BLOG ORLANDO TAMBOSI
No dia 10 de junho, Ted Kaczynski (o "Unabomber") foi encontrado morto na sua cela, ao que tudo indica por ter cometido suicídio, mas as suas ações e ideias continuarão a estimular as nossas reflexões. Patrícia Fernandes para o Observador:
1 O anti-herói
A
figura do anti-herói ocupa um lugar central na literatura e no cinema e
a sua análise é um tópico de estudo clássico na tentativa de
compreender o fascínio que exerce sobre nós: porque parecemos incapazes
de resistir às personagens que se apresentam como moralmente ambíguas?
Serão essas personagens as mais verdadeiras, permitindo-nos conjeturar
os nossos próprios limites morais? Seria eu capaz de fazer isto? Que
decisão tomaria nas mesmas circunstâncias? Quão distante estou desta
figura?
Não
admira então que o anti-herói esteja presente em todo o cânone
cultural, desde Homero – não é Ulisses, o dos mil ardis, o anti-herói
por excelência? – até Shakespeare, de Humbert Humbert, de Nobokov, às
muitas personagens de Clint Eastwood. E quem consegue resistir ao
fascínio por Walter White, o humilde professor do secundário que parece
empurrado pelas circunstâncias para uma vida moralmente dúbia?
O
anti-herói prende a audiência, mas a estratégia pode não ser tão útil
quando se dá aulas de filosofia. Com raríssimas exceções – como
Jean-Jacques Rousseau, que teve uma vida interessante e uma alma
atormentada, ou John Stuart Mill, que teve uma vida intensa e uma alma
sofrida –, a maioria dos filósofos teve vidas insípidas. A única
aspiração realista é arrancar um sorriso aos alunos com a ideia de que
os relógios de Konigsberg eram acertados pelas rígidas rotinas de
Immanuel Kant. Não é, por isso, surpreendente que, de todos os
pensadores que refiro nas aulas, a única figura que gera realmente
fascínio seja a de um não-filósofo: Ted Kaczynski.
Mais
conhecido como Unabomber, a vida de Ted Kaczynksi é absolutamente
invulgar: nascido em 1942 no seio de uma família de classe média, Ted
destacou-se na escola pelo seu elevado QI, tendo saltado dois anos
escolares até entrar na Universidade de Harvard com 16 anos. Como muitas
vezes acontece, esta excelência intelectual era acompanhada por
capacidades sociais mínimas, que se agravaram numa universidade de
elite, em que a maioria dos colegas provinha de meios sociais muito
distintos. Para além disso, Ted foi sujeito a uma das experiências de Henry A. Murray,
um polémico investigador no domínio da psicologia, que terá perturbado
ainda mais a frágil condição do jovem. Ted doutorou-se em matemática
pela Universidade de Michigan e é contratado pela Universidade da
Califórnia, onde lecionou durante dois anos. Mas o seu desconforto com o
mundo moderno, em especial com o crescente desenvolvimento tecnológico,
era já profundo, pelo que acabou por desistir dessa posição,
mudando-se, mais tarde, para uma zona isolada de floresta em Montana,
onde construiu, com o seu único irmão, uma pequena casa de madeira, na
qual viveu sozinho durante praticamente vinte anos.
O objetivo de Ted era claro: queria viver longe do mundo civilizado e em máximo contacto com a natureza, pois apenas estas condições garantiriam que ele mantinha autonomia e independência. Mas o seu objetivo tornou-se mais difícil com o barulho de máquinas e aviões que o ia cercando, pelo que a sua raiva contra o mundo moderno foi aumentando até tomar uma decisão definitiva: a de adotar medidas de protesto concretas contra o sistema tecnológico sem renunciar à violência. De 1978 a 1995 enviou vários explosivos para alvos específicos (universidades e laboratórios de investigação, companhias de avião e lojas de informática), matando três pessoas e ferindo diretamente mais de vinte.
A
investigação dos seus crimes foi a mais longa e a mais cara realizada
pelo FBI até então, mas não gerava frutos: os inspetores continuavam sem
uma pista daquele que designavam como Unabomber. O cenário só se
alteraria em 1995, quando Ted enviou para o The New York Times e o
Washington Post um texto de 35 mil palavras, comprometendo-se a não
matar mais ninguém caso os jornais publicassem o seu manifesto. Com o
acordo do FBI, os jornais fizeram-no, esperando que isso pudesse levar a
pistas definitivas sobre a sua identidade.
