A revista Crítica, mantida na rede pelo professor Desidério Murcho, publica a tradução de um dos ensaios do livro de Richard M. Hare, "Essays in Ethical Theory" (1993), com tradução de tradução de Natália Amorim do Carmo e Alcino Eduardo Bonella1:
Devo
iniciar dizendo o que penso ser o objeto desta atividade chamada
filosofia moral. Consiste em encontrarmos uma maneira de pensar melhor –
isto é, mais racionalmente – sobre questões morais. O primeiro passo em
direção a isto é: entender as questões que você está levantando. Isto
poderia parecer óbvio, mas dificilmente tentamos fazê-lo. Temos de
entender o que queremos dizer com expressões tais como “Eu devo”. E
entender o significado de uma palavra como esta envolve entender suas
propriedades lógicas, ou, dito de outra maneira, o que implica usá-la ou
com o que ela nos compromete. Então, se descobrimos que não podemos
aceitar aquilo a que ela nos compromete, temos de deixar de
pronunciá-la. E isto é, em essência, o que o argumento moral é. A ética,
o estudo do argumento moral, é assim um ramo da lógica. Este é um dos
níveis do pensamento que concerne ao filósofo moral. Os outros níveis
são sobre questões mais substanciais, mas este primeiro, o nível lógico
ou metaético, como é às vezes chamado, é o fundamento dos outros.
Uma
vez que o tipo de ética que estamos a fazer é um tipo de lógica, ela
tem de usar os métodos da lógica. Porém, quais são eles? Como nós
descobrimos o que se segue do que, o que implica o que, ou com o que me
comprometo ao dizer, por exemplo, “Devo alistar-me no Exército” ou “Devo
juntar-me à revolução”? Isto é em parte uma questão geral sobre o
método da lógica sobre o qual não me aprofundarei aqui. Posso apenas
declarar de qual lado estou ao tratar algumas questões cruciais.
Primeiramente, penso ser útil e realmente essencial, e espero que não
seja visto como pedantismo, distinguir dois tipos de questões. Chamarei o
primeiro tipo de questões formais, e o segundo de questões
substanciais. Questões formais são aquelas que podem ser respondidas
apelando somente à forma – isto é, às propriedades puramente lógicas –
das respostas que propomos a elas. Este é o tipo de questão que nos
concerne na meta-ética. Nesta parte do nosso trabalho, não temos
permissão para fazer uso de quaisquer suposições substanciais.
2. [A metaética como base da ética]
Ilustrarei
a distinção com um exemplo que não tem nada a ver com ética, porque é
um exemplo mais claro que não evoca questões éticas. Ele vem de um
artigo bem conhecido dos professores Strawson e Grice (1956) refutando
(em minha opinião, com sucesso) uma alegação do professor Quine, em um
artigo ainda mais conhecido (1951: algumas afirmações de Quine podem
estar corretas, mas é bem claro que Strawson e Grice refutaram esta em
especial). Suponha que eu diga “Minha filha de três anos de idade
entende a teoria dos tipos de Russell”. Todos teriam certeza de que o
que eu disse é falso. Mas poderia ser logicamente verdadeiro. Por outro
lado, suponha que eu diga “Minha filha de três anos de idade é uma
adulta”. Sabemos que não posso dizer isso de modo consistente se sabemos
apenas o significado das palavras, e nada mais. Este não é o caso,
obviamente, da primeira proposição.
Isto
ilustra a distinção entre o que chamo de questões formais e o que chamo
de questões substanciais. E se aplica igualmente a questões morais, que
podem também ser divididas nestes dois tipos. Suponha que eu diga:
“Nada há de errado em açoitar as pessoas por diversão”. As razões para
as pessoas discordarem de mim (veremos adiante o que poderiam ser tais
razões) são de um tipo bem diferente do que seriam se eu tivesse dito:
“Nada há de errado em fazer o que não se deve fazer”. Sabemos que não
posso dizer consistentemente a última frase apenas conhecendo o
significado das palavras “deve” e “errado”. Eu poderia, no entanto,
dizer consistentemente a primeira proposição, mesmo que pensemos que é
algo pavoroso de se dizer – e só uma pessoa perversa diria isto – mas
não seria algo logicamente inconsistente.
Não
é necessário discutir aqui a rejeição das noções de analiticidade e de
sinonímia, levada a cabo por Quine. Strawson e Grice podem estar certos
em defender estas noções, mas mesmo se não estiverem, as alegações
formais que preciso fazer acerca dos conceitos morais não tem de ser
estabelecidas nestes termos, mas somente em termos da noção de verdade
lógica, o que Quine, naquele artigo, aceita. Isto ocorre porque os
conceitos morais são formais em um sentido ainda mais estrito do que eu
sustentei até agora. Isto é, eles não requerem para a sua explicação
estipulações semânticas materiais, mas apenas referências a suas
propriedades puramente lógicas. As propriedades semânticas das palavras
morais têm a ver somente com seus significados descritivos particulares,
que não são parte do seu significado no sentido estrito e não afetam
sua lógica, embora o fato de que tenham de ter algum significado
descritivo, afeta. (Sobre isso ver MT p. 2 e LM p. 122 ssi).
