Qualquer pessoa que examine as falas e atos simbólicos dos “presos políticos” reconhece neles uma intenção perversa de destruir aquele que veem como inimigo. A crônica de Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:
Acordei
com um gosto ruim na boca. Sem entender por que o dia tinha amanhecido
com trilha musical de funeral, fui tomar um banho. Banhos longos
geralmente me animam na mesma proporção em que deixam os ambientalistas
furiosos. Nada. Tentei café com leite na cor perfeita, waffle com
manteiga e mel, carinho na Catota e, num gesto de desespero, tentei até a
“Grande Coletânea de Piada Ruins ou: Por que a plantinha não foi
atendida no posto de saúde?”, de Jay Rossi.
Aí,
por milagre ou coincidência (você decide!), o Facebook trouxe à tona a
lembrança de um dia, há quatro anos, em que achei por bem anotar uma
passagem de “This is Water”, de David Foster Wallace – para mim, e não
sem um quê de hipérbole, o texto mais importante do século XXI.
Prepare-se, porque é pesado: “A liberdade mais importante é aquela que
envolve atenção e consciência e disciplina, e ser capaz de realmente
gostar dos outros e de se sacrificar por eles todos os dias e de todas
as formas, incluindo as nada sensuais. Isso é que é liberdade. Isso é
que é educação e entendimento de como pensar. A alternativa a isso é a
irracionalidade, o instinto, a sensação constante e incômoda de que
tivemos e perdemos algo de infinito”.
Pouco depois, apareceu na tela do celular a imagem de Roberto Jefferson. De imediato me lembrei de Oswaldo Eustáquio e
Daniel Silveira. Pessoas que não conheço, com as quais nunca troquei
uma palavra (e nem sei se quero) e cuja liberdade de expressão defendi
recentemente. Fiquei ali estudando as fisionomias como um Lombroso
tardio e finalmente entendi a razão do meu mal-estar.
Liberdade para ser mau
Em
toda essa discussão sobre a liberdade de expressão e o arbítrio do
Supremo Tribunal Federal, há dois aspectos que devem ser levados em
conta. O primeiro é o de que, observa o bom senso que nos irmana, os
“perseguidos” (antes de implicar com as aspas, leia o texto todo, por
favor. Depois, pode implicar) pelo ministro Alexandre de Moraes não
fizeram bom uso da liberdade que lhes foi dada e posteriormente tirada.
Pelo contrário. Por maldade, equívoco ou descuido, eles usaram a
liberdade que nós, a sociedade, lhes legamos para pregar algo que não
chega nem perto da atenção, disciplina, afeto e sacrifício de que fala
David Foster Wallace.
Evocando Bernanos,
pergunto: essas pessoas querem liberdade (e nós queremos a liberdade
deles, que também é a nossa) para quê? Lógico que a resposta cabe apenas
a eles e que, em se tratando de palavras, não é papel de outra pessoa
interferir na sintaxe moral alheia. Mas convém citar aqui também meu
amigo César Miranda, que outro dia argumentou com uma ênfase semisséria e semijocosa que ninguém pede liberdade para agir como santo.
A
resposta à pergunta de Bernanos e ao comentário de César Miranda talvez
esteja na frase atribuída a Thomas Jefferson (embora nunca tenha sido
encontrada nos escritos dele) e repetida à exaustão. Diz a frase que o
preço da liberdade é a eterna vigilância. Oquei. A frase faz com que nos
sintamos vivos. Heróis numa distopia até. Mas tenho cá para mim que
essa vigilância aí tem a ver também com a autovigilância.
Qualquer
pessoa que examine as falas e atos simbólicos dos “presos políticos”
reconhece neles uma intenção perversa de destruir aquele que veem como
inimigo. Ou seja, reconhece um ímpeto não virtuoso que os aprisiona.
Diria até que é maldade. E algo que talvez tenha se perdido na discussão
(até porque ao outro lado não cabe o papel de “vítima") é justamente o
fato de que a liberdade de que gozam os homens para serem maus não torna
a maldade menos reprovável.
Liberdade para ser bom
O
segundo aspecto tem a ver com a “vítima” da liberdade de expressão
perversa dos ditos “perseguidos políticos”. Alexandre de Moraes,
escravizado pela vaidade e por um conceito corrompido de honra, tem toda
a liberdade do mundo (e até alguns incentivos) para agir corretamente.
Imbuído da supertoga, contudo, optou pela falsa virtude de proteger a “democracia” a qualquer custo.
Para
explicar por que a cruzada de Alexandre de Moraes é imoral, primeiro
tenho que reconhecer que sou um vândalo de livros. Desavergonhadamente. E
o tempo todo. Estou lá lendo o livro, na esperança hoje meio infundada
de chegar até o fim dele, quando me deparo com um trecho interessante.
Sem enrubescer, pego a caneta - a bicona velha de guerra -
e sublinho. Geralmente faço também um ponto de exclamação estilizado à
margem, porque tenho uma certeza tola (todas as certezas são meio tolas)
de que um dia abrirei aquele livro naquela página e me lembrarei
exatamente das sinapses que me fizeram pensar “ó, que trecho
interessante, deixe-me vandalizar o livro aqui porque vale muito a
pena”.
Ontem mesmo, relendo o Ivan Ilitch,
sublinhei “gostava de fazer sentir que ele, capaz de esmagar,
tratava-os com simplicidade”. Neste trecho, Tolstói (Tolsta, para os
íntimos) conta a vida pregressa do homem bom, mas nada especial, que dá
nome à novela. Hoje cedo, contudo, ao abrir o livrinho e me deparar com o
trecho sublinhado quando eu já era embalado no colo de Morfeu, tive
dificuldades para me lembrar do que me levou a gritar “Eureka!” e
acordar a Catota, que me encarou com aqueles olhos azuis para sempre
enfadados.
Aí
me lembrei da liberdade perversa dos “perseguidos”. Uma coisa leva a
outra e temos que, pela métrica da “compaixão jurídica”, Alexandre de
Moraes é o anti-Ivan Ilitch. Isto é, munido da liberdade de agir
virtuosamente, usando do chamado devido processo legal, o juiz optou por
esmagar seus adversários com prisões, operações de busca e apreensão,
censura explícita, tornozeleira eletrônica, etc. Ou seja, diante da
possibilidade de agir ética e sabiamente, aspirando a virtude ou
santidade, Alexandre de Moraes escolheu usar a força que, apesar do véu
de legalidade, não tem outro objetivo que não impedir que o outro exerça
seu livre-arbítrio.
E
é aí que entra a hierarquia do dever. Membro da Suprema Corte do país,
cabe ao ministro fazer uso da “reputação ilibada e notável saber
jurídico” que lhe renderam o cargo para se mostrar moralmente superior
àqueles que o ofenderam e ameaçaram. Detentor do poder de força,
Alexandre de Moraes, em tese, não tem a liberdade de ser mau. Embora
transborde naquele crânio reluzente a liberdade de ser bom.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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