É “apenas” num dos teatros da guerra, o de Kharkiv, mas a contraofensiva para retomar territórios põe um inimigo legendário para correr. Vilma Gryzinski:
“O
maior perigo que enfrentaríamos em Odessa seria sermos sufocados pelos
abraços da população”. Dessa forma irônica, Alexei Timofiev,
comentarista político russo, descreveu num programa da televisão estatal
a a diferença entre propaganda e realidade.
Ouvir da boca de russos totalmente fieis a Vladimir Putin o que está acontecendo na Ucrânia
é uma experiência impagável. As desculpas, as mentiras, as “análises”
francamente ensandecidas, tudo isso ruiu diante da fuga em massa das
forças russas da região de Kharkiv, onde os ucranianos lançaram uma
contraofensiva que vem conseguindo o que parecia impossível.
O
ex-deputado Boris Nadezhdin, por exemplo, foi de uma agressividade
quase sem precedentes num momento em que abrir a boca para fazer alguma
crítica aos militares pode dar quinze anos de cadeia: “As pessoas que
convenceram o presidente Putin de que esta operação especial seria
rápida e eficiente, que não afetaria a população civil, estas são as
pessoas que nos enganaram” .
É
“praticamente impossível ganhar esta guerra” com os recursos que estão
sendo empregados, continuou ele. O ex-deputado ainda classificou a
operação de “guerra colonial”, quase provocando uma apoplexia nos
colegas de programa.
Alexander
Kazakov, que é atualmente deputado, resumiu o clima de pessimismo: “Uma
guerra é algo muito complicado, envolvendo aspectos políticos e
psicológicos. Nesses últimos dias, levamos um grande golpe psicológico”.
A
expressão funérea de autoridades russas contrasta com a euforia da
população das pequenas cidades em torno de Kharkiv quando deixam seus
porões para abraçar e beijar os libertadores. São, na maioria, pessoas
simples, muitas delas trabalhadores rurais idosos que não tiveram forças
para fugir. É comovente a alegria que demonstram.
Aos
poucos, vão encontrando os sinais de que realmente os invasores foram
derrotados: blindados largados no meio do caminho ou até dentro de rios,
montanhas de fuzis, tanques cobertos pelos uniformes de soldados que os
trocaram por roupas civis. Em vez do orgulhoso exército russo, herdeiro
das forças que derrotaram Napoleão e Hitler, parecem mais os
assustadiços soldados que Saddam Hussein havia colocado para,
absurdamente, enfrentar os americanos na libertação do Kuwait.
A
estratégia ucraniana lembrou, para quem se interessa pela história da
guerra, um dos estratagemas recomendados no Livro das Trapaças, de Zhang
Yiingyu, autor chinês da era Ming que entra em detalhes bem mais
comezinhos do que o muito mais conhecido Sun Tzu, da Arte da Guerra.
“Faça
barulho no leste e ataque no oeste”, é um dos estratagemas
recomendados. “Crie uma expectativa na mente do inimigo. Manipule-o para
concentrar recursos num lugar antes de atacar em outro”.
Durante
semanas, o comando ucraniano plantou que lançaria uma grande ofensiva
para libertar Kherson, uma cidade da região sul que forma o “cinturão
russo” conectado com a Crimeia. Kherson parecia um alvo ideal porque
fica às margens do rio Dnipro e depende de uma série de pontes
rodoviárias e ferroviárias para ser abastecida. Bombardeios contra estas
pontes davam a impressão que realmente haveria um ataque em grande
escala, levando os russos a reforçar suas posições.
Enquanto
isso, os ucranianos prepararam tão silenciosamente quanto possível o
contra-ataque na região nordeste. Kharkiv é uma cidade importante, já
foi capital da Ucrânia e palco de algumas das mais decisivas batalhas
entre a Alemanha nazista e o Exército Vermelho na II Guerra Mundial.
Como a região é fronteiriça com a Rússia, as linhas de abastecimento estão garantidas. Ou estavam.
“A
Ucrânia lançou a maior contraofensiva desde a II Guerra Mundial. E
vejam o que fizeram: alcançaram o inalcançável”, comparou o analista
militar americano John Spencer.
“As
forças ucranianas infligiram uma grande derrota operacional à Rússia”,
resumiu o Instituto para o Estudo da Guerra, que costuma analisar
metodicamente todas as ações militares na Ucrânia.
Em
termos bem mais simples, um soldado ucraniano ferido reproduziu para o
Wall Street Journal a ordem de comando nada sofisticada que ele e seus
companheiros haviam recebido: “Vão lá, ferrem com eles, tomem o que é
nosso”.
O verbo usado, evidentemente, foi um pouco mais chulo do que “ferrem”.
Da
mesma forma que fizeram quando tiveram que desistir de atacar Kiev e
abandonar as localidades ao seu redor, os russos disseram que estavam
fazendo um “reagrupamento tático”. A diferença é que agora os mais
entusiásticos defensores da guerra estão abrindo os olhos para uma
realidade completamente diferente da que descreviam desde 24 de
fevereiro.
“A guerra na Ucrânia
vai continuar até a derrota completa da Rússia”, escreveu sombriamente
no Telegram o blogueiro Igor Girkin, que comandou forças separatistas no
Donbas e foi da inteligência militar.
É
preciso lembrar, novamente, que as críticas cada vez mais ostensivas
não são absolutamente contra a guerra, mas à falta de preparo das Forças
Armadas. Muitos também acham que Putin deveria parar com a encenação da
“operação militar especial”, declarar guerra e lançar um recrutamento
obrigatório em massa. As críticas indiretas a Putin são por uso
limitado, não excessivo, da força.
A
contraofensiva de Kharkiv ainda está em andamento e, sozinha, não
define o rumo da guerra. Mas abre possibilidades de tirar o fôlego. “Se
os ucranianos conseguirem sustentar os impressionantes ganhos militares
dos últimos dias, Putin logo se verá contemplando o abismo de uma
derrota catastrófica”, disse no Telegraph o analista militar Com
Coughlin.
Há
uma boa dose de exagero nesse tipo de perspectiva, inclusive por
ignorar que a Rússia sempre tem armas não convencionais como último
recurso.
Inteligência
estratégica, flexibilidade operacional, uso bem planejado de armas como
o sistema de foguetes HIMARS, exploração das fragilidades dos inimigo e
captura de grandes quantidades de armamento e blindados colocaram a
Ucrânia na melhor posição que já teve nesses 200 dias de guerra.
O
maior comandante da Rússia de todos os tempos, o General Inverno, ainda
não chegou, mas este fim de verão está propiciando cenas impensáveis:
soldados russos que largam tudo e fogem a pé ou em carros roubados da
população civil. Nem os mais apaixonados partidários de Putin conseguem
deixar de notar isso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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