Ao mandar interromper a vacinação dos adolescentes, Marcelo Queiroga deixou claro que a única diferença entre ele e Eduardo Pazuello é um diploma de Medicina. Editorial do Estadão:
O
ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mostrou que está disposto a tudo
para se manter no cargo, inclusive renegar o juramento de Hipócrates e
se ajoelhar diante do altar da seita bolsonarista. Ao mandar interromper
a vacinação dos adolescentes de 12 a 17 anos contra a covid-19 sem
qualquer razão científica que justificasse a medida, Queiroga deixou
claro ao País que a única diferença entre ele e seu antecessor, Eduardo
Pazuello, é um diploma de Medicina. A subserviência aos desígnios mais
irresponsáveis do presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Saúde de
facto, é rigorosamente a mesma do intendente.
Na
tarde de quinta-feira passada, Queiroga pegou o País de surpresa ao
anunciar a interrupção da bem-sucedida vacinação dos jovens sem
comorbidades. Causou espanto, sobretudo, na comunidade médica, no
Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e no
Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), além da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que aprovou, sem restrições, a
aplicação da vacina da Pfizer em adolescentes. Logo após o anúncio do
ministro, a Anvisa houve por bem reiterar a segurança do imunizante para
esse público, o que a um só tempo serviu para acalmar pais aflitos e
revelar quão anticientífica foi a decisão do Ministério da Saúde.
A
fim de justificar a medida disparatada, Queiroga alegou que 1,4 mil
adolescentes de 12 a 17 anos receberam imunizantes que não foram
aprovados pela Anvisa para essa faixa etária. O número representa apenas
0,04% do total de adolescentes já vacinados no País (3,5 milhões). Se,
de fato, isso ocorreu, o problema deve ser corrigido, sem interromper a
vacinação de todos os jovens. O secretário de Vigilância em Saúde,
Arnaldo Medeiros, informou que houve 114 “eventos adversos” entre os
adolescentes vacinados. Além de se tratar de um número ínfimo, “evento
adverso” pode ser qualquer ocorrência indesejada após a vacinação, como
febre ou dor de cabeça, nada necessariamente grave que justifique a
interrupção da aplicação da vacina. O secretário fez menção à morte de
uma adolescente de 16 anos, mas, até o momento, não foi comprovado o
nexo causal entre a vacinação e a morte da jovem. Há apenas um liame
temporal.
O
ministro da Saúde também mentiu ao alegar que a Organização Mundial da
Saúde (OMS) seria contra a vacinação de adolescentes sem comorbidades. O
que a OMS diz é que crianças e adolescentes tendem a apresentar quadros
mais brandos de covid-19, o que recomenda que a imunização desse grupo
deve ser feita somente após a dos mais vulneráveis. A vacinação dos
adultos no Brasil avançou a tal ponto que já é possível imunizar os mais
jovens.
A
rigor, o que pesou para o Ministério da Saúde interromper a vacinação
dos adolescentes foi uma ordem direta de Bolsonaro, que, por sua vez,
foi tomada após pressão dos bolsonaristas nas redes sociais, que o
presidente chama de “o que chega ao meu conhecimento”. Durante sua live
semanal, Bolsonaro afirmou que sua conversa com Queiroga “não é uma
imposição”. “Eu levo para ele o meu sentimento, o que eu leio, o que eu
vejo, o que chega ao meu conhecimento”, disse. Como bússola para a
definição de políticas públicas, o “sentimento” de Bolsonaro, o
curandeiro da República, tem levado o Brasil à ruína sanitária,
política, econômica e moral.
Arrefecida
momentaneamente sua guerra particular contra o Supremo Tribunal
Federal, Bolsonaro torna a sabotar a vacinação, como se o presidente não
tivesse problemas muito mais sérios para resolver. É tática: criar uma
crise por dia para desviar a atenção de sua gritante incompetência. Mas
os brasileiros já se deram conta dos ardis de um presidente
irresponsável e ergofóbico e vêm deixando de dar trela para seus
desatinos no combate à pandemia.
Felizmente,
o negacionismo antivacina não vingou entre a esmagadora maioria da
população. Os brasileiros aderiram a todas as campanhas de imunização.
Contra a covid-19 não seria diferente. Muitos governadores e prefeitos
já anunciaram que não cumprirão a determinação do Ministério da Saúde e
seguirão com seus planejamentos para vacinar os adolescentes. Os pais
responsáveis devem levar seus filhos aos postos de vacinação quando for a
hora.
O
governo quer confusão, mas a sociedade busca soluções. E é justamente
da responsabilidade dos cidadãos que virá o fim desse pesadelo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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