Para o ex-ministro do STF Francisco Rezek, que também foi juiz da Corte Internacional de Haia, o Supremo tem parte da culpa pela crise que está acontecendo no país. Entrevista a Fabio Leite, da Crusoé:
Na
manhã do primeiro domingo de agosto, Francisco Rezek recebeu um chamado
de Luís Roberto Barroso enquanto descansava em sua casa de campo no sul
de Minas Gerais. Barroso queria que o ex-ministro do Supremo Tribunal
Federal e ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral assinasse uma
carta rebatendo as acusações de fraude nas urnas eletrônicas feitas por
Jair Bolsonaro. A ideia era que todos aqueles que dirigiram o TSE, desde
a Constituição de 1988 – Rezek presidiu o tribunal de 1989 a 1990 –,
subscrevessem o documento para demonstrar o quão descabidos eram os
questionamentos do presidente da República. O ex-ministro, que também
foi juiz da Corte Internacional de Haia, não hesitou em aderir.
Aos
77 anos, Rezek é um crítico ácido dos arroubos antidemocráticos de
Bolsonaro. Mas, ao mesmo tempo, não deixa de enxergar nem de falar das
decisões polêmicas e dos excessos cometidos pelo Supremo Tribunal
Federal nos últimos tempos. Como exemplos, ele cita a abertura do
inquérito do fim do mundo e a guinada da corte em relação à Operação
Lava Jato, que ajudou a enterrar investigações importantes. “O Supremo
não se tornou vulnerável por culpa exclusivamente alheia”, diz nesta
entrevista a Crusoé.
Para
o ex-ministro, nomeado duas vezes para o STF (primeiro em 1983, por
João Figueiredo, e depois em 1992, por Fernando Collor, depois de ter
deixado a corte para assumir o cargo de chanceler), a “patologia mais
sórdida” que o Brasil enfrenta hoje é a reação do establishment político
às ações anticorrupção levadas a cabo pela Lava Jato – um processo que
tem contado com importantes contribuições da Suprema Corte. “A corrupção
não quer apenas a impunidade, ela quer se vingar daqueles que tentaram
puni-la”, afirma. Eis a entrevista.
O STF e o TSE têm respondido à altura aos ataques feitos pelo presidente Jair Bolsonaro?
As
reações me pareceram imaculadas. O discurso do presidente do Supremo,
Luiz Fux, na abertura daquela sessão imediatamente posterior aos
desaforos proferidos do presidente da República, foi perfeito. Tão
perfeito quanto e mais completo na sua didática foi o que disse o
presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, que também repudiou a fala do
presidente da República. O problema é que é muito difícil convencer quem
se obstina em não ser convencido pelo bom motivo de que realmente não
acredita naquilo que está dizendo. Eu não creio que Jair Bolsonaro
desconfie realmente da segurança do processo eleitoral. Esse é um
discurso marcado pela má-fé, pela malícia. E esse parece ser um
instituto de sobrevivência dele. Provavelmente, as premonições do
presidente do que vai acontecer com ele nas urnas nas eleições de 2022
não são muito otimistas e, por conta disso, ele quer armar um palanque
de desafio ao sistema eleitoral brasileiro, que é um dos mais seguros e
aplaudidos do planeta. Ninguém que saiba das coisas ignora esse fato.
Por isso que se desenha em mim essa interrogação: essas pessoas que
bradavam pelo voto impresso e auditável nas ruas no Sete de Setembro e
desconjuravam a urna eletrônica são realmente estúpidas ou elas
compartilham a má-fé do presidente da República? É a única dúvida que eu
tenho.
Muitas
pessoas que foram aos atos em apoio ao presidente Bolsonaro falavam em
defesa da “liberdade” e contra a “ditadura do Supremo”. De alguma forma,
as decisões do Supremo alimentaram esse discurso e insuflaram essas
manifestações bolsonaristas?