Temos
de notar que o exemplo acima de um enunciado moral que todos deveriam
rejeitar sob bases lógicas, “Nada há de errado em fazermos o que não se
deve fazer”, é um exemplo cujo contraditório (“há algo de errado em
fazermos o que não se deve”) é uma verdade lógica. Isto é assim porque
“deve” e “errado” são definíveis um pelo outro em termos de suas
propriedades puramente lógicas, sem implicar sua semântica ou seus
significados descritivos, assim como “todos” e “alguns”, na maioria dos
sistemas de lógica quantificacional.
O
próximo ponto que mencionarei é algo que será de fundamental
importância para o argumento moral. Quando enfrentamos questões do
segundo tipo em cada caso citado (questões formais), não temos permissão
para apelar a quaisquer outras considerações que não aquelas que podem
ser estabelecidas sob a base de nossa compreensão das palavras ou dos
conceitos utilizados. Para retomar os dois exemplos: sabemos que não
podemos dizer “Nada há de errado em fazermos o que não se deve fazer”
porque sabemos o que significam “errado” e “deve”. E sabemos que não
podemos dizer “minha filha de três anos é um adulto” porque sabemos o
que significam “criança” e “adulto”. Se, para estabelecer que não
poderíamos dizer tais coisas, nós tivéssemos que apelar a outras
considerações, as questões acerca de podermos dizê-las não seriam
formais.
Em
geral, em lógica, estabelecemos teses (ao menos no tipo de lógica sobre
a qual estou falando, que inclui o tipo que usamos em ética) apelando
ao nosso entendimento do uso das palavras, e nada mais. É assim porque a
lógica é o fundamento do argumento moral, que é tão importante
compreender as palavras. Devemos notar que esta é uma característica do
método que advogo, o que o distingue muito radicalmente de quase todas
as teorias éticas que vemos sendo propostas atualmente. Todas essas
teorias apelam para um ponto ou outro e, no mais das vezes muito
frequentemente, para convicções morais substanciais que seus proponentes
aceitam, e que eles esperam que seus leitores também partilhem. Embora
eu reconheça que muitas pessoas não acreditem na distinção que faço
entre questões morais formais e questões morais substanciais, e por
consequência, sentem-se livres para usar o que chamaria de convicções
morais substanciais para defender suas teorias, eu ainda acho que o meu
modo de proceder fornece uma base mais firme para a ética.
Deixe-me
dizer muito brevemente as minhas razões para esta confiança. Se estamos
arguindo sobre alguma questão moral (por exemplo, sobre a questão “Devo
alistar-me no exército?” ou “Devo juntar-me à revolução?”), uma das
coisas que temos de ter bem claro desde o início é em que consiste tal
questionamento. E isso equivale a dizer, se não vamos dialogar com
propósitos cruzados, que temos de ter o mesmo significado nas palavras
em que formulamos nossa questão. Contudo, se queremos dizer a mesma
coisa através destas palavras, então teremos uma base sólida de acordo
(ainda que um acordo formal, e não um substancial), sobre o qual podemos
fundamentar nossos argumentos futuros. Se a distinção entre formal e
substancial se sustentar, então teremos esse acordo, a despeito de nosso
desacordo substancial. Poderemos então, como espero mostrar, usar este
acordo formal para testar os argumentos que qualquer um de nós usa para
defender seus pontos de vista. Podemos perguntar: “Pode ele dizer isso
consistentemente?”, ou “Pode ele dizer isso consistentemente, se ele
também diz aquilo?”.
Por
outro lado, se as pessoas carregam suas próprias convicções
substanciais para dentro dos fundamentos de seus argumentos morais, elas
não serão capazes de argumentar convincentemente contra qualquer pessoa
que não compartilha de tais convicções. Isto é o que filósofos que
chamamos de intuicionistas fazem, e digo com certa confiança que minha
posição é muito mais forte do que a deles. Esse é o caso porque não me
baseio em nada mais do que aquilo com o que todo mundo concorda entre si
quando estão formulando as mesmas questões que estou tentando
responder. Esta é a razão para eu dizer que antes do argumento começar,
nós temos de concordar com o significado das palavras que vinculamos às
nossas questões. Isto é tudo que é requerido para começar.
É
o bastante para a questão do método da ética. Eu poderia dizer muito
mais para preencher lacunas, e já o fiz em outros textos (ver capítulo 1
de MT); mas agora vou em frente, e vou dizer o que espero estabelecer
com este método, e como ele nos ajuda a lidar com questões substanciais
reais. No nível formal ou meta-ético, necessito estabelecer só duas
teses e, para simplificar, as formularei como teses sobre a palavra
“devo” e sua lógica. Eu poderia falar de outras palavras ao invés desta,
palavras tais como “correto” e “bom”. Porém, eu prefiro falar sobre
“devo”, porque é a palavra mais simples que usamos em questionamentos
morais.
