As grandes escolas filosóficas do período helenístico foram as primeiras que se propuseram a desvendar o sentido da vida e a receita da felicidade. Séculos depois, perguntamos a vários filósofos que lições tirar de cada uma e como aplicá-las em meio a uma pandemia. Miquel Echarri para El País:
“A
filosofia é uma escola de vida.” Esta frase, tão simples e certeira, do
filósofo, ensaísta e professor Eduardo Infante, pode não ser intuitiva
para todos. Muitos associam a filosofia que estudaram no colégio a
frases enigmáticas de aplicação prática muito duvidosa, como “o ser é”,
de Parmênides, e “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, de
Heráclito. Nestes tempos de incerteza,
podemos recorrer à ciência, mas ela não resolve a mais fundamental das
questões: em que consiste uma vida digna e como deve ser vivida?
A
questão é ainda mais premente em contextos de excepcionalidade e de
crise como o que nos coube viver no último ano. Para Infante, “continua a
ser o dilema crucial, aquele que resume todos, porque, em essência,
somos criaturas mortais e racionais cuja preocupação principal é dar
sentido à nossa experiência efémera”. O filósofo e político basco
Eduardo Maura esclarece, no entanto, que a função da filosofia
não é necessariamente dar sentido e consolo: “Não tenho muita fé em um
suposto valor terapêutico da filosofia se por isto se entende um alívio
ou benefício individual”. Mas ele acredita em seu enorme potencial como
terapia coletiva: “A pergunta filosófica clássica que sinto com mais
força é: como fazemos para viver juntos? É uma pergunta que tem mais a
ver com o espaço público e a organização coletiva e, mais
especificamente, com o desfrute da companhia dos outros, com fazer
coisas em comum e experimentar em comum”.
Por
intermédio de vários pensadores, repassamos as vacinas contra a
melancolia e os antídotos contra a desolação que teriam prescrito as
grandes escolas filosóficas do período helenístico (séculos IV e I a.C.)
, as primeiras que se propuseram a desvendar não tanto a essência do
cosmos como o sentido da vida e a receita da felicidade. Para Eduardo
Infante, que lançou recentemente o ensaio filosófico No me tapes el sol. Como ser un cínico de los buenos
(Editora Ariel), “aquele período histórico é bastante parecido com o
nosso. Eu diria que vivemos em uma era de helenismo líquido, em um mundo
muito complexo, sofisticado e globalizado que enfrenta grandes ameaças.
E, como naquela época, vivenciamos uma crescente demanda por reflexão e
pensamento crítico que nos ajude a administrar melhor a complexidade, a
insatisfação e a incerteza”.
As
respostas que as principais escolas helenísticas podem nos oferecer
(estoicismo, epicurismo, hedonismo, cinismo e ceticismo) são
“pertinentes e úteis”, segundo o ensaísta e professor de filosofia
Víctor Gómez Pin, “desde que não percamos de vista a enorme distância
cultural que nos separa daquela época e não mergulhemos na banalização”.
Para Gómez, “é muito surpreendente que hoje, por exemplo, nossos
modernos negacionistas da pandemia
sejam associados a hedonistas e céticos, porque damos a essas palavras
um significado trivial e cotidiano que nada tem a ver com o que foram na
realidade essas escolas filosóficas. Os negacionistas de hoje seriam,
de todo modo, covardes que negam a realidade porque não estão dispostos a
aceitá-la e agir de modo responsável e consequente. Bem ao contrário
dos hedonistas e céticos originais, que sempre se empenharam em olhar a
verdade de frente”.
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| Zenão de Cítio, ídolo dos estoicos. |
Os
primeiros a sofrer esse processo de banalização míope de que fala Gómez
Pin são os estoicos. Por esse nome eram conhecidos na Grécia do período
helenístico os seguidores de Zenão de Cítio, uma seita filosófica que
se reunia sob um pórtico de Atenas, a stoá. Hoje teriam que nos dizer
que o sofrimento, por mais intenso que seja, é uma ilusão. E que o
segredo da felicidade consiste em levar uma vida virtuosa, de acordo com
as leis eternas da natureza.
