Resta decidir o voto. É muito difícil, já que cada partido concorre a pastorear os desamparados eleitores. Mas não é muito difícil, já que cada partido, salvo o PS, acaba por ser uma imitação do PS. Alberto Gonçalves para o Observador:
Votar
nas “autárquicas”? Claro que sim. Mas é muito difícil, seja em que
autarquia for. No meu caso, basta-me sair à rua para deparar, no
canteiro em frente, com meia dúzia de cartazes, nos quais personalidades
de aspecto impecável me acenam com mensagens convincentes. Uns prometem
mudança (gosto), outros continuidade (gosto). Todos garantem prodígios
(gosto). Uma senhora quer que continuemos a “trabalhar juntos”, equívoco
devido à natural excitação da campanha: não conheço a senhora de parte
alguma e não me recordo de receber salário. Ainda assim, votaria nela
pelo entusiasmo. O problema é que o sugestivo apelo dos restantes
candidatos também não me é indiferente. As dúvidas corroem-me.
Porque
conduzo bastante no nosso encantador país, sei que esta hesitação é
partilhada pela vasta maioria dos meus compatriotas, que nos respectivos
lugarejos se descobrem aturdidos com tantas e tão refinadas
alternativas. Só um morto resistiria a estadistas que, na câmara ou na
junta, repletos de uma saudável mescla de “experiência” e “juventude”,
juram “fazer melhor”, possuir “visões estratégicas”, enfrentar os
“desafios do futuro”, “reafirmar valores” ou “unir” o lugarejo e levá-lo
“para a frente”. Para cúmulo, é raro o estadista que não “aposta” na
“mobilidade”, na “coesão territorial”, na “consciência ambiental” e,
evidentemente, na “acessibilidade habitacional”. Pessoas sofisticadas
não tropeçam nas palavras.
Antes
que me acusem de superficialidade, adianto que não me fio
exclusivamente nos cartazes e nos chavões de propaganda, já de si
espectaculares. Por infortúnio, não consegui testemunhar arruadas,
eventos de enorme pertinência, afectuoso convívio e; às vezes, bombos.
Porém, para aprofundar conhecimentos, espreitei três ou quatro debates
televisivos, por acaso sobre municípios a que nunca fui. Achei os
debates elevadíssimos. Invariavelmente, os candidatos são gente de
nível, instruída, bem vestida, alimentada a altruísmo e vontade de
promover o bem-comum. Poucos exibiam palito na boca. Notei uma aflição
generalizada com a desertificação: pelos vistos, o povo tende a
abandonar os sítios, que fatalmente encolhem. O mistério é não haver
sítios que aumentem. O que acontece aos munícipes desaparecidos? O que
fomenta tamanha ingratidão? Que altura deverão ter os muros de betão
para estancar o êxodo? Lamento reparar que as perguntas ficaram sem
resposta. Fora isto, os debates roçaram a excelência.
“Excelência”
é, além do modo de tratamento que nos merecem os autarcas, o
substantivo que qualifica na perfeição o municipalismo. Se o poder
central é o cérebro que nos orienta no caminho da Razão, o poder local é
o coração que nos acarinha e embala rumo ao Bem. Não são precisos
grandes argumentos a seu favor. Na verdade, não é preciso argumento
nenhum. Basta lembrar que sem poder local não haveria rotundas, arte
pública em cima das rotundas e as imprescindíveis ciclovias – ai, as
ciclovias – ao redor das rotundas. Nem haveria forrobodós musicais, com
aqueles artistas que veneramos e que na nossa ignorância não pagaríamos
directamente para ouvir (pagar indirectamente é mais agradável).
E
quem diz música diz exposições bem bonitas, “certames patentes” em
“multiusos” modernos, museus do papel, do lápis e do algeroz e, não
esquecer, “centros interpretativos” (“centro interpretativo” é o que
sucede sempre que se constrói um museu e não existem objectos originais
para enfiar lá dentro, lacuna que se preenche facilmente com paredes
brancas, cópias de fotografias, e – não abusem – “quadros
interactivos”). E bairros “sociais”, para estimular o turismo de
aventura. E “wi-fi” comunitário, que quase funciona. E dezassete
baldinhos de cores e formatos diferentes para separar o lixo. E buracos
no chão que talvez profetizem obras, esse emblema maior do progresso.
O
sucesso do poder local está à vista. E depois há os sucessos que não se
vêem. Sem as autarquias, de que maneira se consolaria o apetite das
clientelas, perdão, das elites paroquiais? Sem as autarquias, onde se
empregariam dezenas de milhares de talentos superiores? Sem as
autarquias, em que porcarias desperdiçaríamos o dinheiro investido nos
impostos, nas taxas e nas licenças que sustentam as autarquias?
As
autarquias apanham as migalhas caídas da mesa “centralizada” e
completam o serviço prestado pelo governo e devidas metástases. Não
fossem elas, sobraria um bocadinho de espaço para o português respirar,
sentir-se autónomo e, subitamente atarantado, desatar às cabeçadas
contra um poste. Graças às autarquias, não sobra espaço. Graças a Deus, e
independentemente das ideologias, a conversa das “autárquicas” não se
desvia do que a câmara fez ou fará, do que devia ter feito e do que
deverá fazer, das “ajudas”, dos “apoios”, dos “projectos” e dos
“protocolos”.
Em
Portugal, há imensa vida para lá do défice. Não há vida é para cá do
Estado, que incansável vela e zela por nós, eleitores. O poder aprecia.
Os eleitores apreciam. Tudo está bem. Resta decidir o voto. É muito
difícil, já que, do alto das respectivas aptidões, cada partido concorre
a pastorear os desamparados eleitores. Mas não é muito difícil, já que
cada partido, salvo o PS, acaba por ser uma imitação do PS, a força que
reúne e aperfeiçoa todas as maravilhas descritas neste humilde texto. Se
a ideia é tomar o cidadão por um palerma inimputável, ninguém o toma
como o PS. E o cidadão agradece.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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