3. [A lógica da questão e da resposta à questão]
Aqui,
então, estão duas características lógicas da palavra “devo”, como ela
aparece nas questões “Devo me alistar no exército?” e “Devo me juntar à
revolução?”. Tais características são parte do que me comprometo se
responder “Sim, eu devo”. A primeira é às vezes chamada a
prescritividade dos juízos morais. Se eu digo “Sim, devo me alistar no
exército”, e digo isso sinceramente e no seu sentido pleno – ou seja, se
eu realmente acho que devo – então, eu me alistarei no exército. É
claro que existem sentidos mais fracos de “devo” ou de “eu acho que
devo”, inferiores ao principal sentido, digamos forte ou completo de
“devo”, sentidos nos quais eu poderia dizer “Acho que devo, mas não irei
me alistar”, ou “Eu devo sim, mas e daí?”. Qualquer um que viveu uma
situação de questionamento moral destas, todavia, (como eu vivi, e na
verdade foi uma das coisas que me levou à filosofia), saberá que o
propósito principal de se questionar “Devo me alistar?” é ajudar a
decidir-se quanto à questão “Irei me alistar?”, e a resposta à primeira,
quando possui este sentido, implica na resposta à segunda. Se não fosse
assim, que sentido teria levantar a questão?
A
segunda característica da palavra “devo” em que me apoio é comumente
chamada universalizabilidade. Quando digo que eu devo, comprometo-me com
mais do que Eu devo. A prescritividade exige de alguém que afirme “Eu
devo”, que ele mesmo se disponha a agir em conformidade ao que disse, ao
menos se a afirmação se aplica ao caso, e se ele assim pode agir. A
universalizabilidade significa que, ao afirmar “Eu devo”, a pessoa se
compromete a consentir que qualquer pessoa nestas circunstâncias também
deve. Se dissesse “Eu devo, mas existe outra pessoa, exatamente nas
mesmas circunstâncias, fazendo a mesma ação que eu, outra pessoa que é
exatamente como a pessoa a que minha ação se refere, mas que não deve
fazê-la”, então sobrancelhas lógicas se levantarão em sinal de surpresa.
Há algo logicamente estranho aqui. É inconsistente logicamente afirmar,
sobre duas pessoas exatamente similares em situações exatamente
similares, que a primeira deve fazer e a outra não deve fazer alguma
coisa. A similaridade das situações, devo dizer, se estende às
características pessoais, e em particular, aos gostos e desgostos das
pessoas nestas situações. Se, por exemplo, a pessoa que é açoitada por
mim efetivamente gostasse de ser açoitada (algumas pessoas gostam), tal
caso mostraria que a situação não é exatamente similar ao que é o caso
normal, e esta diferença poderia ser relevante.
Assim,
colocando juntas as características da prescritividade e da
universalizabilidade, vemos que, se afirmo “Devo fazer isso a ele”,
então me comprometo a afirmar não apenas que eu terei de fazer isso a
ele (agindo de acordo com a afirmação), mas também que ele deveria fazer
isso a mim se trocássemos os nossos papéis com precisão. É assim, como
veremos, que o argumento moral força. Devo repetir que não é parte
essencial de meu argumento que todos os usos de “devo” tenham essas
características. Tudo que defendo por ora é que nós, algumas vezes,
quando nos questionamos “devo?”, usamos a palavra deste modo. Dirijo-me
aqui àqueles que estão levantando tais questões, e estou certo que
muitos o fazem. Se alguém desejasse levantar questões diferentes,
poderia ser o caso de ter que usar uma lógica diferente. Todavia, estou
certo de que nós, algumas vezes, levantamos questões deste tipo, e
discordamos sobre elas, questões prescritivas universais – isto é, sobre
o que prescrever universalmente para todas as situações de um
determinado tipo, não importando quem é o agente e quem é a vítima.
Ficarei satisfeito se puder mostrar como se pode argumentar de modo
válido sobre tais questões, cujo caráter lógico é determinado por serem
estas questões, i.e., questões prescritivas universais.
Poderia
adicionar que o ponto central de termos uma linguagem moral com estas
características – uma linguagem cujo significado é determinado apenas
por suas características lógicas, e que pode consequentemente ser usada
em uma discussão entre duas pessoas com convicções morais substanciais
muito diferentes, é que as palavras terão o mesmo significado nas falas
de ambas, e elas estarão ambas limitadas pelas mesmas regras lógicas em
seu argumento. Se suas diferenças morais estivessem impressas no
significado de suas palavras morais (como acontece com algumas palavras
morais e como alguns filósofos pensam acontecer, equivocadamente, com
todas elas), então elas levariam a propósitos cruzados desde o início da
discussão; sua arguição moral entraria em colapso rapidamente, e eles
teriam de brigar um com o outro. É por causa deste caráter formal de
minha teoria sobre as palavras morais que eu penso ser ela mais útil do
que teorias de outros filósofos, que tentam imprimir suas próprias
convicções morais dentro do significado das palavras, ou das regras do
argumento. Isso é especialmente verdade quando chegamos a tratar de
problemas morais acerca dos quais as pessoas têm convicções morais
radicalmente diferentes. Se tais convicções infectarem as palavras,
estas pessoas não poderão se comunicar racionalmente umas com as outras.
