".
"Elas discutiram as pedras fundamentais da nossa sociedade que norteiam, até hoje, como a escravidão, e terminaram com a luta pela liberdade, pelos direitos civis. Essa ainda é a luta do Brasil."
'Racismo dissimulado e corrupção'
O cenário armado para a mesa bônus era de sala de aula mesmo, e teve até púlpito. Meio estranho e artificial, e Lilia M. Schwarcz ainda repetia, de tempos em tempos, "é importante que vocês anotem isso". Mas não comprometeu em nada. Os "alunos" presentes prestaram atenção, sem conversas paralelas. Ajudou o texto que a historiadora levou para o evento, centrado em escravidão e, por fim, no racismo que persiste. Fez uma leitura firme o tempo inteiro.
Lilia apresentou dados e estatísticas sobre o tráfico negreiro, contextualizou e não deu opinião sem se apoiar em eventos históricos. Usou, inclusive, os telões para exibir imagens de pinturas de tema histórico e fotos. Controlava o projetor com controle remoto, no estilo projetor de slides.
"A abolição foi apresentada como um presente, uma dádiva, e não como uma conquista. Iam se consolidando antigas redes de dependência e de serventia", disse. Explicou que "a escravidão se enraizou de forma tão forte", que costumes e termos sobrevivem. Listou, então, "as práticas policiais que dão flagrantes mais em negros".
"Não existem bons racismos, todos são perversos, e o nosso é dissimulado" observou.
"Negros são mais penalizados, morrem mais, e não há como negar que há basicamente uma geração de jovens negros sendo exterminados no Brasil. São continuidades, persistências duras de guardar."
Mais otimista
Depois do aplauso intenso recebido por Lilia, foi a vez de Heloisa M. Starling. Ela foi menos acadêmica e encerrou com um tom mais otimista quanto ao futuro. Mas o começo não foi exatamente animador.
"A nossa república permanece inconclusa. Ela fica muito vulnerável ao ataque de seus grandes inimigos. São dois: o patrimonialismo, o entendimento de que o estado é bem pessoal, e a corrupção. Podem ser fatais para nós hoje, mas se manifestaram em qualquer tempo histórico", disse.
Para a historiadora, a corrupção "degrada a confiança que temos uns nos outros, desagrega o espaço público e consiste no furto do bem comum, por exemplo, o furto do dinheiro público".
Ao tratar especificamente dos sentidos da liberdade, também lembrou fatos e revoltas históricos, mas celebrou a Constituição de 1988 como uma conquista. As manifestações de junho de 2013, no entanto, indicaram a necessidade de uma nova agenda para o futuro.
"O Brasil procura saber quem é. O final de toda procura é o encontro. Nem sempre os encontros são fáceis, e não existem escolhas simples na nossa história, mas se o encontro ocorrer e for feita uma escolha, quem sabe a república possa recomeçar entre nós, e o futuro pode ser bom." Foi aplaudida de pé.
No fim, Heloisa e Lilia leram, em forma de jogral, trechos do poema "Hino nacional", de Carlos Drummond de Andrade, que começa com o verso "Precisamos descobrir o Brasil" e termina com o verso-pergunta "Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?".
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