O
Supremo não se tornou vulnerável por culpa exclusivamente alheia. Isso
seguramente tem a ver com a falta de unanimidade na tomada de decisões.
Quando me perguntaram há dois anos sobre a abertura daquele inquérito
relativo às fake news, chamado por alguns de inquérito do fim do mundo,
eu disse que foi uma ideia infeliz e que estava seguro de que seus
autores, o presidente do Supremo à época (Dias Toffoli) e o ministro
relator (Alexandre de Moraes), estavam convencidos disso. Mas é muito
difícil voltar atrás em certos cenários e níveis de autoridade. E é
difícil para o colegiado desautorizar seus dois integrantes, embora não
tenha sido uma decisão unânime. O decano Marco Aurélio Mello se opôs
firmemente à abertura desse inquérito nos termos que ele foi instaurado.
E esse é o discurso de uma ala até moderada, sensata, dos partidários
do presidente da República. O general Mourão se referiu a isso. Ele acha
que esse inquérito, sem a iniciativa do Ministério Público, não poderia
ter sido aberto. À luz do que se vê no regimento interno do Supremo,
ele (o inquérito) é defensável, mas não é a melhor das ideias.
Resumindo, não foi uma decisão feliz e ela tem sido a causa das maiores
provocações, dos maiores desafios que se fazem hoje ao Supremo, dentro
da racionalidade. Já a questão da urna eletrônica é totalmente
irracional.
A seu ver, quais instrumentos podem ser utilizados para conter os arroubos autoritários do presidente Bolsonaro?
Acredito
que nem a procuradora-geral da República da época (Raquel Dodge) nem o
atual (Augusto Aras) jamais teriam se recusado a abrir o inquérito,
jamais teriam sido insensíveis se o Supremo comunicasse o que estava
acontecendo, se dissesse o sentimento da corte em relação à gravidade da
propagação de fake news, para, assim, seguir do modo mais ortodoxo
possível o figurino, e não ficasse como uma iniciativa de juízes que,
como diz hoje o observador crítico, investigam, acusam e julgam. É uma
confusão entre os três papéis, que naturalmente são da polícia, do
Ministério Público e da judicatura. O mecanismo é um só, é curial, é
aquele que a ordem jurídica prescreve, independentemente do que diz um
dispositivo avulso do regimento interno do Supremo, de modo a autorizar
isso como algo defensável. Aquilo que é defensável não é necessariamente
o melhor. Há caminhos melhores do que aquele que é simplesmente
defensável.
Depois
dos ataques ao STF no Sete de Setembro, o presidente recuou com a
divulgação de uma carta à nação. O sr. acredita em um cenário de
pacificação?
Eu
sou menos pessimista do que vários analistas que têm falado sobre a
carta. Sempre me impressionou o fato de que o presidente da República,
além de pessoas absolutamente desqualificadas que o cercam no cotidiano,
tem também pessoas qualificadas para aconselhá-lo. Acredito que essas
pessoas têm tentado aconselhá-lo desde que ele tomou posse, mas
infelizmente ele não as ouve, prefere ouvir aquilo que há de mais
desqualificado. A iniciativa dele de procurar o conselho do
ex-presidente Michel Temer, que é um jurista respeitado, um político
habilidoso, já me pareceu a mais louvável possível. A carta é bem
concebida e quero acreditar que alguma coisa muda. Não é mudança
radical. Não se transforma, da noite para o dia, Jair Bolsonaro em
Franklin Roosevelt, que também teve um histórico de oposição à Suprema
Corte americana, mas administrou isso com sabedoria exemplar. Até mesmo a
réplica de Bolsonaro aos seus apoiadores mais fanáticos, que deram um
grito de protesto à carta, me pareceu mais equilibrada do que as
manifestações anteriores dele. Acredito que o instinto de sobrevivência
fala alto. Imagino que, depois do Sete de Setembro, alguns dos
conselheiros dele devem ter lhe falado com muita franqueza: “Não se
articula um golpe de estado no Brasil de hoje. Se essa é a ideia, não
vai dar certo. Se não é a ideia, trate de se compor porque, do
contrário, o impeachment é inevitável”. Acho que a sombra do impeachment
falou alto.
