Em matéria de Covid as “autoridades” falharam vergonhosamente, na saúde, na economia, na justiça, na protecção dos velhos e doentes, no respeito que devem aos incautos cujos impostos os sustentam. A crônica semanal de Alberto Gonçalves para o Observador:
Estava
na fila do supermercado quando notei que, à minha frente, um sujeito me
olhava com particular atenção. Coloquei várias hipóteses. Era um
admirador destas crónicas. Era um alvo destas crónicas. Era um amigo.
Era um inimigo. Era uma tentativa de engate. De repente, ocorreu-me que o
pormenor de ambos termos uma máscara a ocultar metade da tromba tornava
as quatro primeiras hipóteses improváveis, e que a circunstância de eu
ter companhia feminina tornava a quinta hipótese um bocadinho patética.
Enfim, o sujeito falou: “Vocês não estão a cumprir a distância de
segurança obrigatória”. Cito literalmente. Ele disse: “Vocês não estão a
cumprir a distância de segurança obrigatória”.
Por
um instante, seguro de que ninguém diria tamanha palermice, achei que
se tratava mesmo de um conhecido, que me reconhecera apesar da máscara e
decidira meter-se comigo. Na dúvida, e a sorrir por detrás do farrapo,
eu disse: “Diga?” E ele, acreditem se quiserem, repetiu a frase,
exactamente como da primeira vez. Só então percebi que o sujeito falava a
sério. Notem que a criaturinha, a rondar os 30 anos, dispunha de espaço
suficiente para dar um passo e garantir a mítica “distância de
segurança obrigatória”. Em lugar disso, preferiu não sair do sítio,
voltar-se para trás e, sob a máscara que protege do vírus mas não
protege dos abismos da estupidez, ensaiar aquela exibição de zelo.
A
pessoa que me acompanhava interrompeu-o secamente: “Pedimos desculpa”, e
puxou-me para os domínios da “segurança obrigatória”. Eu, confesso sem
orgulho, fiquei com vontade de demolir a segurança do sujeito com um
bastão de basebol. Em alternativa, elevei a voz e acrescentei:
“Desculpa, não: perdão. Mil perdões.” Entretanto, decerto satisfeito
pela oportunidade de educar o semelhante, o sujeito já estava de costas.
Durante dois ou três minutos, até pagar as vitualhas e sair dali,
ouviu-me dizer o que penso sobre os infelizes que engolem as patranhas
que o governo e os telejornais lhes enfiam pela goela abaixo. Não voltou
a falar ou a olhar-me. No final, senti-me relativamente aliviado.
Sobretudo, sentia-me surpreendido. Em parte, por confirmar que a idiotia
dos outros não termina onde começa a nossa dignidade. E também por
experimentar enfim o tipo de intolerância que, desde o início desta
histeria colectiva, não testemunhara directamente.
Ao
longo destes 14 meses, fui um privilegiado que apenas aturou à
distância os maluquinhos da pandemia. Excepto por via da internet, nunca
ninguém me maçou por não usar máscara na rua, não despejar gosma nas
mãos à entrada das lojas, não conceder ao vírus a importância
cabalística que o vírus claramente não possui. A certa altura, quase me
convenci de que os famosos “covideiros” existiam unicamente nas “redes
sociais” e nas “reportagens” televisivas, ou seja, que não existiam no
mundo dos adultos. O mérito do sujeito do supermercado consistiu em
provar-me que os “covideiros” são reais e andam à solta. É uma sensação
extraordinária. E assustadora.
O
episódio passou-se há dias, numa altura em que, ao contrário do que
previam os “especialistas”, o “desconfinamento” gradual coincidiu com
uma descida gradual dos infectados, dos internamentos e dos mortos por
Covid. Exactamente o que sucedeu há um ano. E se Maio de 2020 não
chegou, Abril de 2020 deveria chegar e sobrar para implodir o mito de
que o vírus depende de pessoas livres para se propagar e precisa da
clausura de lacaios para se combater. Não chegou nem sobrou. As
“autoridades” continuam a decidir, e a ameaçar, e a proibir, e a multar
fundamentadas nesse mito. Esta semana, as intervenções de Costa &
Marcelo voltaram a ser duas violentas ofensas à inteligência alheia: os
portugueses que se portaram bem merecem, por enquanto, um pedacito de
liberdade; aos restantes, o castigo. Talvez por gozo íntimo, o prof.
Marcelo repetiu a ladainha das “próximas semanas”, essenciais para
“ganhar o Verão” ou lá o que é. Não há muitos romances distópicos com
personagens tão arrogantes.
A
explicação benigna, ou menos maligna, é que em matéria de Covid as
“autoridades” falharam vergonhosamente, na saúde, na economia, na
justiça, na protecção dos velhos e doentes, no respeito que devem aos
incautos cujos impostos os sustentam. E, em larga medida, falharam
porque sempre responderam ao problema com primitiva brutalidade, e a
lamentável convicção de que a responsabilidade deles desaparece em
relação directa à detenção da população: nós enfiamo-nos em casa e eles,
invariavelmente em passeio, lavam as mãos, ou fingem encharcá-las em
álcool-gel. É a natureza dessa gente, que não se distingue pelo
currículo democrático. O que distingue os prepotentes é o seguinte: não
admitem o erro – se é que, no contexto vigente, é erro e não projecto.
Já
o que distingue a maioria das vítimas da prepotência é a submissão. Uma
coisa é políticos pouco éticos ignorarem a evidência e, perante a falta
de nexo entre a frequência de esplanadas e a evolução dos contágios,
teimarem em lidar com a Covid à conta de prisões domiciliárias. Coisa
diferente é a quantidade de cidadãos que, após tantas fraudes, se mantêm
obedientes e entrincheirados nessa guerra à realidade. Hoje sei que o
sujeito do supermercado é um mero exemplo da loucura que por aí vai:
ainda há imensos sujeitos do supermercado, e fora dele. O que não sei é
se enlouqueceram com medo da Covid ou se se fazem de malucos por amor ao
poder que a Covid lhes dá. Em qualquer dos casos, o sítio é mal
frequentado. Apetece ficar em casa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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