BLOG ORLANDO TAMBOSI
Europeus rejeitam modismo que começou nos Estados Unidos, uma mudança da língua feita de cima para baixo, das elites para o povão. Vilma Gryzinski:
“Cada
vez que um apresentador de noticiário usa a linguagem sensível aos
gêneros, mais algumas centenas de votos vão para a AFD”.
Assim
resumiu a encrenca o líder democrata-cristão Friederich Merz, da
direita tradicional, referindo-se ao avanço do partido de direita
nacionalista, o Alternativa para a Alemanha, conseguido simplesmente
pela revolta de eleitores comuns com as maluquices politicamente
corretas que pretendem inverter a dinâmica das línguas, organismos vivos
que mudam de baixo para cima, com mudanças impostas de cima para baixo.
E
a coisa está funcionando: segundo a mais recente pesquisa, 18% dos
alemães apoiam atualmente o AFD, um choque para todo o resto do espectro
político.
Em
alemão, um idioma com palavras conglomeradas em blocos, a novilíngua é
mais complicada ainda. Para se referir aos espectadores sem usar a forma
masculina, que engloba tudo, apresentadores de televisão têm que usar a
seguinte versão supostamente inclusiva: Zuschauer*inner. Antes que o
modismo americano batesse até na língua de Goethe, Zuschauer bastava.
Professores viram Lehrer*inner. Trabalhadores estrangeiros (ou estrangeires), Arberitgeber*inner.
A tendência natural das línguas à simplificação, mesmo no alemão, é assim contrariada.
“Todo
esse debate sobre gênero é uma pomposidade de pessoas que não fazem
ideia do que é a língua”, reclamou recentemente o conhecido apresentador
Wolf Schneider, citado pelo Telegraph.
Nas línguas latinas, que têm flexão de gênero, como o português, o debate fica ainda mais surreal.
A
maior prova disso é que os defensores da linguagem falsamente inclusiva
querem impor o uso de abominações como “todes” ou “menines”, como na
Espanha — é claro que fomos correndo copiar —, mas quando uma palavra é
neutra, como presidente, defendem a flexão feminina, presidenta — desde,
claro, que a envolvida seja de esquerda; se for de direita, tendem a
usar algum adjetivo ofensivo.
Na
França, foi um auê quando um dos mais tradicionais dicionários, o Le
Robert, passou a incorporar o pronome “iel” como alternativa aos
tradicionais, “il” e “elle”, ele e ela.
Até
Brigitte Macron, que sensatamente procura evitar polêmicas, opinou:
“Ele e ela, já está bom. A língua é tão bela. Dois pronomes bastam”.
Detalhe:
ela foi durante toda sua vida profissional professora de literatura — e
das boas, atestam ex-alunos — e também dava aulas de teatro quando
conheceu o marido, ainda estudante. Hoje, dá aulas de francês num
projeto para jovens adultos.
O
ministro da Educação na época em que eclodiu o debate linguístico,
Jean-Michel Blanquer, foi mais incisivo: “Querem triturar o francês”.
“A escrita inclusiva não é o futuro da língua francesa”, estrilou.
“É
o ápice da loucura, apresentado sob a bandeira do politicamente
correto”, concorda um abaixo-assinado que corre na Itália contra uma
iniciativa semelhante — e mais indigente ainda, como se fosse possível.
Em
lugar de “lui” e “lei”, os pronomes pessoais teriam a vogal central
substituída pelo “schwa”, semelhante à letra “e” invertida. O schwa é
usado no Alfabeto de Linguagem Fonética — aqueles hieróglifos que
ninguém entende — para representar o som entre “a” e “e” que é muito
comum na língua inglesa. Sequer existe um som parecido em italiano.
As
consequências de obrigar os italianos a pronunciar um som alheio ao
idioma de Dante seriam “involuntariamente cômicas”, diz o acerbo
abaixo-assinado, que tem o apoio das presidente da Accademia della
Crusca, equivalente à Academia de Letras.
A
inclusividade de gêneros já acontece na prática de forma natural, não
forçada pela ideologia “woke” — uma palavra importada diretamente dos
Estados Unidos que tende a deixar muitos franceses loucos da vida e
prever, algo exageradamente, o fim da civilização ocidental, entre
outros males.
Diante
do total predomínio feminino no professorado, por exemplo, é comum que
suas congregações sejam tratadas como “professoras” — mesmo que existam
representantes do cromossoma XY entre elas.
Diplomatas,
artistas, juristas, analistas, economistas, massagistas, estetas e,
claro, jornalistas, entre outras atividades terminadas em “a”, deveriam
mudar para o “e” em nome da inclusividade?
Seria, obviamente, uma estupidez.
É conservadorismo, ou até reacionarismo, resistir às mudanças “woke”? Acabaremos “todes” dizendo “todes”?
Conservar
um patrimônio comum como a língua não significa zelar por um monumento
imutável. Aliás, querendo ou não, weekend, outdoor, aids, covid, sexy,
shorts, sale, wifi, reset e web estão organicamente instalados nas
línguas ocidentais, para desespero dos puristas. E também compliance,
uma palavra que nem tinha sinônimo para significar a adesão aos
mandamentos éticos das empresas.
Mudanças
boas, como a condenação ao assédio sexual em geral e nos ambientes de
trabalho em particular, e à discriminação de todo tipo não podem ser
obscurecidas pelos absurdos do “wokismo”, um exagero tão anglo-saxão que
nem tem tradução.
Décadas
atrás, se diria conscientização — uma palavra comprida demais e, em
muitos sentidos, ultrapassada. Exigia, por exemplo, que todo mundo lesse
Marx — ou pelo menos os textos principais — e os mais relevantes
comentários a respeito. Tudo analisado em grupos de estudos. Depois,
ainda tinham que militar muito para ganhar o direito de se declarar
“marxistas”. Eram, na maioria, universitários mimados, como “todes” que
hoje querem impor mudanças linguísticas da elite para o povão, e tinham o
resto da vida para se arrepender.
Já na língua conspurcada por asneiras, o arrependimento não apagará o que já foi escrito.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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