O sr. acredita que o recuo diminui a possibilidade de impeachment?
Acho
que se ele provocar, pode ter que sair pelo impeachment. Mas se ele
minimamente se compuser, vai até o final de seu mandato e acredito que
tentará governar, que é o que não tem feito. Ele não foi eleito para
animar multidões na Avenida Paulista ou na Praça dos Três Poderes. Tem
faltado governo, administração da crise sanitária, da educação e da
crise econômica que acompanha tudo isso.
Há
um receio de que uma eventual derrota do presidente em 2022 provoque
tumulto semelhante ou pior do que o que ocorreu com a invasão do
Capitólio, nos Estados Unidos, após a derrota do ex-presidente Donald
Trump.
Não
vejo isso como uma possibilidade. Será uma eleição muito equilibrada.
Se crescer a terceira via e, eventualmente, Jair Bolsonaro for derrotado
já no primeiro turno, ou mesmo no segundo, creio que nada possa ser
feito fora das linhas mestras da Constituição para a manutenção do
poder. A ideia de golpe, que já hoje eu descarto por inteiro, seria mais
esdrúxula e impraticável depois dos resultados das urnas.
No
Congresso, fala-se em crime de responsabilidade e até em denunciar Jair
Bolsonaro ao tribunal internacional do qual o sr. já foi juiz, por
crime contra a Humanidade em razão dos erros na condução do combate à
pandemia. Dos crimes imputados ao presidente, quais podem realmente
levá-lo a algum tipo de punição?
É
impressionante a fluidez do texto constitucional quando fala dos crimes
de responsabilidade do presidente da República. Isso leva a uma
conclusão que parece meio cínica, mas é profundamente verdadeira e que é
ilustrada na História do Brasil pelo impeachment do ex-presidente
Fernando Collor e da ex-presidente Dilma Rousseff: crime de
responsabilidade é aquilo que o Congresso Nacional decide ser crime de
responsabilidade. Essa é a definição mais honesta, de modo que as
pessoas falam que o impeachment se impõe porque ele já incorreu nesse ou
naquele crime de responsabilidade. Isso é um discurso político de
discutível consistência jurídica, porque a linguagem da Constituição que
define os crimes de responsabilidade do presidente da República é de
uma plasticidade tal que nos autoriza essa conclusão, tão estranha, mas
tão verdadeira. Fora disso, toda busca de soluções técnicas à luz da
linha literal do direito é uma busca inglória. Não é por aí que vamos
encontrar a solução do problema.
E quais são as chances reais de ir adiante uma acusação contra Bolsonaro na Corte de Haia?
Nenhuma.
A competência do Tribunal Penal Internacional é complementar. Pressupõe
que a Justiça do país de origem do acusado não pode ou não quer exercer
sua competência primária. Assim, a aceitação da denúncia, seja qual for
sua origem, com a instauração do processo pelo tribunal internacional
significaria, mais que qualquer outra coisa, uma declaração de falência
da Justiça e, mais genericamente, das instituições do Brasil.
Como
o sr. enxerga a crise institucional que o país passou a viver a partir
dos sucessivos ataques do presidente Jair Bolsonaro contra integrantes
do Supremo?
Já
faz alguns anos que nós acompanhamos a fratura que atingiu o país, essa
divisão radical entre os extremos, que são muito atuantes, muito
loquazes. Tradicionalmente, a esquerda brasileira é particularmente
ativa, enquanto a direita poucas vezes se fez ouvir de modo tão
transparente, tão assumido, nas últimas décadas. As nossas lembranças da
direita remontam há mais de meio século, no surgimento do integralismo,
à sombra das ditaduras fascistas da Europa na época. Hoje, a
extrema-direita se assumiu como tal, ocupou seu espaço e revelou-se tão
loquaz, tão agressiva e capaz de usar e abusar de métodos mais
virulentos até do que aqueles que a extrema-esquerda vinha utilizando.
