A extrema-direita e extrema-esquerda se deram bem nas eleições, até onde se pode dizer que alguém se deu bem numa eleição com 54 por cento de abstenção. Theodore Dalrymple para o City Journal, com tradução para a Gazeta do Povo:
As
eleições parlamentares francesas deixaram o presidente Emmanuel Macron
não apenas sem o apoio da maioria, mas também com um Parlamento dividido
em tantos grupos que alguns analistas dizem que o país se tornou
“ingovernável”, com aconteceu sob a Quarta República até Charles de
Gaulle estabelecer a Quinta.
“Ingovernável”
é uma palavra forte. As eleições foram realizadas com tranquilidade,
ainda que essa tranquilidade fosse sinal de apatia. Nem a administração
de um país se importa com seu governo. A Bélgica passou 500 dias sem um
governo federal e nada mudou por lá. A vida segue enquanto os políticos
negociam.
No
primeiro turno das eleições, o partido do presidente, que acabou por
conquistar muitos lugares no Parlamento, mas não a maioria, conseguiu
amealhar incríveis 12 por cento dos votos (52 por cento dos eleitores se
abstiveram). Desses 12 por cento, boa parte votou contra os outros
partidos, e não em apoio a Macron e seu partido. Não é uma base popular
que confere legitimidade a um governo de reformas amplas, entre elas a
reforma do sistema previdenciário, que o presidente considerada
necessárias.
Macron
teria maioria parlamentar se tivesse formado uma coalizão com o
tradicional partido de centro-direita Les Républicains, uma vez que,
exceto por ambições pessoais, não há muitas questões a separá-los. Mas
na política a ambição é um fator importante. Lembro-me de Ernest Bevin,
importante membro do governo trabalhista na Grã-Bretanha do pós-guerra,
respondendo a alguém que lhe disse que Aneurin Bevan, outro membro
importante do mesmo governo, era seu pior inimigo. “Enquanto eu estiver
vivo, não é”. Aí está – a política em resumo.
A
extrema-direita e extrema-esquerda se deram bem nas eleições, até onde
se pode dizer que alguém se deu bem numa eleição com 54 por cento de
abstenção. Na França, os extremos estão separados por suas ideias quanto
à imigração e identidade nacional, mas em questões econômicas não estão
tão distantes assim. Ambos são extremamente estatistas.
A
coalizão de esquerda, liderada por Jean-Luc Mélenchon e agora a segunda
maior força no Parlamento, foi formada por vários grupos díspares que
começaram a brigar assim que os votos foram apurados. Mélenchon é um
demagogo que às vezes (dependendo da plateia) usa roupas chiques de
proletário, daquele tipo que o proletário de verdade nunca usa, da mesma
forma que os líderes comunistas faziam.
A
extrema-esquerda atraiu sobretudo os mais jovens, que são ao mesmo
tempo ansiosos e deprimidos, o que não surpreende, levando em conta as
dificuldades reais enfrentadas pelos mais jovens. Os jovens eleitores
eram provavelmente os mais bem educados entre todos, o que confirma algo
que já se sabe: educação não é o mesmo que sabedoria política.
A
política econômica de Mélenchon é conter a inflação controlando os
preços, aumentando o salário mínimo e as aposentadorias, diminuindo as
horas trabalhadas e reduzindo a idade mínima de aposentadoria para 60
anos. Ao mesmo tempo, ele pretende aumentar os gastos do governo em mais
de 250 bilhões de dólares – a serem pagos com impostos cobrados dos
mais ricos, uma medida sempre popular entre os que enfrentam
dificuldades econômicas. Chavista declarado, Mélenchon não tem vergonha
de dizer que a França de hoje é um inferno.
A
verdade, contudo, é que essa receita econômica não tem nada a ver com
as circunstâncias difíceis atuais, causadas pela irresponsabilidade
pretérita: Mélenchon proporia essas medidas independentemente das
condições do país. É uma receita que sempre atrai eleitores, por mais
que já tenha levado países ao desastre repetidas vezes. Mas dessa vez
será diferente, acredita ele.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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