Entregue a tontos, Portugal é que não tem salvação. E os tontos que o entregaram não se importam. A crônica semanal de Alberto Gonçalves para o Observador:
E,
ao vigésimo segundo dia do mês de Junho, Graça Freitas chamou os
jornalistas a Alpiarça para encarreirar o povo rumo a um “Verão seguro”.
E disse que “quando temos a pouca sorte de adoecer em férias ficamos um
bocadinho desorganizados”. Porquê? “Porque estamos fora do nosso
habitat natural, fora do nosso centro de saúde, fora do nosso hospital,
fora do nosso médico”. E disse que “costuma dizer” que “a pior coisa que
nos pode acontecer é adoecer em Agosto”. Porquê? “Também porque os
nossos médicos não ‘tão’ lá, também ‘tão’ de férias noutro sítio
qualquer.” E disse a um tal “dr. Pisco” (?) que não estava “a fazer
nenhuma piada de mau gosto”, mas “a constatar um facto que Agosto não é
um bom mês para se ter acidentes e doenças”.
De
seguida, a dra. Graça desceu ao pormenor e puxou do conhecimento
técnico: “Não sei se têm noção que no Verão há muitas toxinfecções
alimentares colectivas.” Para que os culpados não ficassem impunes, a
dra. Graça acusou: “O grande responsável é o bacalhau à Brás”. Porquê?
Porque “aqueles grandes convívios, piqueniques, excursões, uma das
coisas que é mais usada é o bacalhau à Brás, que está pré-feito desde
manhã e depois aquece-se, não chega a aquecer à temperatura suficiente, e
aquilo leva ovos, e aqueles ovos são uma cultura para as salmonelas do
melhor que há.” Então a dra. Graça riu: “Até é pouco estimulante para
investigar e para estudar: as toxinfecções alimentares são
invariavelmente bacalhau à Brás e salmonelas”.
Em
Alpiarça, a dra. Graça não se ficou por aqui. Ainda arranjou tempo para
“cumprimentar o secretário de Estado adjunto e da Saúde, dr. Lacerda
Sales, o meu secretário de Estado” (riso subalterno). E precisou: “Eu
diria até o nosso secretário de Estado. Muito obrigado, sr. secretário
de Estado, não só por hoje mas por todos estes anos em que temos
trabalhado juntos, e nós devemos-lhe, de facto, muito.” Noutro momento
vital da intervenção, a dra. Graça confessou ter “almoçado
brilhantemente”, dádiva que “o sr. secretário de Estado” não sabia que
perdera: “‘tava’ magnífico”. Aceitam-se apostas clandestinas sobre as
iguarias em questão.
A
dra. Graça é a responsável maior pela Direcção-geral da Saúde (um
responsável menor foi uma vez às televisões proferir “póssamos” e
“fáçamos”). Em escassos minutos, exibiu uma enorme desconfiança no SNS
que tenta defender, abundante destrambelhamento e a espectacular
sabujice. Nos dois anos e meio em que entrou na ribalta, nunca se
desviou desses traços de carácter. A dra. Graça denuncia o excessivo
optimismo do Princípio de Peter, segundo o qual cada indivíduo pode ser
promovido até ao nível da sua incompetência: suspeito que a senhora já
demonstraria inaptidão no estágio de uma sapataria, sem ofensa para os
estagiários em sapatarias. A dra. Graça, em suma, daria pena, não fora o
pormenor de ser um exemplo corriqueiro dos numerosos matraquilhos que o
dr. Costa nomeia para dirigir o país, do “sr. secretário de Estado” à
ministra, passando pelas resmas de bajuladores que ocupam lugares na
Saúde e no resto. Sendo um caso de miséria, a dra. Graça é apenas um
entre muitos. Miserável é o país. E pena damos nós.
Seria
injusto reduzir o cenário de catástrofe aos empregaditos assumidos do
dr. Costa. Instado a comentar as declarações da dra. Graça, o presidente
da República concordou e reforçou: “Cada qual fará o esforço para não
estar doente, por si mesmo, e para não pressionar o cuidado da saúde dos
outros”. Os portugueses que tencionavam adoecer no Verão ficaram
desconsolados. Porém, não é novidade que o fundamental é salvar o SNS,
que, na sua ignorância, uns pândegos haviam criado para salvar pessoas.
Aliás, o próprio dr. Costa afirmou, numa quinta ou sexta-feira, que na
segunda-feira seguinte – a que passou – boa parte dos problemas do SNS
estariam resolvidos. Para ajudá-lo a resolver os problemas que sobraram,
basta erradicar o bacalhau à Brás dos piqueniques. No limite,
erradique-se a população. Estar doente é promover a instabilidade
política e viver roça a traição à pátria. É assim, não é?
Habituámo-nos
a imaginar que as “elites” políticas vêem os cidadãos como crianças de
colo, ou débeis mentais. E é verdade: quando justificou os
injustificáveis delírios da dra. Graça, o prof. Marcelo lembrou que, “na
nossa juventude”, os pais, os amigos e os professores nos aconselhavam,
pelo que, “portanto, os responsáveis políticos podem recordar
evidências”.
Temos
é de deixar de acreditar que as “elites” são diferentes de nós, e são
“elites”. Não são. A sociedade infantilizada que vota nessa gente e a
sustenta é aquela de onde essa gente emerge. E multidões infantis
dificilmente produziriam estadistas adultos. Por regra, as “elites” são
os cidadãos comuns, acrescidos de sorte, ambição, uns pozinhos de manha,
vasta falta de escrúpulos e, na maioria, a inscrição no partido certo.
Pensando melhor, as “elites” estão uns furos abaixo dos cidadãos comuns.
Não
pretendo desculpar os titulares políticos e aparentados, ou esquecer o
brutal desprezo que dedicam a quem deviam servir. Pretendo notar que, se
a desumanidade deles é óbvia, a idiotia não é facultativa. E não é por
serem maus, no sentido de malignos, que são maus no sentido de inaptos.
Em geral, os espécimes que hoje mandam em nós acumulam, e ambas as
características contribuem para a nossa desgraça. E para a nossa Graça. À
semelhança do que sucede sempre que ouvimos a sra. directora, é
possível achar-se que os espécimes que mandam nisto estão a gozar
connosco. Mas é garantido que a realidade está a gozar com eles. E com
todos, uma receita de bacalhau que talvez salve o SNS. Entregue a
tontos, Portugal é que não tem salvação. E os tontos que o entregaram
não se importam.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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