Essa fratura do país é marcada pelo confronto entre as duas
extremidades, cada uma com, no máximo, 20% de apoio da sociedade
brasileira. O que se pergunta é: onde estão os 60% que parecem não estar
dispostos a conviver com isso? Por que essa expressiva maioria do
eleitorado brasileiro não foi às ruas no último dia 12 de setembro?
Por quê?
Porque
os sentimentos nessa expressiva maioria são menos exacerbados do que
nos extremos. Além disso, os representantes políticos desse grupo,
possíveis presidenciáveis, estão em uma fase de concorrência, de forma
respeitosa, como Ciro Gomes e o governador João Doria. É difícil
vislumbrar por agora o desfecho da definição de um rosto representativo
da terceira via. É curioso que os institutos de pesquisa não perguntam
quem se situa em uma posição de rejeição simultânea a Lula e a
Bolsonaro. Acredito que, se essa pergunta fosse feita, aqueles que
rejeitam seriam maioria entre os entrevistados. O 12 de setembro era um
dia sem bandeira e um dia sem bandeira dificilmente reúne multidões em
qualquer praça ou avenida.
A bandeira levantada, segundo os organizadores, foi a da defesa da democracia.
Esse
é o ponto. Todos se definem como defensores da democracia. Mesmo a
esquerda radical hoje não pode ser identificada como adversária da
democracia. Só a extrema-direita assumiu essa bandeira. A ojeriza pelos
valores democráticos só foi revelada até agora pela extrema-direita. De
qualquer maneira, a esquerda não quis aderir. O lulopetismo tradicional,
que para mim é mais fisiológico do que ideológico, e também a esquerda
radical, não se sentiram à vontade para ir às ruas no último domingo,
visto que, entre outros alvos da manifestação, estava o repúdio ao
binômio Bolsonaro-Lula. E a ausência daqueles que realmente repudiam o
binômio se explica pelo fato de que não é todo mundo que se anima a ir à
rua em defesa dessa abstração que é a democracia.
Quem pode ser esse candidato?
É
difícil imaginar o que seria essa terceira via. Eu penso, por exemplo,
em Sergio Moro, uma das figuras mais notáveis do Brasil contemporâneo. O
governo Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal e a própria força do
destino impuseram o exílio político a que ele está hoje submetido. Se
fosse ele a terceira via, como é da preferência de tantos brasileiros, a
esquerda não aceitaria jamais, por causa do que foi a Lava Jato. A
corrupção não quer apenas a impunidade, ela quer se vingar daqueles que
tentaram puni-la. É esse o quadro, a patologia mais sórdida que
enfrentamos neste momento. Dessa parte do eleitorado brasileiro que
crucificou a Operação Lava Jato, que humilhou seus juízes e
procuradores, nós nunca teríamos simpatia e muito menos apoio à
candidatura de alguém como Sergio Moro. Dos outros representantes da
terceira via, Ciro Gomes, por exemplo, embora não seja um súdito de
Lula, é muito identificado com uma esquerda mais radical até do que o
próprio lulopetismo. São inúmeras as forças de direita ou até mesmo de
centro que não aceitariam Ciro Gomes como terceira via. Ouço, às vezes,
pessoas dizendo que o governador de São Paulo, João Doria, outro
possível candidato da terceira via, nunca pareceu ser um mau
administrador e não tem outros defeitos que o inscrevam em nenhum
capítulo do Código Penal, mas que não simpatizam com o estilo dele. O
problema não está nas antinomias graves, mas na falta de sintonia. Tem
quem não simpatize com o governador do Rio Grande do Sul (Eduardo Leite)
por sua opção pessoal (ele se declarou gay), que não deveria interferir
numa República como a nossa. Além das rejeições fundadas em algo
inabalável, como a rejeição da esquerda a Sergio Moro, ou da direita a
Ciro Gomes, existem rejeições supérfluas, cosméticas.
