A "crise militar" provocada por Bolsonaro é resultado da fraqueza das lideranças civis. William Waack:
Jair Bolsonaro
faz de tudo para reverter duas longas tendências históricas quando se
considera o papel dos militares na política brasileira. Até aqui, não
conseguiu.
A
primeira tendência foi a extinção dos “chefes militares”, entendidos
como donos de feudos políticos. Esse processo começou com Castello
Branco ainda em 1964. A segunda foi a consolidação da ideia de que os
militares não são instância de “moderação” ou “tutelagem” da política e
do equilíbrio entre os Poderes. Essa noção vem desde 1988.
As duas ferramentas com as quais Bolsonaro tentou abalar esses alicerces do papel das Forças Armadas foram levar a agitação partidário-eleitoral para dentro dos quartéis e a nomeação de militares para o Ministério da Defesa. A agitação política não funciona enquanto estiver mantida a hierarquia. E ela está mantida.
Quanto
ao Ministério da Defesa, Bolsonaro “obteve” um grande efeito negativo,
do ponto de vista de suas pretensões de arrastar os militares para uma
aventura política. Ele privilegiou quadros do Exército, em detrimento da
Marinha e da Aeronáutica, acirrando uma velha disputa. Sem que tivesse
conseguido estabelecer comando de fato sobre tropas – e, sem tropas, não
há golpe.
Mas
as causas profundas dos recentes tumultos em relação ao papel dos
militares têm a ver, paradoxalmente, com as lideranças políticas civis.
Recente
evento com a participação de ex-ministros da Defesa e militares que
estiveram no governo destacou o fato de que os civis se desinteressaram
em discutir e definir o que é uma estratégia de defesa nacional – e
ninguém lidera sem um projeto, afirma Raul Jungmann.
Foi
uma lacuna deixada por civis que gerou interpretações sobre o artigo
142 da Constituição (obrigaria aos militares arbitrar desequilíbrio
entre os Poderes), suscitando perguntas sobre o papel político das
Forças Armadas, observa o general Rêgo Barros.
E
na presente ofensiva bolsonarista contra o sistema eleitoral foi uma
instância civil que legitimou as manifestações de militares em relação
às urnas eletrônicas. A ideia do então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, de trazer os militares para um comitê de transparência foi um grave equívoco, assinala Nelson Jobim, ex-ministro da Defesa e ex-presidente do STF.
Num
sentido abrangente Bolsonaro não “conduz” uma revisão do papel político
dos militares. Na verdade, ele expressa a desagregação institucional, a
falta de rumos estabelecidos por lideranças políticas (portanto, dos
partidos) e a ausência de um “projeto de Nação” desenhado por elites
dirigentes em todas as esferas. Ele é só consequência.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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