Isso é o que vemos acontecer em todo lugar (pense, por exemplo, na
África do Sul, onde apresentei uma versão inicial deste artigo). Nesta
situação, as teorias que estou criticando não são de nenhuma ajuda,
porque as pessoas apelarão a suas convicções, que são opostas, e uma
discussão séria e frutífera não pode nem sequer começar.
4. [O lugar dos fatos (1)]
O
próximo ponto que preciso deixar claro é o lugar do apelo aos fatos, no
argumento moral. Como já pontuei, primeiro, se pergunto “Devo
alistar-me no Exército?”, é preciso ser claro sobre o que quero dizer
com a expressão “devo”. Porém, isso não é suficiente. Tenho de ter bem
claro o que estou perguntando; contudo, outra parte importante para ter
clareza é saber o que implica a expressão “alistar-me no exército”. Em
outras palavras, o que estarei fazendo se alistar-me? Há alguns
filósofos que usam a expressão “consequencialista” para definir
pejorativamente seus oponentes. Eu concedo prontamente que existe um
sentido em que devemos fazer a coisa certa, e que se danem as
consequências. Todavia, tais filósofos estão de fato em confusão se
pensam que, para decidir o que devemos fazer, podemos ignorar o que
estaremos a fazer se escolhemos esta ou outra ação, dentre todas as que
poderíamos optar. Se alguém pensa que não deve alistar-se no exército,
ou que seria errado fazê-lo, sua razão (ou seja, aquilo que em sua
opinião torna errado fazê-lo), deve ter algo a ver com o que ele estaria
fazendo, por exemplo, se ele se alistasse. Esta é a ação ou série de
atos cuja moralidade nos perturba. Alistar-se, nestas circunstâncias (se
o tipo de regime em que se vive é como o da África do Sul do período do
apartheid) significa comprometer-se a atirar nas pessoas que protestam
nas ruas, se o governo assim mandar. Isto é o que tornar-se soldado
nesta situação implica. Quem pensa que as consequências, neste sentido,
são irrelevantes para decisões morais, não pode ter entendido sobre do
que trata a moralidade: ela trata de ações, ou seja, sobre o que fazer,
ou ainda, trata do que produzimos no mundo com nossa ação – trata da
diferença que faremos no curso dos eventos. Tais são os fatos que temos
de saber.
Há
algumas teorias éticas, conhecidas geralmente como teorias
naturalistas, que tomam os fatos como relevantes para as decisões morais
de um modo muito mais direto. Eles fazem isto dizendo que o que as
palavras morais significam é alguma coisa factual. Para dar um exemplo
direto: se “errado” significasse “o que colocaria em risco o Estado”,
então, obviamente, seria errado fazer qualquer coisa que pusesse em
risco o Estado, e não deveríamos fazer isto. O problema com tais teorias
é o mesmo, com efeito, daquelas mencionadas inicialmente. A teoria
torna-se inútil para os fins da discussão moral se os autores inscrevem
suas próprias convicções morais dentro da própria teoria; e uma das
maneiras de se fazer isso é colocar as convicções no significado das
palavras morais. Isto torna impossível a comunicação e o argumento
racional entre pessoas que possuem diferentes opiniões morais. Se
“errado” significasse o que sugeri acima, alguém que pensasse existir
algo moralmente mais importante do que a preservação do Estado, não
poderia usar a palavra para debater com um defensor do regime. Um
haveria de se alistar no exército, e o outro de se juntar à revolução.
Eles simplesmente teriam de lutar.
Porém,
não estou fazendo o mesmo que os naturalistas fazem, porque a abordagem
que apresentei do significado de “devo” em termos de prescritividade e
de universalizabilidade, não incorpora quaisquer convicções morais
substanciais na palavra; ela é neutra para os dois participantes em tal
disputa, de modo que ambos podem usar consequentemente as mesmas
palavras, se eu estou certo, ao discutir seu desacordo. Assim, tenho de
dar, e já o fiz parcialmente, uma abordagem diferente de como os fatos
são relevantes para decisões morais. Isto se faz via teoria da
racionalidade propriamente dita – da noção de razão.
