Elon Musk parece achar que os genes fazem tudo sozinhos, e basta um gênio engravidar uma mulher que não seja burra para ter bons filhos. Mas ele está aí às voltas com uma filha fazendo barraco na imprensa. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Em
meados do século XX, a sociedade dos EUA foi conquistada pela
propaganda da Planned Parenthood, segundo a qual as mulheres deveriam
abandonar a maternidade como fonte de sentido para suas vidas e
substituí-la pelo prazer sexual e pelo dinheiro. Os negros eram o alvo
predileto dessa propaganda e, somando-se esta aos cheques para mães
solteiras, uma decadência cultural tomou conta desse grupo populacional.
A miséria à qual se deixaram reduzir foi interpretada como um resultado
da escravidão, e mais políticas corruptoras foram apresentadas como
remédio para a situação – não obstantes as contundentes refutações dos
intelectuais negros Thomas Sowell e Walter Williams.
A propaganda não se deteve nos negros, nem nos EUA. O jornal The Washington Post trouxe esta manchete:
“Esta adolescente texana queria fazer um aborto. Agora tem gêmeos”. A
matéria mostra uma “vítima” da lei, uma moça branca de 18 anos branca,
com seus dois bebês brancos. Quando a lei texana passou, ela teve de
fazer um exame para ver se já havia batimento cardíaco. Como havia, ela
manteve a gravidez e se casou com o namorado, pai das crianças. A julgar
pela matéria, tudo está bem com a moça, mas ainda assim a jornalista
(uma divulgadora da Planned Parenthood, segundo Matt Walsh)
se empenha em extrair piedade dela: “Algumas vezes Brooke imaginou como
seria a vida se ela não tivesse engravidado […]. Ela teria feito o
ensino médio […]. Imaginou um apartamento em Austin e dinheiro
suficiente para uma viagem ao Havaí, onde iria nadar com golfinhos numa
água tão clara que daria para ver os dedos do pé”. Poucas pessoas do
mundo vão a praias paradisíacas. Mas a propaganda é essa: se não tiverem
filhos, as mulheres (e só as mulheres) ganharão rios de dinheiro. Às
vezes a propaganda antinatalista se faz de propaganda pró-educação –
como se o mercado de trabalho já não estivesse saturado de diplomas, e
um bacharelado bastasse para bancar férias no Havaí.
Elon Musk ataca o antinatalismo
Assim,
dado o estado de coisas, é animador ver Elon Musk, uma figura de proa
dos EUA, se posicionar em prol do natalismo. Essa é uma das questões que
opõe Bill Gates a Elon Musk – e é natural que seja assim, já que o ESG,
adotado pelo primeiro e atacado pelo segundo, é neomalthusiano e
antinatalista. Enquanto dirigia seus tuítes contra Bill Gates e aos
donos do Twitter, Elon Musk chegou a lamentar que não tenhamos ficado de
luto pelos não-nascidos, já que a resposta à pandemia fez despencar a
natalidade mundo afora. Mais recentemente, ele manifestou preocupação
com a taxa de natalidade do seu país adotivo, que está abaixo da
reposição, e afixou o tuíte em seu perfil.
Eu
acharia tudo ótimo, não fosse a sua última defesa do natalismo um tanto
suspeita. O leitor já ouviu falar do filme Idiocracy? Eu nunca vi, mas
ouvi falar muito porque o povo que gosta ou gostava de Dawkins em geral
gosta desse filme. E o fã de Dawkins, por definição, é um ateu que se
sente mais inteligente do que o resto da humanidade pelo mero fato de
ser ateu. Esse ateísmo é o fim do percurso do protestante que, depois de
problematizar o São João com base na Bíblia, problematizou o Natal com
base na Ciência. Daí opõe ciência a religião e fica em apuros para
explicar a história da ciência entre os séculos XVI e XVII, quando
praticamente todo cientista experimental que desafiou a Igreja era
cristão e às vezes católico.
Pois
bem. Em sua mais recente investida natalista, Elon Musk disse:
“Assistam à abertura de Idiocracy. Quando eu pergunto aos meus amigos
por que eles ainda não têm filhos (pouquíssimos têm), soa exatamente
como no filme. Pode virar um documentário, já que está virando verdade”.
No vídeo aparece o enredo de Idiocracy: a Ciência possibilitou que as
pessoas com QI baixo vivessem muito e elas não pararam de se reproduzir.
