O Ocidente está sendo ameaçado por um perigo sem precedentes — o do avanço das pautas disseminadoras de divisões. Ubiratan Jorge Iorio para a Oeste:
Seja
qual for o nome que se dê — globalismo, Nova Ordem Mundial, Fórum de
Davos, Agenda 2030 ou Protocolo ESG (de environmental, social e
governance) —, o fato é que se trata de ardis dos candidatos a donos do
mundo e que estão progressivamente avançando sobre a nossa liberdade.
Fortemente endinheirados e controlando muitos canais políticos, já
conseguiram transformar o Ocidente em uma coisa chata demais; porém,
estão longe de estar satisfeitos.
Como
exemplos dessa amofinação permanente, as constatações de que já não se
pode mais chamar as pessoas pelo que elas de fato são; de que existe
algo como uma obrigação de endossar comportamentos e visões de mundo de
que se discorda; e de que, quando se criticam ideias, é preciso primeiro
verificar se quem as está expondo pertence a alguma das chamadas
“minorias”, sob o risco de atrair ataques furiosos das “sentinelas do
bem”. Um saco! Ninguém aguenta mais.
Os
exageros que esses tiranos vêm paulatinamente nos impondo ultrapassam
todos os limites do tolerável. Há que se encher de muitos cuidados,
todos descabidos e inaceitáveis: se você critica, por exemplo, o excesso
de pimenta em uma feijoada preparada por alguma cozinheira gorda, pode
ser duplamente carimbado de misógino e gordofóbico. Se discorda da
opinião de algum integrante de um movimento negro ou indígena sobre
determinado assunto, de racista ou supremacista branco. Se desaprova um
artigo científico sobre tartarugas marinhas escrito por algum
homossexual, de homofóbico. Se, mesmo sendo mulher, negra e homossexual,
tem a coragem de assumir alguma bandeira da chamada direita, de
traidora fascista. Se manifesta respeito e amor a Deus, de
ultraconservador. Se pisa por descuido em uma lagartixa sonolenta, de
antiambientalista. Se sente revolta contra um assaltante que atirou em
um inocente, de socialmente insensível. Se elogia a beleza de uma colega
de escritório, de machista assediador. E, se pega uma folha de jornal,
amarra as quatro pontas duas a duas e as acende com um fósforo,
simplesmente para fazer um balão maria-fumaça para distrair o seu filho,
será tratado como um criminoso hediondo, um destruidor da mãe terra, um
monstro estuprador da natureza.
O
policiamento das patrulhas politicamente corretas é tão implacável que
muitas pessoas se sentem constrangidas e quase que obrigadas, antes de
se atreverem a criticar uma ideia — por mais absurda que possa ser —
exposta por alguém que faça parte das tais minorias, a afirmar coisas
como: “Não tenho nada contra, pois tenho até amigos que são”, ou “Não os
estou atacando, tenho vários amigos assim”, etc.. Pedindo desculpas por
não concordar.
Os
ditos “progressistas” venceram a guerra da linguagem. É por isso que
está ficando cada vez mais difícil expor opiniões e ideias sem ser de
antemão condenado e imediatamente “cancelado” por destacamentos
fortemente armados com fuzis carregados de falácias, brandidos por
combatentes alucinados que dão plantão permanente na velha imprensa, nas
universidades, na política e, ultimamente, em todas as instâncias do
Judiciário.
Infelizmente,
o Ocidente está sendo ameaçado por um perigo sem precedentes — o do
avanço das pautas disseminadoras de divisões, especialmente aquelas que
se escondem nas narrativas de defesa dos direitos das minorias. O perigo
é que esse incitamento dialético ao choque entre “nós”, os bonzinhos,
explorados, coitadinhos, marginalizados, e “vocês”, os malvados,
exploradores, descendentes de europeus e poderosos, vem influenciando
progressivamente a política de muitos governos e organismos
internacionais.