Pode
ser útil se começarmos com algo mais simples do que juízos morais: com
imperativos simples. Estes dois tipos de atos de fala não devem ser
confundidos, pois há diferenças importantes. Mas imperativos como
“Aliste-se no exército!” ilustram de maneira bem mais simples o ponto
que tento explicar. Eles são o tipo mais simples de prescrições (juízos
morais são um tipo muito mais complexo por causa da
universalizabilidade). Para tomar um exemplo ainda mais simples: suponha
que eu diga “Dê-me chá” e não “Dê-me café”. Digo isto justamente por
causa de alguma coisa sobre beber chá ou beber café. Esta é a minha
razão para dizer isso. Se beber chá fosse algo diferente, eu poderia não
dizê-lo. Eu quero, ou escolho, beber chá, e não café, porque acredito
que assim seria beber chá, ou seja, por causa de um (suposto) fato a
respeito disso. Espero que, se ficou claro que, mesmo no caso de simples
imperativos como este, fatos possam ser razões para expressá-los, então
ficará igualmente claro que juízos morais também podem ser expressos
por razões, muito embora eles não sejam em si mesmos (ou não só)
enunciados de fatos, pois são prescritivos. Seria irracional pedir chá
em completa desconsideração do que, de fato, seria beber chá. Note que o
que eu acabo de dizer de modo algum depende da universalizabilidade.
Deliberadamente, tenho tomado o caso dos imperativos simples, os quais
não são universalizáveis. Mais tarde faremos o movimento que depende da
universalizabilidade, mas ela não é necessária por agora.
Agora,
gostaria de introduzir outro movimento, que também não depende da
universalizabilidade e, na verdade, é independente de tudo o que eu
disse até aqui. Também é um movimento lógico, que depende do significado
das palavras. Concerne à relação entre saber o que é experimentar algo,
e experimentá-lo. A relevância disto para o que disse até aqui é que,
se temos de saber os fatos sobre o que nós estaríamos fazendo se
fizéssemos algo, uma das coisas que temos de saber é o que nós, ou os
outros, experimentaríamos se o fizéssemos. Por exemplo, se estamos
pensando em açoitar alguém por diversão, é importante que o que
estaríamos fazendo se a açoitássemos seria dar à pessoa aquela
experiência desprazerosa. Se ela não se importasse, ou mesmo se
gostasse, então nosso ato seria diferente em um aspecto moralmente
relevante. Então, é importante considerar quais são as condições para
afirmar que realmente sabemos como seria uma dada experiência (nossa ou
de alguém mais) resultante de nosso ato.
Suponha
que a experiência em questão é (como neste caso) um sofrimento de
qualquer tipo. Afirmo que não podemos sofrer sem saber que estamos
sofrendo, nem saber que estamos sofrendo sem sofrer. A relação entre ter
experiências e saber que as temos foi notada já por Aristóteles
(1120ª29). Há dois tipos distintos de razões para a última metade da
tese que adiantei. O primeiro é que não podemos saber qualquer coisa sem
que seja o caso de estarmos experimentando algo (este é o tipo de
palavra que “saber” significa). A segunda razão é uma razão particular, e
mais importante para nosso argumento: se não tivéssemos a experiência
do sofrer, não haveria nada a saber, e nenhum meio de sabê-lo. O
conhecimento que estamos tendo a experiência de sofrer é um conhecimento
direto, não qualquer tipo de conhecimento por inferência, e, assim, não
pode existir sem o objeto do conhecimento (qual seja, o sofrer), estar
presente em nossa experiência. É por isso que é tão difícil saber como é
o sofrer alheio. Como veremos, a imaginação terá de preencher, de
maneira inadequada, o lugar da experiência.
Logo,
não podemos estar sofrendo sem ter a preferência, pro tanto, no que diz
respeito a isso, de que não deveríamos estar sofrendo. Se não
preferimos, em igualdade de condições, que isso pare, então não é
sofrimento. A preferência pelo fim do sofrimento é o que se diria, se
fosse expressa na linguagem, através de uma prescrição de parar o
sofrimento. Assim, colocando as coisas em conjunto, se estamos sofrendo
e, portanto, sabemos que estamos, estamos obrigados a assentir à
prescrição que manda parar o sofrimento (ceteris paribus). Devemos
querer que pare, ou não é sofrimento.
5. [O lugar dos fatos (2): pôr-se na pele dos afetados]
É
o bastante sobre o nosso sofrimento presente. Temos agora de ponderar
sobre o que está implicado pelo conhecimento que, sob certas condições,
sofremos, ou sofreríamos, ou que outro alguém está sofrendo. Tomemos o
último caso primeiro. Com o que me comprometo se realmente afirmo que
sei como é ser alguém que está sofrendo, ou que sei como é sofrer dessa
maneira? A pedra de toque para saber isso me parece ser a questão “quais
são as minhas preferências (ou, em outras palavras, a quais prescrições
eu dou assentimento) considerando uma situação em que eu fosse colocado
exatamente em sua situação, sofrendo daquela forma?”. Se ele está
sofrendo aquele tanto, ele sabe que está, e ele tem a preferência por
parar o sofrimento (uma preferência de determinada intensidade,
dependendo de quão severo é tal sofrimento). Ele, portanto, concorda,
com determinada força de assentimento, à prescrição de que o sofrimento
deva parar. Esta preferência e este assentimento são parte de sua
situação, e, consequentemente, parte do que eu devo me imaginar
experimentando caso seja transferido imediatamente para a situação dele.
