Apagar certas palavras ou expressões para não ofender 'grupos' ou 'minorias' é sintoma de paternalismo velho. Coluna de João Pereira Coutinho para a FSP:
De
vez em quando, me confronto com algo de que não gosto. Um texto, uma
imagem, uma piada sem piada. E a parte reptiliana do meu cérebro, que
tento controlar com doses maciças de civilização e farmacologia, resolve
emitir seus grunhidos cavernícolas. "Cancela, censura, destrói, Little Couto!"
Por
segundos, ou milésimos de segundo, estou de volta à selva, usando uma
tanguinha de pele de urso, com um gigantesco pedregulho na mão. Só então
acordo e me forço a repetir o mantra —"são só palavras ou imagens, não
são trovões ou animais ferinos, Little Couto"— e volto a vestir minhas
calças e meu paletó.
Não
é fácil. A biologia conspira contra nós. E a cultura também: no início,
era o verbo. A palavra cria mundos —e, pela mesma ordem de ideias, os
destrói.
O
exato Deus que deu conta do recado em seis dias foi o mesmo que puniu
os blasfemos em questão de minutos. As palavras, as palavras, cuidado com as palavras! Mas cuidado por que?
Essa
é a pergunta que Eric Berkowitz faz no seu importante "Dangerous Ideas:
A Brief History of Censorship in the West, from the Ancients to Fake
News", ou ideias perigosas: uma breve história da censura no Ocidente, dos antigos às fake news.
O
cavalheiro em questão não é maluco. Ele sabe que existem liberdades e
liberdades. Exortações ao genocídio ou à chacina não são a sua praia
(nem a minha). A lei deve existir para esses casos. Mas o primeiro
mérito do livro está em mostrar, para ficarmos ainda em simbologia
bíblica, que não existe nada de novo debaixo do Sol. Você quer censurar
textos, imagens, piadas de que não gosta? Seus antepassados fizeram o
mesmo. É quase irresistível —e até as vítimas da perseguição, quando
alçadas a posições de poder, rapidamente imitaram os algozes.
Os cristãos foram perseguidos pelos romanos. Os judeus foram perseguidos pelos cristãos. Os protestantes foram perseguidos pelos católicos
(e vice-versa). E os revolucionários franceses, depois de proclamarem a
liberdade de expressão como um dos direitos inalienáveis do homem,
começaram a erguer suas guilhotinas para liquidar inimigos —e fogueiras
imensas para destruir a arte pré-revolucionária. Jacques-Louis David,
seguramente um dos maiores pintores do século 18 francês, foi um zelota entusiasta.
Vivemos
sempre em eterno retorno. Não apenas nesses comportamentos selvagens,
mas até nas explicações para esses comportamentos. Você quer apagar
certas palavras ou expressões para não ofender "grupos" ou "minorias",
certo? Também não há novidade aqui, meu amor. Sua atitude paternalista
é a mesma. A grande diferença é que no século 18, quando se proibiam
certos romances de cordel, a ideia era proteger as donzelas e suas
pobres cabeças vulneráveis.
A
histeria com a pornografia, por exemplo, é um dos melhores momentos do
livro. Se você fosse um cavalheiro vitoriano, com conta bancária
confortável, tudo bem. Mas à medida que você descia na escala social,
tudo mal: as massas eram demasiado primitivas para entender certas
coisas; nenhuma sacanagem para elas.
Isso gerava fenômenos comerciais interessantes, até com grandes autores: "A Sonata Kreutzer",
de Lev Tolstói, estava proibida na Rússia em edições populares. Mas,
quando a edição era de luxo, não havia proibição alguma. O preço
nobilitava o comprador.
Aliás,
por falar em Rússia, não era apenas o dinheiro que dividia as águas; o
intelecto também. Quando surgiu no país uma edição de "O Capital", de Karl Marx,
os censores oficiais do czar encolheram os ombros e aprovaram a
circulação do livro. Ninguém iria entender nada daquilo, não é verdade?
As
novas censuras são tão patéticas quanto as velhas. E, além disso, não
funcionam. Essa, talvez, é a lição principal do livro de Berkowitz: as
ideias sempre encontram uma forma de escapar ao chicote dos censores.
Escapar,
vírgula: tornaram-se ainda mais poderosas e insidiosas precisamente
porque censuradas. Karl Popper, usualmente um sábio, estava redondamente
enganado: não há nenhum "paradoxo da tolerância".
A República de Weimar foi tremendamente intolerante com as ideias nazistas
—e vários dos seus praticantes foram presos. O demencial Adolfo foi um
deles. Não podemos dizer que essa "cultura de cancelamento" tenha dado
bons frutos.
Da
próxima vez que você sentir um desejo inconfessável de censurar o que
não aprova, respire fundo, dispa sua tanguinha e lembre Talleyrand:
nunca sigas o teu primeiro impulso porque ele será sempre generoso.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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