Esta
hipótese revelou-se acertada: Linda, a mulher do irmão de Ted, leu o
manifesto e percebeu de quem se tratava. Convenceu David Kaczynski a
denunciar o irmão e Ted foi detido
no dia 3 de abril de 1996. Dentro da pequena construção de madeira onde
vivia, os inspetores encontraram material mais do que suficiente para o
ligarem ao Unabomber e Ted, depois de várias peripécias judiciais,
acabou por se declarar culpado pelos crimes de que era acusado, passando
a cumprir pena de prisão num estabelecimento de alta segurança.
Há
muita literatura sobre as razões que nos levam a ser seduzidos por
notícias sobre crimes (não é a CMTV um sucesso?) ou sobre os
acontecimentos históricos mais horrendos (não são os livros e filmes
sobre o nacional-socialismo uma contínua fonte de atração?), mas pode
não ser tão evidente a razão que torna Ted uma boa fonte de discussão
filosófica. As razões, na verdade, são muitas.
Ted
justificou sempre as suas ações violentas como necessárias e legítimas
para fazer ouvir a sua voz: se poucas pessoas têm acesso ao espaço
público, como poderia ele dar a conhecer aos outros a Verdade sobre os
perigos da sociedade tecnológica? Primeira pergunta: é legítimo
considerar que os fins justificam os meios? (Se estão curiosos, posso
dizer-vos que na plateia a opinião geralmente se divide.)
O
irmão de Ted afirma que, mal leu as primeiras páginas do manifesto,
sentiu o chão fugir-lhe dos pés, mas demorou vários meses a tomar a
decisão de falar com o FBI. Apesar de sentir que era a coisa certa a
fazer, custava-lhe denunciar o irmão e correr o risco de que ele fosse
ferido ou morto. Segunda pergunta: o que fariam na posição de David?
(Estão curiosos? A maioria dos alunos, independentemente do ano e do
curso, diz que não denunciaria o irmão.)
Olhemos agora para o primeiro parágrafo do Manifesto:
“A
Revolução Industrial e as suas consequências foram um desastre para a
espécie humana. Apesar de terem aumentado muito a esperança de vida dos
que vivem nos países “avançados”, desestabilizaram a sociedade, tornaram
a vida insatisfatória, sujeitaram os seres humanos a indignidades,
levaram a um sofrimento psicológico generalizado (no Terceiro Mundo
também a sofrimento físico) e infligiram danos severos ao mundo natural.
O desenvolvimento contínuo da tecnologia vai piorar a situação.
Sujeitará certamente os seres humanos a maiores indignidades e infligirá
maiores danos ao mundo natural, conduzirá provavelmente a maiores
perturbações sociais e a maior sofrimento psicológico, e poderá levar a
um aumento do sofrimento físico, mesmo nos países “avançados”.”
Terceira pergunta: tem Ted Kaczynski razão?
2 As ideias de Kaczynski
Em artigo de 2018, o jornalista John H. Richardson
designou como “Kaczynski Moments” (momentos Kaczynski) aqueles em que
somos tomados pelo desconforto de concordar com as ideias de um
terrorista. Essas ideias podem ser encontradas nos dois livros que Ted
publicou desde que foi preso: o primeiro foi inicialmente publicado em
2008, sob o título Road to Revolution, mas foi republicado em 2010 com
novo título: Technological Slavery: The collected writings of Theodore
J. Kaczynski; o segundo é de 2016 e tem como título Anti-Tech
Revolution: why and how. Mas o texto basilar continua a ser o Manifesto,
considerado por muitos como profético (está incluído no primeiro dos
livros referidos e foi traduzido para português pelas Edições Libertária).
Nele,
Ted Kaczysnki considera que a sociedade industrial, com o seu
desenvolvimento tecnológico, constitui a causa do sofrimento psicológico
e dos danos ambientais que afetam as sociedades atuais. Mas o seu
argumento mais relevante é desenvolvido com a ideia de que a tecnologia
atenta contra a nossa dignidade por limitar a nossa capacidade de viver
de forma autónoma. Não se trata aqui de um conceito metafísico de
liberdade: Kaczynski apoia o seu argumento numa análise psicológica,
defendendo que a satisfação com a vida decorre de um processo de poder,
que passa pela determinação de um objetivo, pelo esforço dirigido para
atingir esse objetivo e pela realização desse objetivo. A maioria das
pessoas só se sente realizada quando esse processo é realizado de forma
autónoma: é isso que nos faz sentir autoestima e auto-confiança. O
problema da tecnologia é que, tornando-nos meras peças na engrenagem de
uma grande máquina, nos retira autonomia e a possibilidade de satisfazer
esse processo de poder. As consequências são todo o tipo de desordens
apontadas aos nossos tempos: sentimentos de aborrecimento,
inferioridade, baixa autoestima, ansiedade, depressão, culpa,
frustração, hostilidade, etc.