Perguntei
há pouco “Com o que estou comprometido se alegar que sei de verdade
como ele está sofrendo?”. Minha tese é: estou eu mesmo comprometido em
ter uma preferência de que o sofrimento pare se fosse o caso de eu ser
transferido imediatamente para a situação dele com as suas preferências;
e a intensidade dessa preferência que estou comprometido em ter é a
mesma de sua preferência.
Afirmei
que esta seria a minha tese. Mas não argumentei em favor dela ainda, e
tal argumento será, certamente, controverso. O movimento que faço é
este: se eu estou realmente pensando na pessoa, imediatamente posta
naquela situação, como eu mesmo, dependerá de associar-me com as
preferências, ou tomar para mim as preferências que aquela pessoa (i.e.,
eu mesmo) possui. É claro que, como antes, temos de adicionar a
cláusula ceteris paribus; pois pode muito bem existir outras coisas que
eu prefiro tão intensamente, que superem meu desejo de satisfazer aquela
preferência da outra pessoa (a mesma que imagino ser eu). Porém,
ceteris paribus, eu tenho de preferir a satisfação da preferência
daquela pessoa com a mesma intensidade que eu a teria, estivesse eu
naquela situação, com aquelas preferências. Se não as prefiro, então ou
não sei realmente como é estar naquela situação com aquelas preferências
(não estou as representando plenamente para mim), ou não estou pensando
na pessoa, naquela situação, como eu mesmo.
Deixe-me
dar um exemplo que ilustre tudo isso. Suponha que alguém foi amarrado e
um pneu foi colocado em seu pescoço. Em seguida, o pneu é incendiado
com gasolina. Ele está sofrendo em um grau extremo, e por isso sabe que
está sofrendo. O que significa que eu sei como é para ele sofrer aquilo?
Ou, para colocar em termos de preferências: ele prefere fortemente que
parem de queimá-lo daquele jeito; então como seria saber ter tal
preferência por tal fim, ou daquela intensidade (dizer, por exemplo,
“Não! Não! Parem!”, com tamanha angústia)? Suponha agora que eu alegue
saber exatamente como é para a pessoa ter tal preferência e estar
sofrendo aquele tanto, e então, se alguém se oferece para fazer o mesmo
comigo imediatamente eu diga: “Não me importo; tanto faz para mim”. Isto
certamente mostraria que não sei como é estar na condição dele, pois se
presume que se estivesse naquela situação, eu teria a mesma preferência
daquela pessoa a quem aquilo foi feito. Penso que o mesmo poderia ser
mostrado em casos menos dramáticos, e que, quando tivermos feito o
devido equilíbrio de outras variáveis (isto é, de preferências
contrárias), eu poderia mostrar convincentemente que a tese se mantém,
mas não vou defender isto agora, porque quero retirar conclusões disto
para meu argumento principal.
Vejamos
as teses elencadas até aqui. Temos a prescritividade e a
universalizabilidade dos juízos morais, que eu afirmo poder ser
estabelecidas através de argumentos baseados no significado das palavras
– argumentos lógicos. Depois, temos a necessidade de informação factual
correta, se vamos assentir racionalmente a prescrições, incluindo
prescrições expressas com “deve”. Por último, temos a tese de que não
estaríamos na posse de informação factual correta sobre o sofrimento de
outra pessoa, ou em geral sobre suas preferências, a menos que
quiséssemos que tais preferências fossem satisfeitas, estivéssemos nós
na situação dela com as preferências dela. Note novamente que embora eu
tenha alegado que posso estabelecer a universalizabilidade, eu ainda não
a usei no argumento. É isto que vou fazer agora, em conjunção com as
outras teses.
6. [O argumento moral: universalizabilidade]
Suponha
que sou eu quem está causando o sofrimento da vítima. Ela quer muito
que eu a desamarre. Isto consiste em dizer que ela assente, com
intensidade muito alta de assentimento, à prescrição que eu deveria
desamarrá-lo. Já sem colocar em cena a universalizabilidade, nós podemos
dizer, sob a força de nossas teses prévias, que, se eu sei como é para
ela estar naquele estado (e se eu não sei isto, meu juízo moral é falho
por falta de informação) – devo eu mesmo ter a preferência que eu
deveria ser desamarrado se estivesse naquele estado. Isto é, eu devo
estar prescrevendo que me soltem, nesta circunstância hipotética.
Suponha agora que eu me pergunte qual prescrição universal estou
preparado a assentir com relação à minha conduta atual que consiste em
fazer-lhe sofrer, isto é, o que estou preparado a dizer que devo agora
fazer-lhe. O “devo” aqui expressa uma prescrição universal, de modo que,
se digo que “Não devo desamarrá-lo”, estou comprometido a prescrever
não devem soltar-me em circunstâncias similares.
