É preciso coragem moral para dizer “sim” às coisas imperfeitas que estão à nossa mão. São imperfeitas as Constituições, a História e os líderes. Tentemos sempre aprimorá-los, mas nunca descartá-los por inteiro, sob pena de sermos governados por fanáticos que se acham perfeitos. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
O
Chile de hoje é um país incapaz de dizer sim a um projeto político. Era
um país pobre antes do golpe de Pinochet; um país pobre daqueles que
hoje servem para alimentar ONGs boazinhas do primeiro mundo. As crianças
chilenas e as africanas eram objetos de caridade intercambiáveis.
Décadas depois de Pinochet dar o golpe, jogar alguns comunistas de
helicópteros e colocar uma porção de Chicago Boys na economia, o país
ficou rico. E ainda virou destino chique para a classe média da região,
que vai lá atrás de queijos e vinhos no friozinho. Havia tudo para se
considerar uma história com final feliz, qual seja, o próprio final
feliz.
Mas
os tempos atuais têm uma moralidade peculiar: não basta um final feliz
para ficarmos satisfeitos. Na moral atual, o que se deseja é um
certificado de pureza, e esse certificado só pode ser obtido mediante
uma avaliação total da História. Essa sociedade passou pela escravidão?
Então o que temos hoje não pode ser bom. Essa sociedade atirou
comunistas de helicópteros? Então o que ela tem hoje não pode ser bom.
Vivemos
em tempos que se reputam o Fim da História. Os atuais viventes seguram
um martelinho de juiz e usam seus dogmas morais particularíssimos para
condenar ou louvar cada ato passado séculos ou milênios atrás. Então não
importa que o Chile de hoje viva bem com uma Constituição mais ou menos
herdada de Pinochet. O país não virou uma democracia mantendo a
constituição igualzinha à da ditadura; há emendas. Aliás, vale destacar
que o país conseguiu virar uma democracia depois de atirar comunistas de
helicópteros. Foi por causa disso? Se construir uma democracia próspera
fosse tão fácil, a África estaria bem hoje, já que não faltaram
comunistas naquele continente para serem jogados de helicóptero.
Será
que o Chile conseguiria ser uma democracia próspera caso não
enfrentasse uma verdadeira guerra civil? Não sei, ninguém sabe.
Contrafactual é uma seara da história onde dificilmente há consensos.
Sempre haverá liberais e esquerdistas que digam que o Chile se tornou
uma democracia próspera apesar da violência, ou no mínimo a despeito da
violência.
Por
outro lado, John Gray diz que uma falha dos hayekianos é não perceber
que o liberalismo precisa de força do Estado para ser implementado.
Trocando em miúdos, forças antimercado, tais como sindicatos e grupos de
interesse, são constantes nas sociedades, e só com uma força central é
possível debelá-los.
Seja
como for, só militantes partidários ousariam negar que o trabalho dos
Chicago Boys tem relação com a mudança econômica sofrida no Chile. Os
Chicago Boys não atiraram ninguém de aviões, e o Chile estava numa
situação tão pacífica que não havia clima para atirar de helicópteros
quem quer que fosse. Assim, independentemente do contrafactual adotado,
nos dias recentes era possível ficar com as coisas boas de Pinochet sem
as coisas ruins.
Dizer não ao passado é fácil
Nunca
se diz o que há de objetivamente mau na Constituição chilena; seu vício
é de nascença. É bem o caso oposto ao do Brasil, onde a Constituição
vigente surgiu debaixo de muito confete democrático e midiático, mas que
consegue desagradar a todos em virtude de problemas intrínsecos ao
texto. As pessoas dizem que ela é ruim por amarrar demais os orçamentos
ou por ser particularista demais (trata do Colégio Pedro II, por
exemplo), e não por algum problema na pessoa do Dr. Ulysses. Ao mundo,
os chilenos não dão nenhuma explicação para o que tanto desagrada no
texto constitucional que eles já remendaram à vontade. Tudo é uma
questão de purismo moral.
Há
uma praga no Ocidente que é a transformação da imprensa num partido
progressista global. Se o povo elege um presidente contrário a ela, ela
se julga legítima o suficiente para tratá-lo como um vilão. Disse há
muito que “la démocracie c’est moi”; decretou que a democracia é ela
própria. É provável que isso tenha raízes no pós-guerra e seja uma
doença dos EUA exportada para o mundo. A imprensa determina em uníssono
quem são os vilões, quem são os mocinhos, e nós achamos tudo muito
bonito e democrático. Era assim até acontecerem duas coisas: as redes
sociais emergirem como fonte alternativa de transmissão de informação e a
imprensa se radicalizar. (Será que a radicalização da imprensa é fruto
da perda de poder? Não dá para saber agora.)
