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Com o PT no poder, o Brasil seguirá financiando a máquina de guerra de Putin, ainda que Lula e os seus diplomatas digam aos quatro cantos que o país é neutro e que evita se meter no conflito. Caio Mattos para a revista Crusoé:
Enquanto
se propõe a mediar a paz entre Rússia e Ucrânia, Lula tem sustentado a
ideia de que o Brasil precisa se manter neutro no conflito. Na semana
passada, o presidente também deu declarações de que “não quer se meter
na questão”, querendo dizer que está mais preocupado com as questões
internas, como a pobreza e a fome. Mas não é bem assim. Uma análise de
dados comerciais mostra que o Brasil tem feito a diferença nos problemas
mundiais, financiando a máquina de guerra russa de uma maneira parecida
com o que fazem China e Índia.
Esse
financiamento se dá por meio da importação de combustíveis da Rússia. O
fluxo está em ascensão desde o final de 2022. Segundo o Ministério do
Desenvolvimento, as importações de derivados de petróleo russo
sextuplicaram no primeiro semestre deste ano, comparado ao mesmo período
em 2022. Trata-se de um aumento de 1,44 bilhão de dólares nesse
comércio, que antes quase inexistia. “O Brasil não tem histórico de
importar petróleo da Rússia. Pela proximidade geográfica, os
importadores brasileiros sempre tiveram como referência os Estados
Unidos”, diz Pedro Rodrigues, diretor-executivo da consultoria de
energia CBIE.
O
motor dessa nova tendência é o diesel. No primeiro trimestre deste ano,
a Rússia respondeu por 13% das importações brasileiras desse derivado. O
diesel russo chega ao Brasil a preços baixos, ainda menores que os
importados ou produzidos pela Petrobras. A estatal, contudo, não importa
da Rússia por medo de sanções americanas. Quem traz o diesel russo são
companhias menores, privadas, que se aproveitam das pechinchas globais.
Essas
promoções começaram a aparecer após a implementação das sanções
americanas, iniciadas um mês após a invasão russa. Principal importador
energético dos russos, a União Europeia também restringiu as compras da
Rússia ao longo do ano passado. Neste fevereiro, o bloco baniu petróleo e
derivados. Para suprir o mercado interno, os europeus foram comprar dos
americanos. O resultado foi que o diesel russo, em excesso no mercado,
barateou. Na contramão, o produto americano encareceu. As empresas
brasileiras então se adaptaram, importando mais da Rússia e menos dos
Estados Unidos. Só para se ter uma ideia, enquanto as compras da Rússia
foram multiplicadas por seis, a dos americanos caíram para menos da
metade — uma queda de 3 bilhões de dólares. Parceiros do Brics, como
China e Índia, também aumentaram o consumo de petróleo e derivados da
Rússia.
Ao
comprar diesel russo, o Brasil, ao lado de chineses e indianos,
financia a máquina de guerra de Putin. Após registrar uma queda nas
exportações com o início da invasão, em fevereiro do ano passado, o
Kremlin foi aos poucos retomando as vendas, com uma mãozinha dos países
aliados. Em abril, as exportações de petróleo e derivados russos já
tinham voltado aos níveis de antes da guerra, segundo a Agência
Internacional de Energia. A recuperação comercial refletiu-se em um
aumento dos dispêndios militares. O Kremlin gastou 26 bilhões de dólares
em defesa em janeiro e fevereiro de 2023, quase o triplo do mesmo
período no ano anterior, na véspera da invasão. “Quem compra petróleo da
Rússia possibilita uma guerra ilegal e contribui para o sofrimento dos
ucranianos”, afirma David Cortright, da Universidade de Notre Dame, nos
Estados Unidos.
Lula
poderia desencorajar os importadores brasileiros, para evitar que eles
financiem o belicismo de Moscou, ou até mesmo aplicar sanções à Rússia. O
petista não faz isso por vários motivos. O primeiro é a falta de
tradição do Brasil em aplicar sanções. Tanto é assim que essa
possibilidade nem passa pela cabeça do presidente, assim como não foi
aventada pelo seu antecessor, Jair Bolsonaro. No atual momento, em que o
governo faz todo o possível para reduzir o preço nas bombas dos postos,
essa chance é ainda menor. “O governo não faz nenhuma censura a quem
importa combustível russo. Pelo contrário, comemora a redução de preços
nas bombas, provocada por uma importação eticamente reprovável”, diz o
pesquisador Leonardo Coutinho, que escreveu um artigo na revista The
National Interest, denunciando as compras de diesel russo pelo Brasil.
Também
é preciso ter em conta que qualquer ação elevaria o preço dos
combustíveis, principalmente para caminhoneiros. Além de um custo
político, isso poderia elevar o preço de produtos transportados em
estradas. Sendo assim, qualquer interferência teria de ser muito
cautelosa. “A importação e venda de diesel é mercado. Às vezes a gente
tem uma ideia de que o petróleo é muito estratégico e deve ser
controlado e tal, mas, friamente, o mercado de diesel é como, por
exemplo, o de cerveja. O governo não deve se meter nisso”, diz Pedro
Rodrigues, da CBIE. O PT, assim, prefere deixar rolar. Trata-se de um
não assunto. O governo adota um liberalismo seletivo com os importadores
de diesel, enquanto faz o possível para interferir nos preços da
gasolina da Petrobras, na venda de carros ou até mesmo no comércio de
eletrodomésticos. “Quando a geladeira está velha, tem que trocar“, disse
Lula nesta semana.
Outro
fator que inibe uma ação do governo brasileiro contra a Rússia é o
antiamericanismo histórico dos petistas. São eles que estão impedindo a
venda de blindados ambulância para a Ucrânia, algo que turbinaria a
indústria nacional e não teria impacto no equilíbrio da guerra. A
atitude priva o Brasil e empresas nacionais, como a Iveco Defense
Vehicles, de obter dividendos e se modernizar. Os petistas, porém,
argumentam que as ambulâncias do modelo Guarani poderiam ser reformadas e
usadas em ofensivas ucranianas. O paradoxal é que esse temor de apoiar
um dos lados do conflito não aparece quando o Brasil financia a Rússia
indiretamente, por meio da importação de diesel.
“A
diplomacia sob governos petistas nunca teve interesse em desagradar
Putin. Foi assim também com Dilma Rousseff após a invasão da Crimeia, em
2014”, diz Leonardo Coutinho. “Isso se explica porque Lula se alinhou a
Putin para implodir a dominância do dólar nas relações comerciais e
para redesenhar a geopolítica com a tal multipolaridade, que tem a
Rússia e China como patrocinadoras e interessadas.”
Com
o PT no poder, o Brasil seguirá financiando a máquina de guerra de
Putin, ainda que Lula e os seus diplomatas digam aos quatro cantos que o
país é neutro e que evita se meter no conflito. No final das contas, a
suposta neutralidade não passa de uma forma para consentir com a invasão
russa, sem desagradar ao Ocidente.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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