O sr. acredita em uma unidade no centro, uma candidatura única da terceira via na eleição presidencial de 2022?
Acredito
numa unidade suficiente para levar esse rosto da terceira via ao
segundo turno. Se ela for para o segundo turno, seja contra Bolsonaro,
seja contra Lula, ela vencerá, sem nenhuma dificuldade.
O
sr. disse que os corruptos no Brasil não querem apenas a impunidade,
mas a vingança daqueles que tentaram puni-los. Boa parte das decisões
que beneficiaram denunciados e condenados por corrupção veio do Supremo.
Qual o papel da corte nessa vingança?
Eu
acho que aquela decisão da Segunda Turma que fez implodir a Operação
Lava Jato foi uma das mais infelizes da história do tribunal.
O sr. se refere à decisão sobre a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro nos processos do ex-presidente Lula?
Exato.
O tribunal parece não ter avaliado as consequências daquilo que estava
fazendo. Há quase dois anos, eu ponderei que, se em qualquer uma das
grandes democracias do mundo, nós invadirmos criminosamente a
correspondência privada entre juízes e procuradores, entre juízes e
advogados, entre psicólogos e clientes, entre cônjuges, enfim, em
qualquer status da sociedade, e levarmos isso ao público, não há limites
para o tamanho do estrago que isso poderia causar. É exatamente por
isso que em todas as grandes democracias o papel do hacker, do criminoso
que invade a correspondência privada alheia, é reprovável e é punido
por lei. Parece que só aqui, entre nós, resolveu-se fazer do criminoso
que é hacker um herói nacional, porque em determinado momento ele
atendia às conveniências de certa parte da sociedade política
brasileira, porque em determinado momento o produto do hacker servia
para tentar destruir um processo penal que foi levado a termo com a mais
absoluta correição e com a bênção dos tribunais regionais e tribunais
superiores, entre eles o Supremo Tribunal Federal. Essa decisão da
Segunda Turma acabou por desautorizar decisões de turmas e do plenário
dentro do próprio contexto da Lava Jato.
Antes dessa, houve outras decisões contra a Lava Jato e os órgãos de investigação.
Sim.
Esse não foi o único dos erros acontecidos dentro do Supremo nos
últimos anos, mas foi o mais deplorável, porque ali Sergio Moro foi
julgado e condenado sem defesa, por maioria apertadíssima. Aliás, todos
os erros que o Supremo cometeu ao longo da sua história foram em
decisões tomadas por 6 a 5 ou, dentro das turmas, por 3 a 2. Felizmente,
o Supremo quando corrige mais tarde seus próprios erros o faz quase
sempre por unanimidade. E depois dessa calamidade que foi a decisão da
Segunda Turma, parece que a própria turma estava empenhada em que o
plenário não pudesse rever aquilo. Como é que se pode tomar uma decisão
tão grave como aquela, em que se condenou um magistrado à execração
pública, não só à nulidade do que ele fez, sem direito de defesa, com a
voz de apenas três pessoas na turma?
Quando e por que o Supremo deu essa guinada contra a Lava Jato?
Antes
dessa decisão da Segunda Turma (refere-se à decisão que declarou Moro
parcial), nada me pareceu caracterizar um ponto de inflexão. Aquele,
sim, foi o ponto de inflexão. Antes não era nada pessoal. Passou a ser
naquele momento. Foi com essa decisão dos habeas corpus de Lula da Silva
que as águas se dividiram, que começou a destruição da Operação Lava
Jato. Me pareceu de uma transparência solar naquela sessão um
ressentimento profundo contra o juiz Moro, contra o procurador (Deltan)
Dallagnol. Esses dois personagens foram execrados sem direito de defesa
em sessão onde a Segunda Turma julgava um habeas corpus em favor de
Lula. Ou seja, não estava em julgamento o juiz ou o procurador da
República, mas quem foi julgado ali foram o juiz Sergio Moro e o
procurador Dallagnol. Por isso que eu digo: antes não era nada pessoal,
depois desse dia a coisa foi desenganadamente personalizada. E eles não
esconderam isso.
