A crônica de Ruy Goiaba para a revista Crusoé:
Acabou
nossa inocência: descobrimos que o McPicanha não tem picanha e que os
ingredientes do Whopper Costela incluem apenas “aroma” de costela. Vocês
leram sobre o caso na semana que passou, é claro: Procons estaduais
foram para cima do McDonald’s e do Burger King, respectivamente, dizendo
que as duas redes de fast food induziam o consumidor a erro nas
propagandas dos sanduíches e ameaçando multá-las em até 11 milhões de
reais. As empresas soltaram notas que diziam “mal aí, vacilamos” e
prometeram mudar o nome dos hambúrgueres para algo mais fiel à realidade
— mas nem tanto, já que o certo, McAroma “Natural” de Picanha, seria um
fracasso de vendas.
Essa
história me fez lembrar de um caso famoso ocorrido no Reino Unido, há
uns 13 anos, quando a Procter & Gamble sustentou que sua batata
frita Pringle’s não era batata: tinha 42% de certified batata, legítima,
na sua composição, mas o restante era gordura e farinha. O que a
multinacional queria era escapar do IVA (Imposto sobre Valor Agregado)
cobrado dos produtos enquadrados como “aperitivos” no país. Pois bem,
não só não conseguiu — no fim, a Justiça britânica decidiu que a
Pringle’s tinha de ser taxada como batata — como ficou célebre por
admitir que um de seus produtos mais vendidos é uma não-batata, ou uma
quase-batata. Sim, só falta agora revelarem que o Baconzitos não tem
bacon.
O
que me leva a uma questão quase metafísica: é pouco provável, eu sei,
já que os Procons tendem a se concentrar em casos envolvendo grandes
empresas. Mas e se um dia um fiscal aparecer no boteco da esquina e
quiser autuar o dono porque o X-tudo vendido no pé-sujo não tem, well,
TUDO? “Olhe aqui: esse cardápio de vocês está induzindo o consumidor a
erro. Claramente, o sanduíche que é vendido como X-tudo não inclui tudo,
como o estabelecimento alardeia. Não tem, por exemplo, ovas de esturjão
do mar Cáspio, nem foie gras, nem guacamole, nem o menor resquício de
um pastel de Santa Clara. E isso é só o começo da lista!”. “Tem, sim, é
que a maionese verde da casa esconde um pouquinho o sabor. Mas é só o
senhor procurar que acha.” Ou então o dono do bar, só para se poupar do
trabalho e da multa, vai desistir do X-tudo e começar a vender X-nada —
só com pão, queijo e a carne produzida pela sua imaginação.
Já
pensei em escrever uma história na qual o X-tudo seria como o Aleph do
conto de Jorge Luis Borges, “o lugar onde estão, sem se confundirem,
todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos” e que podia ser
encontrado, sabe Deus por quê, no porão da sala de jantar do poeta
Carlos Argentino Daneri. O freguês se senta no banco sem encosto do
balcão do bar, pede o X-tudo, morde o sanduíche e vê todas as
civilizações presentes, passadas e futuras; esta galáxia, as próximas e
as distantes; impérios nascendo e morrendo, a circulação do próprio
sangue, a quadra de futsal onde ele levou uma bolada na boca aos oito
anos, o lado B de um compacto do Agnaldo Timóteo, o movimento das folhas
de plátano em um bosque canadense, a escalação completa do Guarani
campeão brasileiro de 1978, Shakespeare assoando o nariz etc. Tudo isso
com a maionese verde da casa e aquelas batatinhas fritas em óleo velho
(hmmm, delícia).
Jamais
escreverei o conto porque, obviamente, Borges teve a ideia antes e a
executou muito melhor do que eu poderia sonhar em fazer — fora que
“Aleph” é um símbolo muito mais arcano e charmoso do que “X-tudo”.
Também não tenho nenhuma esperança de encontrar o X-tudo verdadeiro, com
TUDO dentro, nas minhas andanças pelos bares paulistanos. Mas, se um
dia começarem a vendê-lo por aqui — nunca se sabe, a gastronomia evoluiu
tanto, de repente a Helena Rizzo ou a Paola Carosella estão para
incluir a iguaria nos seus cardápios —, já deixo registrado que o meu
X-tudo é sem nazismo. E sem azeitona, por favor.
***
A GOIABICE DA SEMANA
É
dificil escolher apenas uma baboseira no meio da torrente que Lula
despejou em sua entrevista à Time. A mais óbvia, e que repercutiu bem à
beça na opinião pública internacional (só que ao contrário), foi dizer
que Volodymyr Zelensky, presidente de um país invadido e que em nenhum
momento atacou a Rússia, era “tão culpado” pela guerra na Ucrânia quanto
o carniceiro Vladimir Putin — claro, assim como a culpa por aquela
invasão nazista em 1939 foi dos poloneses. E isso depois de ter dito
que, no Brasil, o conflito “seria resolvido em uma mesa tomando
cerveja”. Também afirmou que “nós não discutimos políticas econômicas
antes de ganhar as eleições”, o que dá a entender que aqueles 45
parágrafos da “Carta ao Povo Brasileiro” de 2002 eram um poema em prosa.
É
o que dá deixar o grande gênio político de vocês (não vocês aí, outros
vocês) falando o que dá na telha e se achando lindo — sem os
adestradores das campanhas anteriores, como Duda Mendonça e João
Santana, e cercado apenas do cordão de puxa-sacos batendo palminha. Se
continuar caprichando assim, será ultrapassado até por Jair Bolsonaro e
seu QI de temperatura ambiente.
a

Lula não pode ver uma casca de banana na frente que vai logo escorregar nela
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