A obsessão ambientalista
Uma
das facetas desse radicalismo é a obsessão ambientalista, que não é
apenas inconveniente, mas perigosíssima, pelo seu poder destruidor das
atividades econômicas, inclusive as indispensáveis à sobrevivência da
humanidade, como a da produção de alimentos. Os lunáticos do clima se
instalaram principalmente na Velha Europa e engana-se quem desconhece
que sua maluquice é apenas aparente, porque ela nada mais é do que um
meio utilizado para implantar sua agenda totalitária. São malucos
perigosos. Vamos passar rapidamente em revista alguns casos recentes.
Podemos
começar pelas políticas ambientais da União Europeia, capitaneadas pela
ex-chanceler Angela Merkel e berradas espalhafatosamente na mídia por
aquela adolescente sueca que aparenta sempre estar pronta para morder
alguém. Tal como o então presidente Trump avisou, esse furor ambiental
tornou a Europa muito mais dependente do gás russo do que era
anteriormente. Hoje, com a situação da ocupação da Ucrânia e com as
sanções estultas impostas à Rússia, essa dependência está apavorando
toda a Europa, com o receio de que Putin feche definitivamente as
torneiras, tanto que já se discute o abrandamento das sanções.
Em
Sri Lanka, o antigo Ceilão — um país pobre —, o presidente Gotabaya
Rajapaksa, em 2019, resolveu com seus botões e com seus ministros (sendo
alguns deles parentes próximos) que o país seria o primeiro no mundo a
ter uma agricultura totalmente orgânica e simplesmente, entre outras
medidas estupidamente radicais, proibiu todas as importações de
fertilizantes e de defensivos agrícolas. O resultado — óbvio — foi a
escassez de alimentos. E o país, que era exportador de bens primários,
passou a ser obrigado a importá-los, o que fez com que se esgotassem
suas já parcas divisas. Sobreveio a fome, e então a população
recentemente se revoltou e invadiu o palácio presidencial na capital,
Colombo. O presidente “orgânico”, passou as mãos rapidamente no que pôde
pegar e escafedeu-se pelos fundos.
Na
Holanda — um país desenvolvido —, os illuminati da Nova Ordem Mundial
encravelhados no governo decidiram que a produção das atividades
agrícolas teria de passar a ser realizada em uma área ocupando no máximo
70% da até então utilizada. Um efeito absurdo dessa decisão tirânica,
conforme publicou o Epoch Times, é o do produtor de leite Martin
Neppelenbroek, que terá de cessar as suas atividades, pois não poderá
administrar uma fazenda com 5% do total de suas vacas leiteiras, uma vez
que será obrigado pela nova regulamentação a vender ou abater 95%
delas. Mas os tiranos verdes não são tão malvados assim, porque nem
todos os agricultores serão obrigados a se livrar de parcela tão grande
de seu gado, já que os que vivem mais afastados das áreas protegidas
pela Natura 2000 (uma imposição da União Europeia para a preservação de
espécies e habitats) podem possuir mais animais. As pobres e simpáticas
vaquinhas holandesas passaram a ser tidas como inimigas do planeta, a
não ser que vivam bem longe, onde os regulamentos lhes permitam emitir a
sua amônia e o seu óxido de nitrogênio em paz e sem medo da polícia.
Muitas fazendas na Holanda, que pertencem há gerações a famílias,
encerrarão as suas atividades.
O
resultado dessa perversão foi o bloqueio das estradas por tratores de
fazendeiros, que se revoltaram e foram à luta, ungidos do vigor dos
justos. Mesmo sendo um país rico e tecnologicamente adiantado, estima-se
que cerca de 30% das fazendas poderão ser extintas em decorrência das
medidas impostas pelos burocratas fanáticos do governo. É fácil antever
que o impacto econômico será enorme, dado que o país exporta quase US$
100 bilhões por ano em alimentos.