Muitas
páginas do manifesto são, então, dedicadas ao modo como o nosso
intelecto funciona e de como a tecnologia o afeta, com considerações que
hoje designaríamos de psicologia evolutiva: “Atribuímos os problemas
sociais e psicológicos da vida moderna ao facto de a sociedade exigir
que as pessoas vivam sob condições radicalmente diferentes daquelas para
as quais a nossa espécie evoluiu”. E, de facto, os estudos mais
recentes sobre o impacto da tecnologia têm reforçado esta hipótese: os
nossos corpos não estão adaptados para o mundo digital que criamos.
Devemos
reconhecer que o desconforto de Ted com a vida moderna não é uma
novidade: pensemos em Rousseau, com as suas críticas ao mundo
civilizado, ou em Henry David Thoreau, com as suas reflexões sobre o
retiro na natureza. Mas as conclusões de Kaczynski são particulares:
considerando que “não é possível reformar ou modificar o sistema por
forma a evitar que ele prive as pessoas de dignidade e autonomia”, a
solução só pode ser a da “revolução contra o sistema industrial”. E
Kaczynski não está a falar de uma revolução política: a sua proposta é a
destruição material do sistema económico e tecnológico e o regresso às
condições de vida anteriores à revolução industrial.
3A atualidade de Kaczynski
Ainda
que muitos possam concordar com o diagnóstico feito por Kaczynski (e o
manifesto foi extremamente bem recebido em 1995), poderíamos pensar que a
sua proposta é demasiado exigente para ser levada a sério. Quem é que
estaria realmente disponível para viver num mundo sem o conforto
material a que estamos habituados, desde casas de banho a frigoríficos?
Contudo,
as ideias de Ted mantêm uma popularidade anormal. Provam-no os inúmeros
documentários e artigos sobre ele e o sucesso de séries, como Manhunt ou Unabomber: in his own words, e de podcasts, como American Scandal: The Unabomber ou Project Unabom, que continuam a revisitar não só a sua história, mas sobretudo as suas ideias.
O jornal universitário The Harvard Crimson
lançou em abril deste ano um podcast que procura refletir sobre a
possibilidade de separar ações inaceitáveis de ideias que continuam a
atrair, em especial os mais jovens. Parte da razão para essa atração
estará no crescimento das preocupações ambientais, que encontram no
Manifesto um diagnóstico e uma solução. Os jornalistas que acompanham os
movimentos que se designam geralmente como “anti-civ”
(anti-civilização) notam um aumento na adesão a estas ideias, muito
impulsionadas, curiosamente, pelas ferramentas digitais, como o Reddit, o
Facebook ou o Discord.
Por
outro lado, o facto de estarmos hoje mergulhados numa sociedade muito
sensível aos problemas mentais faz com que consideremos com maior
razoabilidade as hipóteses levantadas por Kaczynski. E também os
desenvolvimentos mais recentes ao nível da inteligência artificial têm
provocado admiração, mas sobretudo medo: não teremos ido longe de mais?
Por
fim, parte importante da razão parece prender-se com o fascínio pelo
anti-herói: queremos compreender como é que uma pessoa tão inteligente
se transformou em alguém disposto a sacrificar outros seres humanos em
nome de uma ideia, sentindo-se legitimado a exercer violência em nome
dessa ideia. E, nessa medida, a história de Kaczynski é muito útil para a
atualidade: embora não se possa saber exatamente o que aconteceu dentro
da sua cabeça, não há muitas dúvidas de que o facto de ter vivido
praticamente isolado durante tanto tempo ampliou o seu desconforto com a
realidade e o desejo de modificar, a qualquer preço, o mundo em que
vivia. Ora, isto não é muito diferente do que acontece com as muitas
pessoas que vivem hoje isoladas nas suas bolhas sociais (digitais),
falando apenas com quem pensa de forma semelhante e alimentando a ideia
de que o mundo está errado e deve ser modificado, a qualquer preço.
Porque elas, como acontecia com Ted, nunca estão erradas.
No
dia 10 de junho, Ted Kaczynski (Unabomber) foi encontrado morto na sua
cela, ao que tudo indica por ter cometido suicídio, mas as suas ações e
ideias continuarão a estimular as nossas reflexões.
PS:
Apesar de se tratar de um texto anti-tecnologia, uma das palavras mais
usadas por Ted Kaczynski no seu manifesto é “leftism” (esquerdismo), que
ele considera não em termos ideológicos ou políticos, mas como um tipo
psicológico específico (usando-o como um exemplo dos problemas
psicológicos dos nossos tempos). A análise de Kaczynski é
particularmente perspicaz quanto a este aspeto, mas terá de ficar para
outro texto.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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