Governo Biden quer mudar de assunto o mais rapidamente possível, mas a espantosa ascensão dos ultrafundamentalistas não irá embora tão depressa. Vilma Gryzinski:
O
ser humano se adapta a tudo e as cenas que chegam de Cabul, onde os
talibãs estão se acomodando à volta ao poder, já não provocam tanto
espanto.
Entre
as mais recentes, estão as dos combatentes alojados na mansão que foi
de um dos “senhores da guerra” do país, Abdul Rashid Dostum, uma das
figuras mais bizarras do Afeganistão – um ex-comandante comunista que
virou aliado dos americanos e foi até vice-presidente, tendo se
especializado em matar talibãs de maneiras especialmente cruéis, como
esmagá-los vivos por esteiras de tanque ou sufocá-los em containers
fechados sob o sol do deserto.
Cerca
de 150 talibãs agora estão alojados na mansão que ostenta uma
gigantesca estufa, incontáveis lustres de cristal, piscina coberta e
muitas dezenas de metros de sofás encostados em paredes recobertas de
aquários – o divã, onde em países orientais os chefes recebem a
clientela.
Confortavelmente
descalços, os militantes aparecem num vídeo filmado para mostrar o luxo
absurdo da mansão. Por alguns instantes, os talibãs parecem justiceiros
bem intencionados vingando os abusos de líderes grotescamente
corruptos.
Em
nenhum momento vandalizam a mansão, revelando o autocontrole que é uma
marca do Talibã 2.0, a nova versão do movimento ultrafundamentalista que
não quer repetir as insanidades cometidas da primeira vez que chegaram
ao poder, em 1996.
Ninguém
pode se vangloriar de mandar no Talibã, mas a atual busca de
comparativa respeitabilidade certamente tem a marca da mão conselheira
do Catar, o emirado do Golfo Pérsico que tem grande influência entra
radicais de diversas correntes.
Fora
uma ou outra decapitação no interior, atribuída a excessos de
combatentes que nem sempre podem ser inteiramente controlados, o Talibã
2.0 está respeitando a promessa de anistia a todos os integrantes, civis
e militares, do governo deposto.
Numa
magnânima concessão, admitiu que mulheres poderão fazer faculdade desde
que em salas de aula inteiramente separadas dos homens. Para os padrões
do Talibã, que na sua primeira encarnação só admitia que meninas
estudassem até os dez anos de idade, é um progresso e tanto.
Outro
dos exemplos mais significativos: a embaixada americana, a maior do
mundo, abandonada às pressas na tumultuada retirada, ainda não foi
ocupada – outra concessão certamente negociada para não acrescentar,
logo de início, outra humilhação na conta dos Estados Unidos.
É
claro que a bandeira branca e preta do Talibã em algum momento será
hasteada na ex-embaixada, como o foi no palácio presidencial justamente
nos vinte anos do Onze de Setembro.
Para
o governo de Joe Biden, a expectativa é que novos assuntos – a
vacinação obrigatória para quem trabalha em empresas com mais de cem
empregados, a inflação e outras notícias mais recentes – eliminem
gradativamente as imagens que chegam do Afeganistão e lembram aos
americanos o vexame final.
Problema:
pode demorar, mas a vitória dos jihadistas transformará o Afeganistão,
de novo, num polo de atração para seus similares de outros países.
Um
dos alertas mais explícitos foi dado por Michael Morell, duas vezes
diretor interino da CIA. Ele estava com George Bush filho no Air Force
One no Onze de Setembro e foi o primeiro a creditar os atentados a Osama
Bin Laden.
“A
vitória do Talibã e a maneira como nossa saída aconteceu com toda
certeza encorajaram jihadistas do mundo inteiro”, disse ele.
“O
Talibã está dizendo que não apenas derrotou os Estados Unidos, mas
derrotou a OTAN. ‘Nós derrotamos a maior potência militar do mundo em
todos os tempos’. Isso está sendo muito comemorado”.
“Os jihadistas não apenas foram encorajados, mas muitos irão para o Afeganistão fazer parte da central do jihadismo”.
“Vamos
ver um fluxo fazendo o caminho volta e é isso uma das coisas que faz o
Afeganistão ser um dos lugares mais perigosos do planeta”.
Por mais que Biden queira, o Afeganistão não vai sumir do mapa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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