Posso,
é claro, dizer que eu não estou preparado a assentir a qualquer
prescrição universal. Esta seria a posição da pessoa que chamei em outro
lugar o amoralista, indicando lá como lidar com ele (MT 182 ff.).
Suponha, porém que eu não sou um amoralista, e estou, por conseguinte,
preparado a assentir a alguma prescrição universal para pessoas
precisamente nesta situação. A questão é o que se segue. Se eu
universalizo a prescrição de continuar fazendo-lhe sofrer, então isso
implica em prescrever que qualquer um que estivesse me fazendo sofrer
numa situação precisamente análoga, deveria continuar a fazer isto.
Isso, porém, contraria a prescrição que, como vimos, já dei assentimento
antes, se eu sei como é estar na situação da minha vítima, a prescrição
de que não continuem a fazer aquilo, mas antes, que me desamarrem, se
eu estivesse naquela situação. Assim, eu estou na situação que Kant
chamou de contradição na vontade (1785: par. 2).
Como
resolver a contradição? A resposta se torna óbvia se notamos que o que
está acontecendo (o que tem de acontecer se estou tentando universalizar
minha prescrição) é que sou forçado a tratar as preferências dos outros
como se fossem minhas próprias preferências. Esta é apenas outra forma
de colocar o requisito de universalizar minha prescrição. Porém, se
nesta situação as duas preferências que tenho entram em contradição,
fossem elas minhas próprias preferências, o que eu faria seria deixar a
preferência mais forte suplantar a mais fraca. E isto é o que sou
forçado a fazer no caso presente em que, como resultado da tentativa de
universalizar, encontro-me com duas preferências ou prescrições
mutuamente contraditórias sobre o que deveria ser feito a mim na
situação hipotética em que eu estivesse colocado no lugar do outro.
Logo, a resposta é que, se a preferência da minha vitima que eu a pare
de atormentar, for mais forte (como certamente ela será) que minha
própria preferência que não pare, eu deveria parar.
Chegamos
assim, neste caso bilateral simples, envolvendo apenas duas pessoas, ao
que é essencialmente uma resposta utilitarista ao nosso problema moral,
e chegamos a isto através de uma rota kantiana. As pessoas falam como
se Kant e os utilitaristas estivessem em polos opostos na filosofia
moral; mas isso apenas mostra como entenderam pouco seja dos
utilitaristas seja de Kant. Nós somos levados a dar peso às preferências
de todas as partes afetadas (neste caso, a duas), proporcionalmente a
sua intensidade, e a dizer que devemos agir segundo a preferência mais
forte. Eu poderia, se houvesse espaço, mostrar como, generalizando este
argumento para cobrir situações multilaterais em que preferências de
muitas partes são afetadas, deveríamos também adotar respostas
utilitaristas, ou seja, que deveríamos em cada caso agir visando
maximizar a satisfação das preferências de todas as partes afetadas,
tratadas imparcialmente. Mas não tentarei fazer isso agora, pois já fiz o
em outro lugar (MT 115 ff.), e tenho de prosseguir e explicar como este
modo de pensar se processará no curso de nossas vidas morais reais,
quando temos de decidir questões práticas. Poderei fazer isso em termos
muito gerais.
Poder-se-ia
pensar que chegamos a um tipo de utilitarismo de atos, e isto é
verdade. Porém, não se trata do tipo de utilitarismo de atos contra o
qual se ensinam as objeções que são comuns aos iniciantes em filosofia.
Tentarei então explicar como o tipo de utilitarismo que advogo difere
dos tipos mais grosseiros. A diferença não é, estritamente falando,
teórica. Ela deriva de uma consideração de nossas circunstâncias humanas
ao realizarmos nosso pensamento moral. Para entender isso, pensemos
como seria se não tivéssemos limitações humanas. Suponha, por assim
dizer, que tivéssemos conhecimento infinito, clareza de pensamento, sem
parcialidade e outras fraquezas humanas. Em outro texto, chamei um ser
que tivesse estes poderes sobre-humanos de arcanjo (MT ch. 3). Ele
poderia, de fato, pensar de um modo ato-utilitarista. Seria, porém,
desastroso se nós humanos tentássemos fazer isso, por razões óbvias.
Antes de tudo, quase sempre carecemos de informação necessária; em
particular, somos muito ruins em nos colocar no lugar dos outros e
imaginarmos como seria estar no lugar deles. Em segundo lugar, carecemos
de tempo para adquirir tal informação e pensar sobre ela. Por fim,
temos pouca habilidade em pensar claramente. Essas três deficiências
tornam muito fácil acharmos que algum ato será o melhor (em satisfazer
maximamente e imparcialmente as preferências), quando, de fato, o que se
aprova é nosso interesse próprio. Vê-se este tipo de mecanismo de
defesa acontecer o tempo todo.
