O movimento identitário, ao negar as definições tradicionais do que é uma mulher, quer permanecer na confusão até que fiquemos tão confusos que, ao ver um bodybuilder que colocou bobs no cabelo, a gente encolha os ombros e desista de tentar classificá-lo. A crônica de Alexandre Soares Silva para a revista Crusoé:
O
que é uma mulher? Não sei. Na verdade, sei, porque é óbvio. Minha tia
Nice é uma mulher. Meu primo Marcos, o Marquito, é um homem. Por que
querem nos deixar confusos? Você começa a se perguntar de qualquer coisa
o que é essa coisa e de repente não sabe nada, como Sócrates.
“O
que é uma mão?”. É isto aqui, ué (mostrando a mão). Mas o perguntador
sorri, sabido, e pergunta se ela continua a ser uma mão se for
esfrangalhada por um torno mecânico (continua, ué), ou se nascer uma mão
na sua barriga (acho que sim, ué), ou se um mutante nascer com uma
chaleira no final do braço (acho que não, ué). “O que é uma mão” — que
pergunta irritante. Eu sabia até dois segundos atrás, mas agora estou
tão confuso que estou tentando digitar com o cotovelo.
Claro,
poderia ter falado que mulher é quem tem cromossomos XX. Ou quem tem
uma vagina. Mas por favor não me façam pensar na vagina da minha tia
Nice. Vai ser um Natal em família muito desconfortável se os meus primos
souberem que escrevi uma coluna inteira sobre a vagina da minha tia
Nice. Além disso, é desnecessário falar dessas coisas. Eu sei que ela é
uma mulher sem precisar de exame de laboratório, do mesmo jeito que
saberia que, se o meu primo Marcos aparecesse na minha casa com cílios
postiços e uma voz insinuante, ele estaria numa fase meio confusa, sei
lá, mas continuaria sendo um homem.
Esse
ué que repeti várias vezes, essa vocalização do bom senso perplexo por
estar sendo atacado, é exatamente o que o movimento identitário quer
destruir. Uma sociedade inteira em que ninguém diga ué. Uma civilização
inteira em que as pessoas deixem o bom senso atrofiar como fizemos com
as nossas caudas na metade da era Cenozoica.
Falei
de Sócrates. Bom, mas Sócrates, ao sair andando por aí perguntando o
que é isso, o que é aquilo, e irritando todos os gregos da Tessália ao
Peloponeso, realmente queria chegar numa definição racional das coisas. O
movimento identitário, ao negar as definições tradicionais do que é uma
mulher, quer permanecer na confusão até que fiquemos tão confusos que,
ao ver um bodybuilder que colocou bobs no cabelo, a gente encolha os
ombros e desista de tentar classificá-lo. É um homem ou uma mulher? Não
sei mais, ele colocou bobs no cabelo, isso tornou tudo um mistério
irresolvível para os meus sentidos — vou acreditar na resposta que ele
mesmo der a essa pergunta, porque uma entidade mística (“identidade de
gênero”) está sussurrando no ouvido dele o que ele é, e quem sou eu para
desacreditar nas vozes dos espíritos?
Enfim,
falo disso porque acabei de ver um documentário chamado What is a
Woman?, lançado pelo americano Matt Walsh agora no início de junho. Matt
Walsh é um jornalista, podcaster e escritor de alguns livros — entre
eles o infantil Johnny, a Morsa, em que um menino brinca de ser morsa
colocando duas colheres de madeira na boca, como se fossem as presas, e
imediatamente um médico aparece na sua frente com um serrote para cortar
os pés dele e colocar barbatanas. O livro é mal-ilustrado e a mensagem é
demasiadamente óbvia, mas mesmo assim dá vontade de subir num
helicóptero e distribuir milhares de cópias lá de cima, só pra ver a
comoção de uma cidade inteira.
No
documentário, Walsh entrevista pediatras, professores, filósofos,
transgêneros, deputados, atletas etc. Pergunta para todos o que é uma
mulher. Ninguém consegue responder. Nem as feministas no meio de um
protesto feminista conseguem responder. Outros ficam irritados com a
pergunta. Um professor universitário, ao ser perguntado o que é uma
mulher, pergunta para Walsh por que ele quer saber isso. “Para saber a
realidade”, diz Walsh. E o professor responde: “Me sinto muito
desconfortável com esse termo, e se você não parar de falar em realidade
essa entrevista vai acabar agora.”
Alguns
outros não ficam irritados, usam um tom paternal de quem está ensinando
o óbvio aos ignorantes que não foram para a faculdade nos últimos dois
anos. “Agora sabemos que ‘mulher’ é uma construção social”. Esse “agora
sabemos” é o lema deles. “Antigamente achávamos que A, mas agora sabemos
que B”. E o que é B, que agora sabemos? É algo que lhes disseram num
curso. São as criaturas menos socráticas do mundo, porque nunca põem em
dúvida o que ouviram num curso.
Estava
errado quando disse, lá para cima, que eles querem destruir o bom
senso. O que eles querem é a criação de um outro bom senso. Um bom senso
paralelo, que com o tempo vai se tornar o único que existe.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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