Ao mesmo tempo, as pessoas com QI alto não paravam de adiar o momento
para ter filhos e não tinham nunca (o casal igual aos amigos de Elon
Musk planeja, planeja, o homem morre infartado depois de se masturbar
para coletar esperma e a viúva congela os óvulos esperando que um homem
certo para ela apareça). O resultado é que os inteligentes entraram em
extinção. Assim, um sujeito mediano, congelado dos dias atuais e
descongelado 500 anos depois, é um gênio na nova sociedade de gente com
QI ínfimo.
Et
voilà a hierarquização da humanidade outra vez. Em vez de raças, pode
entrar pelo QI, outra vez com as bênçãos da deusa Ciência e a
complacência dos bem pensantes.
Glorificação do QI
Certamente
Elon Musk tem um QI altíssimo. Quanto a Dawkins e ao ateísmo, numa
googlada descobre-se que eles têm rusgas (cá com meus botões eu
apostaria que Musk é um ex-fã), mas também se descobre que as diferenças
são nominais, pois Musk se diz agnóstico
em vez de ateu por achar que o agnosticismo, em vez do ateísmo, está em
linha com a Ciência. Musk e Dawkins têm a mesma régua última (a
Ciência), nenhum deles acredita em Deus e a discussão entre ambos é
bizantina (caso o leitor queira saber por que sou ateia, é porque quando
criança eu achava que os adultos sabiam de tudo. Quando cresci um
pouquinho, descobri que em matéria de religião eles só repetiam as
coisas que tinham ouvido. Aí não acreditei em mais nada, e toda vez que
aparece alguém cheio de certezas, como Dawkins, eu antipatizo logo. Não
acredito em Deus, nem vou acreditar na deusa Ciência, cujo fã clube é
muito arrogante).
Assim,
como bom fiel da Ciência, Elon Musk parece acreditar no poder mágico
dos genes para fazer bons filhos. De fato, o consenso científico aponta
para uma correlação entre genética e QI, além de reconhecer o QI como
uma boa medição da inteligência. Como o legado medieval considera a
racionalidade a diferença específica humana, os hierarquizadores
protestantes da humanidade alegavam que algumas raças eram mais
inteligentes do que outras, portanto superiores; e hoje os
hierarquizadores ateus podem posar de antirracistas com consistência
enquanto escolhem o QI.
O
QI é mais ou menos como a altura: herdamos dos pais os genes que nos
dão uma tendência, mas é possível termos um QI mais baixo, ou uma altura
mais baixa, a depender do meio. Mesmo que seja bem alimentada, a
população do sertão do Cariri vai ser baixinha, porque é o biotipo de lá
mesmo. Um dinamarquês, porém, se bem alimentado, vai ser altão. Mas se
você deixar o dinamarquês com fome na infância, seu crescimento será
comprometido e ele não será altão. Além disso, o sertanejo que passou
fome na infância será mais baixinho ainda. Ou seja, as pessoas têm
diferenças inatas no QI, mas a infância é determinante para cada um
atingir o melhor possível. E, diferentemente da altura, que se limita a
questões físicas, o QI precisa de interação humana. Dá para pegar
crianças com boa genética, alimentar bem, mas, se ela for largada na
primeira infância, vai ter sérios problemas cognitivos. O melhor exemplo disso é a história das crianças romenas largadas em orfanato estatal.
Ceaucescu queria aumentar a taxa de natalidade na marra, pegar os
filhos das mulheres que não pudessem criá-los, e, em vez de encher a
Romênia de trabalhadores, encheu-a de jovens inválidos.
Nos
EUA, o debate acerca do QI sempre resvala para o livro The Bell Curve,
que examina os dados de QI racialmente e coloca o grupo dos negros dos
EUA abaixo do grupo dos brancos dos EUA, e este abaixo dos orientais
nascidos nos EUA ou na Ásia. O livro foi criticado por Sowell, que
desconfia da medição do QI dos negros em função de sua precária
alfabetização (se o teste é escrito, a má alfabetização atrapalha o
desempenho). Seja como for, a argumentação do livro é que um gráfico com
a demografia do QI tem uma forma de sino: quanto mais burro e mais
inteligente, mais raro. Quanto mais mediano o QI, mais frequente. Muitos
são medianos, poucos são muito burros ou muito inteligentes. A novidade
do livro é que o sucesso financeiro e profissional é condicionado pelo
QI: não importa se a criança nasceu pobre ou rica, se negra ou branca;
se ela tem um bom QI, ela terá sucesso; se tem um mau, será uma
fracassada.
