A reação ao julgamento Depp x Heard expõe os problemas do discurso feminista. Lygia Maria para a FSP:
A novela Johnny Depp versus Amber Heard
chegou ao fim. O ator processou a ex-namorada por difamação —segundo
Deep, Heard mentiu ao dizer que havia sido abusada por ele— e venceu.
Vendo o julgamento, fica claro que a relação era conturbada, ambos são
problemáticos (egocentrismo, narcisismo) e que Heard mentiu.
Porém,
feministas reclamaram: Depp só venceu porque é homem e o Judiciário é
machista, o júri é machista, o mundo é machista. Parece que Heard
deveria estar certa apenas pelo fato de ser mulher. O problema é que
mulheres mentem. Mentem, agridem, traem como os homens. Afinal, também
somos Homo sapiens. Considerar que mulheres têm sempre razão a priori é
um desserviço, porque a defesa das mulheres que realmente são vítimas de
violência pode ser prejudicada, tachada como mero radicalismo
feminista.
Além
disso, sexo é o ponto de interseção entre natureza e cultura, e parte
do feminismo simplifica a questão ao tratá-lo apenas como uma questão do
segundo tipo. Espécie de feminismo rousseauniano: o sexo é bom, a
sociedade que o corrompe.
Não.
A natureza é cruel e impiedosa. O sexo e as relações afetivas que o
adornam não são apolíneos, e sim dionisíacos. A cultura diversifica o
lado dionisíaco em uma série de gradações que vão desde o sadomasoquismo
até comentários passivo-agressivos no café da manhã. O pêndulo
poder-submissão está sempre lá, deve-se aprender a administrá-lo e,
principalmente, considerar que o prazer erótico advém também dele.
Excluir
o poder do sexo é ignorá-lo. Não podemos ser ingênuas a esse ponto se
quisermos criar mulheres fortes que se responsabilizem por suas escolhas
e que sejam capazes de se defender. O poder nem sempre é ameaça, pode
ser potência. Mas, se o discurso sobre sexo é sempre ameaçador,
traumatizante, qualquer coisa associada a ele, por mais inócua que seja
(uma piada, uma propaganda de TV, uma cantada), causará medo. E qualquer
ditador sabe: não há ferramenta de dominação mais eficaz do que o medo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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