Eis
que a beautiful people resolveu fazer um daqueles quebra-quebras
super-democráticos, que a própria beautiful people acha bonito e, por
isso mesmo, ganha um nome que soa legal. Trata-se da “Primavera
Chilena”, quando jovens black blocs cheios de consciência social foram
às ruas pedir a substituição da “Constituição de Pinochet”, o fim da
corrupção e das injustiças sociais, além da diminuição do preço dos
transporte público em Santiago. Gente fina, elegante e sincera. Saldo de
mortos: 34, segundo a historiografia oficial. Foi um mistureba de caras-pintadas com junho de 2013. Das nossas violentas “Jornadas de Junho”, porém, não saiu nenhum mártir.
Aquele
traço do nosso país apontado e deplorado por comunistas é real e é bom:
o Brasil é pouco propenso à violência política. Por mais que os
intelectuais e a TV clamem por sangue, nosso povo é tranquilo e não vai
pegar em armas por causa de abstrações.
Agora
façamos uma continha. Segundo os cálculos nada imparciais da Comissão
da Verdade, morreram por causa de política 434 pessoas entre 1964 e
1988. A “Primavera Chilena” durou cinco meses (de outubro de 2019 a
março de 2020). Com essa taxa de mortalidade, se a Primavera Chilena
durasse um ano, mataria 51. Para morrer a mesma quantidade de gente que
supostamente morreu no Brasil em 24 anos, bastavam oito anos e meio de
“Primavera Chilena”.
Em
vez de sair explicando tudo por abstrações, seria necessário ter em
mente que os povos variam. Os chilenos ativaram comunistas de avião
porque eram violentos e estavam conflagrados. Com a desestabilização na
Constituição do país, o Chile voltou a um estado de conflagração. Nele, a
violência emerge — e se corpos voltarem a cair de helicópteros por
causa de política, não será de surpreender.
Intolerância seletiva
Os
políticos chilenos compensaram a barbárie com a convocação de um
plebiscito para saber se deveria haver uma nova constituição.
Quando
Pinochet saiu vitorioso, Allende foi o derrotado. Os chilenos
politizados demonstram toda a intolerância do para o que quer que se
refira a Pinochet; desejam fazer uma refundação do Chile para apagá-lo
da história, purificar o país. Por esse capricho, estão dispostos a
causar a morte de dezenas nuns poucos meses.
No
entanto, isso se faz ao mesmo tempo em que Allende é alçado à condição
de santo. Ora, Allende era um entusiasta das políticas eugenistas da
Alemanha Nazista e tentou implementar Tribunais de Esterilização no
Chile quando ainda era parlamentar. O próprio Partido Socialista do
Chile nasceu com financiamento da Alemanha Nazista, como mostrou Victor Farías
em 'Salvador Allende: Antissemitismo e eutanásia'. Ele, aliás, encerra o
livro acusando Bachelet de ter tentado dar seguimento ao projeto de
Allende. Os socialistas seriam os mesmos.
Por
aí vemos que só interessa revirar o passado para criticar o que deu
certo. Se deu errado e era evidentemente monstruoso, não sofrerá
escrutínio. É proibido revirar o passado e concluir que as coisas
poderiam ter sido bem piores.
A facilidade do “não”
Por
fim, um problema do Chile que me parece generalizado é o abandono da
política nas mãos dos fanáticos. O cidadão vaidoso e respeitável só tem
duas opções: ou bem ele defende um monte de absurdo da moda, ou bem ele
dá de ombros e faz um ar blasé. Parece que votar é coisa de quem tem
candidatos ideais, puros. Como só os fanáticos têm tais candidatos, só
os fanáticos votam.
A barbárie convocou plebiscito, 50,95% dos eleitores votaram. Dos que votaram, 78% quiseram uma nova Constituição.
Nas
eleições presidenciais, o mesmo espírito dominou o país: ou o candidato
dos sonhos, ou o desdém pela política. Os fanáticos disseram “sim” para
Boric, o resto foi blasé e disse não para a política.
Nesse
ínterim, uma Constituição aloprada ficou pronta, e tudo o que resta ao
Chile é dizer “não”. De “não” em “não”, vão esquentando a temperatura
política. Os blasés lavam as mãos enquanto os fanáticos tocam fogo no
circo.
Que
fique a lição para o mundo. É preciso coragem moral para dizer “sim” às
coisas imperfeitas que estão à nossa mão. São imperfeitas as
Constituições, a História e os líderes. Tentemos sempre aprimorá-los,
mas nunca descartá-los por inteiro, sob pena de sermos governados por
fanáticos que se acham perfeitos.
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