Quem acha que está berrando pérolas nas redes ou na Paulista reproduz uma obsessão ancestral da espécie. Luiz Felipe Pondé via FSP:
Falamos muito de polarização política hoje em dia. Arrisquemos uma hipótese descolada do óbvio —a polarização é um atavismo da espécie.
Este
atavismo comprovaria outra hipótese anterior, com a qual compartilho
uma certa simpatia, segundo a qual somos uma espécie pré-histórica
desfilando bolsas Prada e iPhones, mas que permanecemos interiormente
aqueles que conviveram com os neandertais —com cuja extinção ajudamos.
Se esta hipótese tem validade, a polarização nada mais é do que a inércia mental da humanidade buscando reafirmar o dualismo mítico do bem contra o mal. Neste sentido, quem polariza são os que mais permanecem presas do atavismo ancestral —redundância proposital.
Paul
Carus (1852-1919) no seu clássico “The History of the Devil”, primeira
edição em 1900, foi um daqueles liberais que navegaram pela história das
religiões.
Alemão
reformado, mudou-se para os Estados Unidos por considerar a Europa
conservadora demais e lá fixou residência, casou-se com uma milionária e
passou a vida fazendo o que queria: estudar religiões e suas
filosofias. Formou-se em Tubingen, Alemanha, e se especializou em
estudos de religiões comparadas.
Carus
definia mitologia como uma forma popular de metafísica. Definição assaz
elegante, diga-se de passagem. Típico intelectual da sua época,
acreditava no aperfeiçoamento da espécie, ainda que de forma mais
comedida do que os marqueteiros que dominam o debate público hoje em
todos os níveis. Nem a psicologia escapa do marketing.
Uma diferença cabal entre ele e nossos otimistas de hoje em dia é que Carus possuía um repertório gigantesco para sua época, o oposto dos marqueteiros contemporâneos que, quando muito, alimentam sua erudição com pérolas do Instagram ou Twitter.
Carus
crê na teoria —bastante consistente para muitos arqueólogos atuais—
segundo a qual a humanidade adorou divindades do mal, antes de adorar
divindades do bem, e oferece dados que sustentam sua teoria.
Sua
visão de religião é típica da sua época —as religiões evoluíram dos
selvagens (termo usado por ele) em direção à superioridade das religiões
que se transformaram em filosofias, mas esse detalhe datado para os
estudos de religião de hoje não afeta aquilo que interessa em sua obra.
A adoração do mal teria surgido por conta do fato de que somos vulneráveis à natureza e às contingências —o óbvio e ululante.
Sacrificar
crianças, virgens, jovens em geral ou animais era um modo de aplacar a
violência do mundo natural e seus agentes demoníacos com sangue fresco.
Ele descreve rituais sacrificiais humanos que deixariam as belas almas
forjadas no marketing de bancos em crise existencial.
O
dualismo seria aqui um avanço. Ele situa o surgimento do dualismo na
Pérsia, pelas mãos do mítico profeta Zoroastro, século 7 a.C. O dualismo
significa que há um combate cósmico contínuo entre o bem e mal. O
monoteísmo antigo, que não nasceu entre os israelitas, mas antes deles
em diversos locais do Oriente Médio, tenta se livrar do dualismo, mas
ele volta, e o Demônio é um dos casos.
E
a polarização nisso tudo? A polarização seria, digo eu, uma forma desse
dualismo atávico em que cada um dos polos se vê como o representante do
bem e o outro como o representante do mal. Neste sentido, quem acha que
está berrando pérolas nas redes, ou na Paulista, nada mais é do que
objeto dessa obsessão ancestral da espécie.
A
polarização especificamente política não é nova. Seu surgimento se dá
devido a violência da modernização industrial capitalista e as rupturas
que ela causou, criando aqueles que abraçaram de alguma forma essas
rupturas (os liberais e os socialistas) e os que temem essas rupturas
(os conservadores). As redes sociais apenas deram lugar à falta de
educação e molecagem como método.
Portanto,
você, meu caro polarizado, que berra nas ruas e nas redes, reconheça-se
como um caso de atavismo da espécie, espécie essa que se arrasta pelo
mundo produzindo mitologias, inclusive políticas, que nada mais são do
que formas empobrecidas de metafísica. Você é a pura inércia em ação. Sua substância é a violência.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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