Embora
até hoje o Supremo não tenha decidido sobre a validade das mensagens
hackeadas como prova, os ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski
as utilizaram no julgamento da parcialidade de Moro como “reforço
argumentativo”. Qual sua opinião sobre isso?
Independentemente
daquilo que a lei abona e daquilo que ela proíbe na dinâmica das
provas, acho que não é eticamente indefensável você admitir a prova
hackeada em favor de um réu em processo penal. A prova é ilícita, mas
demonstra que fulano de tal, acusado de determinado crime, é inocente.
Não foi nada disso que aconteceu nesse caso. A prova hackeada não dizia
nada sobre culpa ou inocência de Lula. A prova hackeada dizia que houve
apenas uma comunicação entre juiz e procurador que, para a maioria dos
membros da Segunda Turma, pareceu uma maneira incorreta de proceder. Ou
seja, a prova hackeada não foi utilizada para defender nenhum réu, foi
usada para fazer do juiz e do procurador réus, que ali se julgavam e
condenavam sem defesa. Isso me parece impalatável dentro do Estado de
Direito. Insisto: nada que o hacker jogou na mesa do Supremo demonstrava
a inocência de nenhum réu, Lula ou qualquer outro, apenas demonstrava
que houve comunicações entre juiz e procurador que a turma decidiu
considerar obscenas. E por conta disso salvam a cara do réu e
transformam em réus o juiz e o procurador, que são imediatamente
condenados.
Essa
concentração de decisões importantes nas turmas ou até mesmo em um
único ministro, por meio de liminar, tem sido bastante criticada por
juristas e até por quem integrava a corte até havia pouco, como o
ex-ministro Marco Aurélio Mello. Esse fenômeno se agravou nos últimos
anos?
O
Supremo sempre foi um arquipélago, isso já dizíamos quando entrei no
tribunal. As pessoas são diferentes na sua própria formação, na visão de
mundo, na metodologia de trabalho. Alguns dizem em 600 páginas o que
outros dizem em seis páginas. Mas o que hoje me impressiona é que seja
um arquipélago de onze monocracias por causa das decisões monocráticas
que são tomadas e que nós outrora chamávamos de decisões singulares, que
os ministros tomavam em coisas de menor importância. Hoje, decisões da
maior gravidade são tomadas monocraticamente. E não é fácil o colegiado
desautorizar a decisão monocrática de um dos seus membros. Esse é um
problema sério. O Supremo seria muito menos vulnerável às críticas que
hoje sofre se ele atuasse mais como um colegiado minimamente uniforme.
Na corte internacional de Haia, que eu integrei por nove anos, nós
éramos 15 criaturas de origens tão diferentes, de cultura jurídica tão
diferentes, e todos os casos mais dramáticos, como o do muro da
Palestina, o da pena de morte nos Estados Unidos, os conflitos de
fronteira, foram decididos por unanimidade ou quase unanimidade. Isso
dava às decisões da corte de Haia uma fortaleza. Era difícil ao estado
soberano que ficava vencido repudiar essa decisão.
Por que o sr. não acredita na possibilidade de cassação da chapa Bolsonaro-Mourão no TSE?
Isso
também foi cogitado no caso da ex-presidente Dilma Rousseff. A Justiça
Eleitoral empanaria sua própria segurança jurídica dando guarida a um
processo como esse, porque ela estaria dizendo que, se essa eleição deve
ser anulada com a destituição da chapa eleita, é porque ela própria,
Justiça Eleitoral, não funcionou. Isso não existe. Esse caminho não será
tomado agora de maneira nenhuma.
BLOG ORLANDO TAMBOSI



Nenhum comentário:
Postar um comentário