Ex-chefe do Mossad diz que aliados do governo são piores que Ku Klux Klan e deputados do Likud iniciam movimento para barrar radicalização. Vilma Gryzinski:
A crise em Israel é brava e ameaça a coesão social do país.
Para
comparar, com um certo exagero: tem o mesmo modelo de esquerda contra
direita no Brasil, com um discurso altamente radicalizado, mas nós não
temos inimigos externos, nossa existência nacional não é ameaçada e um
território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados absorve extremismos
muito mais do que os minúsculos 22 mil quilômetros de quadrados de
Israel.
A briga é em torno das reformas do judiciário que o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu
está promovendo com a inspiração e o apoio de pequenos partidos
ultrarradicais. Mudar o equilíbrio entre os poderes é um assunto muito
sério, tanto para dar mais poder quanto para retirá-lo — e pior ainda
quando o próprio primeiro-ministro está envolvido em processos por
corrupção, o que obviamente dá a impressão de agir em interesse próprio.
Nenhum
dos lados cede e a crise só fica pior, num arco que vai desde o aumento
do número de médicos que querem ir morar no exterior até a fuga do
capital que promove o desenvolvimento econômico de um país cujo maior
recurso é a engenhosidade aplicada em startups — num ambiente estimulado
por um Netanyahu na época em que se preocupava em criar as condições
para esse tipo de crescimento, não em fechar portas para a maioria que
rejeita as reformas.
Todas
as tentativas de diálogo fracassaram, mas uma pequena luz parece ter se
acendido e a solução pode estar na própria direita, ou na direita
tradicional, representada, majoritariamente, pelo Likud, o partido de
Netanyahu.
Circulou
a informação, por exemplo, que o ministro da Defesa, Yoav Galant, está
negociando um acordo de união nacional, uma jogada ousadíssima que
traria para o governo os dois principais partidos de oposição,
representados pelo ex-primeiro-ministro Yair Lapid e Benny Gantz, que já
foi chefe do estado-maior. Em troca da coalizão com a oposição, cairiam
fora os aliados mais extremistas de Netanyahu: Itamar Ben Gvir,
ministro da Segurança Nacional, e Bezalel Smotrich, ministro das
Finanças, chefe dos dois partidos minoritários que garantem a coalizão.
Só
para dar uma ideia do que esses ministros representam: Tamir Pardo,
ex-diretor do Mossad, comparou-os a nada menos do que a Ku Klux Klan.
Aliás, disse que eram pior ainda, dando como exemplo a inacreditável
declaração de Smotrich — depois retratada — de que a cidade palestina de
Huwara devia ser “varrida do mapa” pelas forças armadas, em represália
por um atentado em que foram assassinados quatro judeus.
Atenção:
a comparação foi feita por um ex-diretor do Mossad escolhido por
Netanyahu que estreou no cargo, em 2011, com o assassinato, no coração
do Irã, de um cientista de 35 anos envolvido no maior pesadelo de
Israel, a bomba nuclear iraniana.
Outro
detalhe: Pardo, como o nome indica, é de origem sefardita, a parcela da
população israelense que se sente discriminada pela predominância que
os judeus de origem europeia, chamados ashkenazi, sempre tiveram na
direção do país.
Essa
é uma das muitas questões que alimentam os ressentimentos mútuos,
botando lenha numa fogueira que um dos maiores inimigos de Israel,
Hassan Nasrallah, chefe do Hezbollah no Líbano, assim comemorou: “Tudo o
que está acontecendo é um dos sinais do fim dessa entidade”. Esta é a
palavra que os inimigos de Israel usam para identificar o país que
sonham eliminar do mapa – e aproveitam para celebrar quando está se
dando mal.
Um
dos maiores e mais perigosos indicadores da profunda divisão atual é o
número enorme de reservistas — na faixa dos 10 mil, e crescendo — que se
recusam a fazer o trabalho, voluntário ou obrigatório, que ajuda a
garantir o poder militar de Israel.
Um
dos maiores focos de resistência está na Força Aérea (considerada de
“esquerda”, enquanto os combatentes em solo são de “direita”), mas
virtualmente todos veteranos dos serviços de segurança já assinaram
protestos. Incluindo o próprio Mossad, o Shin Bet, a polícia especial, e
ex-combatentes da mais celebrada unidade militar de forças especiais, o
Sayeret Maktal.
Serviram
nela o próprio Netanyahu, que fez operações por trás da linha inimiga
na época da guerra do Líbano, e Tamir Pardo. O ex-diretor do Mossad
participou da legendária Operação Entebe, a libertação de reféns feitos
num sequestro de avião levado para Uganda. A única baixa sofrida pelos
israelenses foi Yonathan Netanyahu, o heroico irmão que Bibi sempre
tentou emular.
Como
é possível que pessoas com esse histórico de dedicação e sacrifício por
Israel hoje estejam em lados tão absurdamente inimigos?
O
pouco de esperança pode estar em políticos como Eli Dallal, do Likud,
ao tuitar que só apoiará mudanças na lei que contem com um amplo
consenso nacional. Outro membro do Likud, ministro da Cultura e do
Esporte, disse que o governo aceitará decisões da Suprema Corte,
inclusive na questão da razoabilidade.
O
novo teste será em breve e envolve um conceito jurídico que garante os
fundamentos do estado de direito — impossibilitando que sejam criadas
leis que contrariem as bases desse estado. Um exemplo bem simplificado:
os direitos dos cidadãos árabes, que são 20% da população israelense,
não podem ser revogados, ao contrário do que pregam radicais como Ben
Gvir e Smotrich.
Na briga com o judiciário, o legislativo, onde Netanyahu tem maioria, votou por sua revogação na semana passada.
Agora, o caso irá ao Supremo Tribunal, abrindo uma nova frente de confronto.
“O
Likud foi criado como um partido liberal”, disse o ex-diretor do
Mossad. “Netanyahu se aliou a partidos horríveis e racistas e suas
posições políticas não estão longe disso. O país está sendo rachado em
dois e o primeiro-ministro nem pisca”.
Até
o atual diretor do Mossad, David Barnea, já plantou que chamou seu
pessoal de cúpula e informou que “se houver uma crise constitucional,
estarei do lado certo da história”.
A
pressão sobre Netanyahu é gigantesca, com protestos enormes e críticas
feitas por todos os componentes mais importantes da nação, incluindo os
donos do dinheiro. Talvez ela tenha se revelado do problema cardíaco que
levou o primeiro-ministro a precisar de um marca-passo.
Poderia
Netanyahu, que se manteve no governo como um mestre da habilidade
política e especialista na arte da sobrevivência, ter uma revelação e
procurar um acordo com aliados da oposição em troca de tirar os
extremistas do governo?
A hipótese parece muito além de remota. Mas já está sendo cogitada por políticos do seu próprio partido.
Num país que se especializou em fazer o impossível, não seria completamente absurdo.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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