Por
sua vez, na Austrália, os políticos “progressistas” aprovaram em
segunda votação um inacreditável projeto de lei que proíbe as pessoas de
cultivarem seus próprios alimentos, com multas para os infratores, sob a
alegação da biossegurança. O projeto amplia os poderes das autoridades
para a aplicação da lei, autorizando-as a vistoriar propriedades e
pessoas sem um mandado e aplicar multas por fornecer informações “falsas
ou enganosas”, que subiram de US$ 1.800 para US$ 10 mil. Os fiscais
autorizados não precisarão mais do consentimento do proprietário para
recolher amostras, animais e documentos, e os proprietários que
obstruírem o seu acesso às terras serão severamente punidos.
Adicionalmente, a Cláusula 36 desse projeto absurdo contempla a
exigência de esterilização e identificação dos animais por implante,
marca ou qualquer outra forma.
Agenda 2030
Há
vários outros exemplos da sanha insana dos chefões globalistas para nos
impor o seu conceito peculiar de felicidade, mas esses são suficientes
para afastar as hipóteses de “teorias conspiratórias” e enxergar os
perigos concretos que representam para a economia e, principalmente,
para a nossa liberdade. Essa gente acha-se apta e com o direito de
modificar a sociedade humana desconstruindo — descarada e criminosamente
— milênios de costumes, usos e tradições que se cristalizaram
espontaneamente, século após século, fundamentados no relativismo moral,
no niilismo, no racionalismo utópico e na consequente engenharia
social. Querem nos fazer felizes à maneira deles.
O
que representam a Agenda 2030 da ONU ou qualquer outra denominação das
conhecidas a não ser nomenclaturas espertamente construídas para
defender a tentativa de um grupo político-financeiro internacional de
impor um projeto de poder, com vistas a destruir a Weltanschauung, a
cosmovisão ocidental, um processo espontâneo esculpido com muito esforço
ao longo de séculos de tentativas e erros. A Weltanschauung (que,
traduzido do alemão, significa o modo pelo qual a pessoa vê ou
interpreta a realidade, algo como um paradigma) é uma ordem evolutiva
natural, que ao fim e ao cabo configura a maneira como um indivíduo ou
um povo, entendido como uma média dos indivíduos, enxerga Deus, o bem, o
mal, a condição humana, os valores, o destino, a economia, a política, a
vida, enfim.
Suas
propostas são extremamente arrogantes. Trazem a democracia na boca, mas
a tirania nas ações, pois o seu intuito é impor à sociedade a sua
vontade exclusiva. São mentirosos, porque falam em nome dos princípios
característicos da democracia, como o da igualdade de todos perante a
lei, mas os distorcem e os levam às últimas consequências, ao se
proporem a domesticá-los e homogeneizá-los, sufocando as
individualidades que caracterizam a espécie humana, em nome de um “bem
comum” — a igualdade absoluta, a “mãe terra”, o clima, a diversidade,
etc. —, que, no frigir dos ovos, é o bem deles.
São
inimigos da civilização; desconstroem a razão; relativizam a Verdade
cristã; subvertem os princípios, os valores e as instituições
construídos naturalmente durante milênios. Proíbem a divergência e o
debate. Enfim, são monstros totalitários travestidos de protetores dos
pobres e das minorias. E possuem uma tara mórbida pela Amazônia, que
pretendem subtrair do Brasil e transformar em “área internacional”, além
de destruir o agronegócio brasileiro, uma vez que aqui, segundo os
“estudos e pesquisas” cambetas que financiam fartamente, estão sendo
produzidos alimentos demais, o que vai contra a sua “ciência”. Seu sonho
parece ser que os seres humanos passem a se alimentar de gafanhotos.
A
tendência é que a escassez de alimentos e a inflação de preços que
essas políticas estão produzindo se agravem. Mas o Brasil, um dos
maiores exportadores de alimentos do planeta, poderá em pouco tempo
beneficiar-se desses erros desastrosos, desde que os brasileiros
rejeitem o modelo de mundo patético que querem nos impor.
Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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