Mães e QI
Se
eu fosse Sowell, olharia para as crianças da Romênia. Uma coisa é ser
filho de uma solteira pobre; outra, ser filho de uma solteira drogada.
Ou, simplesmente, ser o boneco que uma mulher usa para fotografar e
postar no Instagram. Recentemente constatou-se mundo afora a primeira
queda no QI global. Para o neurocientista Michel Desmurget,
o corte geracional relevante é ter nascido com a grande presença da
internet. Esta está associada à “diminuição da qualidade e quantidade
das interações intrafamiliares, essenciais para o desenvolvimento da
linguagem e do emocional; diminuição do tempo dedicado a outras
atividades mais enriquecedoras (lição de casa, música, arte, leitura
etc.); perturbação do sono, que é quantitativamente reduzido e
qualitativamente degradado; superestimulação da atenção, levando a
distúrbios de concentração, aprendizagem e impulsividade; subestimulação
intelectual, que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial; e
o sedentarismo excessivo que, além do desenvolvimento corporal,
influencia a maturação cerebral”. Ao fim e ao cabo, de nada adianta
nascer com bons genes se não houver alguém que lhe dedique amor.
Elon
Musk é um natalista que faz o que prega. Ele se casou e teve um filho
por meios convencionais com a primeira esposa. O bebê teve morte súbita.
Depois, teve apenas com fertilização in vitro. Foi uma gravidez de
gêmeos e outra de trigêmeos. A mãe do seus outros filhos é uma cantora
canadense. Ambos deram ocasião a manchetes: o primeiro, por ter um nome
impronunciável; o segundo, por ter sido encomendado de uma mulher paga
para engravidar. Quando o bebê chegou à mãe biológica, parece que eles
já não estavam mais juntos. Uma filha adulta ganhou o noticiário por ser
transgênero e querer tirar o sobrenome do pai.
Gravidez
por substituição é algo muito novo e muito caro. Se eu fosse alguém
muito preocupada com QI, faria o máximo para manter uma boa interação
entre mãe e filho e estimular o desenvolvimento cerebral o mais cedo
possível. Quereria uma mulher que desse de mamar (se ela não gestou, não
vai produzir leite) e fugiria de uma mulher que não gostasse de
carregar o próprio filho no ventre. Dada a conduta, Elon Musk parece
achar que os genes fazem tudo sozinhos, e basta um gênio engravidar uma
mulher que não seja burra para ter bons filhos. Mas ele está aí às
voltas com uma filha fazendo barraco na imprensa.
Chomsky é tão sagaz assim?
Segundo
os dados disponíveis, chineses e japoneses são mais inteligentes do que
brancos (excetuados os judeus asquenazitas). No entanto, o mundo
inteiro – chineses e japoneses inclusos –, ao menos até o século
passado, votou com os pés nos países construídos pela cristandade. Com
seu QI humilde, o Ocidente construiu uma civilização na qual os outros
querem morar.
Se
esse pessoal fã de QI fosse tão adepto da ciência quanto alega, a
primeira coisa a ser feita na valoração do QI seria observar as
biografias de pessoas de QI alto e as sociedades com uma demografia de
QI alto. Ao meu ver, as personagens de QI alto mostradas na abertura de
Idiocracy são idiotas. As opiniões políticas de Noam Chomsky, emitidas
do alto de seu QI estratosférico, são idiotas. O Japão tem muita gente
inteligente, mas marcha para uma população cada vez menor – e não por
planejamento, mas por dificuldade nas relações humanas, cheio de adultos
virgens.
Primeiro
veio a moda da educação: todo pai tinha que fazer os filhos estudarem
muito para ficar muito inteligentes e terem sucesso na vida. O
resultado, descrito por Michael Sandel em A tirania do mérito,
é um monte de niilista com doença mental. Vamos acompanhar Elon Musk
para ver se ele não representa uma tendência à engenharia genética como
jeito de ter filhos muito inteligentes.
Mas
a raiz desse mal talvez seja a necessidade de hierarquizar e ser
superior. Um homem mediano não pode ter uma vida plena de realizações e
de sentido? Para que criar filho igual a potro de competição?
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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