7. [Os dois níveis do pensamento moral]
Suponha
então, cientes destas deficiências, procuremos um arcanjo para nos
aconselharmos, não sobre uma situação particular (já que nem sempre
teremos acesso a ele e, por consequência, queremos que ele nos dê
conselhos para o futuro), mas sobre como, em geral, minimizar seus
efeitos negativos. Muitos acham que podem apelar a Deus desta maneira,
ainda que o que eles dizem que ouviram Dele varia de uma pessoa para
outra. Vamos supor, porém, que tivéssemos acesso imediato a algum ser
supremo ou superior que pudesse nos aconselhar. Ele nos diria que o
melhor que podemos fazer em cada ocasião é aumentar tanto quanto
possível a expectativa de satisfação de preferências resultante de
nossas ações. Tenho certeza que é isto o que Deus faria, porque ele ama
suas criaturas, e quer que façamos a elas o melhor que pudermos.
A
expectativa de satisfação de preferências (ou utilidade, para resumir) é
a soma dos produtos da utilidade e da probabilidade do resultado diante
de todos os resultados de ações alternativas possíveis. Isso é que
chamo de “Agir para o melhor” (Acting for the best). A questão é: Como
chegar a isso? Dadas nossas limitações, não chegaremos a isso fazendo
cálculos utilitários ou análises de custo-benefício em cada ocasião
particular. O arcanjo nos dirá, antes, para cultivarmos em nós um
conjunto de disposições ou de princípios, juntamente com atitudes ou
sentimentos, ou, se alguém deseja usar o termo, intuições que os
acompanham: um conjunto tal que seu cultivo torna mais provável, no
todo, levar à maximização da satisfação de preferências. Isto é o melhor
que podemos fazer, ao contrário do arcanjo, que consegue chegar à
resposta mais adequada em cada ocasião singular, e pode fazer melhor do
que nós.
Nota-se
que isto, embora em um sentido seja uma forma de utilitarismo de
regras, é uma forma que não é incompatível com o utilitarismo de atos. O
que o arcanjo está aconselhando fazermos é perfazer certos atos, a
saber, atos que cultivam disposições, e suas razões para aconselhar
assim é que tais atos mais provavelmente conduzem ao que é melhor – o
que é exatamente o que um utilitarista de atos aconselharia. Todavia,
esta versão do utilitarismo nos assegura as vantagens que formas mais
antigas do utilitarismo de regras reivindicavam, em particular a
vantagem de tornar nosso sistema imune a objeções baseadas na
contra-intuitividade de suas consequências, já que as intuições que o
arcanjo utilitarista de atos sugerirá que cultivemos são as mesmas
intuições a que apelam os críticos.
O
efeito deste movimento é dividir o pensamento moral em dois níveis (em
adição ao terceiro nível, o metaético, que concerne não ao pensamento
moral substancial, mas à forma do pensamento moral, isto é, à lógica da
linguagem moral). Chamo estes dois níveis de Intuitivo e Crítico. Se
seguimos o conselho do arcanjo, faremos quase todo nosso pensamento
moral no nível intuitivo. De fato, em quase todo o tempo, deveremos nos
comportar como os intuicionistas dizem que devemos. Todavia, a diferença
será que, como já se compreende, considerando que as boas disposições,
princípios e atitudes que corretamente cultivamos serão em algum grau
gerais, simples e inespecíficas (se não o fossem, seriam pouco
manejáveis, úteis e ensináveis), elas virão a conflitar em casos
particulares difíceis. Então, ao contrário dos intuicionistas, teremos
de saber o que se deve fazer, por mais difícil e perigoso que isto seja.
E desde que não há de fato arcanjos para consultar, temos de fazer o
melhor que pudermos para pensarmos criticamente, como arcanjos, nestas
ocasiões problemáticas. Quando, porém, nossas intuições nos derem uma
orientação clara, devemos segui-las – ao menos é o que nosso arcanjo
utilitarista nos aconselharia durante nossa única sessão de
aconselhamento.
Entretanto,
deve-se dizer, isto pressupõe que nossas intuições são, de fato, as
intuições corretas. O que nos dá outra razão para usar nosso pensamento
crítico. É perigoso usá-lo em situações de crise, mas quando elas
passam, ou em antecipação a elas, é essencial acioná-lo. Senão, como
teríamos confiança que tais intuições com que fomos educados e que já
possuímos são as melhores possíveis? As melhores intuições sobre como os
brancos devem tratar os negros, por exemplo, ou os homens tratar as
mulheres? Então, o que nosso sábio arcanjo aconselhará, e o que sábios
educadores humanos e autodidatas praticarão, será uma mistura cuidadosa
de pensamento intuitivo e crítico, cada um empregado em ocasiões
apropriadas. Isso na verdade é o que pessoas sábias já o fazem.
“The Structure of Ethics and Morals”, in Essays in Ethical Theory. Oxford, Clarendon Press, 1993, pp. 175–190.
Notas
Os
tradutores agradecem ao Grupo de Pesquisa em Ética, da Universidade
Federal de Uberlândia (UFU), por debater o texto e fazer sugestões para a
tradução. ↩︎
Os subtítulos e subdivisões foram sugeridos pelos tradutores para fins didáticos. ↩︎
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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