Seus
discípulos atuais, os estoicos de hoje, seriam gente sofrida e digna de
confiança, capaz de atravessar a montanha da dor sem derramar uma
lágrima. E, de acordo com outras interpretações, os membros da chamada
Stasi da vizinhança, porque alguns dos estoicos eram moralistas muito
propensos a se meter na vida alheia.
Infante
considera, apesar de tudo, “que não se deve confundir os estoicos com a
visão que os primeiros hierarcas do cristianismo, os chamados
apologistas”, difundiram deles. Essa imagem de sofredores eternos que
concebem o mundo como um vale de lágrimas tem mais a ver com o
“estoicismo cristianizado, já que os primeiros estoicos não eram, de
modo algum, masoquistas que buscavam a redenção por meio da dor”. Ao
contrário, “esforçaram-se por evitá-la, racionalizando-a,
relativizando-a e distanciando-se dela”.
Em tempos de pandemia,
um estoico nos ensinaria “que nem nas piores circunstâncias devemos
perder de vista que o que dá sentido à vida é tentar vivê-la com
dignidade, de acordo com os nossos princípios, exigindo de nós mesmos
todos os dias que sejamos a nossa melhor versão possível”.
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Aristipo, discípulo de Sócrates e pais dos hedonistas |
A alegria hedonista: não é fazer festa, mas saber transformar qualquer momento ruim em prazer.
Os
hedonistas originais eram os seguidores da chamada escola cirenaica, a
começar por Aristipo, o discípulo de Sócrates que, segundo as más
línguas, enriqueceu vendendo sua doutrina a quem pagasse mais. Para esta
escola de pensamento, o sentido da vida é acumular prazeres, tanto
físicos como intelectuais. Não existe outra felicidade ao alcance do ser
humano.
Hoje,
um tanto levianamente, são chamadas de hedonistas celebridades
inescrupulosas como Zayra Gutiérrez, Rita Ora ou o príncipe Joachim da
Bélgica, que não deixam passar uma festa nem em pleno confinamento,
mesmo que com isso tenham que pagar multas e condenações televisivas.
Mas talvez convenha lembrar que Aristipo, o grande profeta dos prazeres
sem culpa, dizia que mais vale um mendigo do que um pobre ignorante.
Eduardo
Infante acrescenta que “associar o hedonismo original a valores
contemporâneos como o individualismo materialista, consumista e sem
senso de solidariedade é um tremendo equívoco”. Os cirenaicos entendiam o
prazer “como o bem-estar físico, moral e emocional, não como a
satisfação ingênua e imediata de impulsos e desejos, algo que, levado ao
extremo, só pode conduzir a uma vida vazia”. Talvez a lição mais
contemporânea de hedonismo seja que “pode-se manter a alegria mesmo nas piores circunstâncias:
como um bom discípulo de Sócrates, Aristipo enfatizou que seu mestre
soube ser feliz mesmo no último mês de vida, quando já tinha sido
condenado a beber um cálice de cicuta. O ser humano virtuoso sabe viver
com dignidade e alegria até mesmo no corredor da morte.
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| Epicuro: divertir-se, mas sem exagerar. |
O equilíbrio epicurista: faz sentido quebrar as regras se isto traz problemas?
Os
seguidores desta doutrina eram Epicuro e seus prosélitos, a chamada
escola do jardim. Os epicuristas pregavam um hedonismo moderado e
inteligente baseado na aritmética do gozo: há prazeres que, desfrutados
sem prudência nem comedimento, causam dor. Adicione, subtraia e decida
por si mesmo o que realmente te convém.
Hoje é tentador considerar epicurista qualquer pessoa que assuma com naturalidade que não faz sentido quebrar as regras de isolamento social (e se divertir) se
isso envolve um sério risco de adoecer ou de que seus familiares
adoeçam. Infante acrescenta que os epicuristas “eram quase tão frugais
quanto os estoicos, apesar da suposta rivalidade irreconciliável entre
as duas escolas. Epicuro deu maior ênfase à fruição de prazeres simples,
como a amizade ou a conversa, mas seu conceito de luxo material e
prazer sensorial não ia muito além de compartilhar um pedaço de queijo,
uma jarra de vinho e algumas azeitonas”. Estoicos e epicuristas
concordavam nos fundamentos: “Ambos pregavam um certo desapego e a
ênfase na autonomia do ser humano, que deveria preservar sua
independência pessoal como um tesouro e não se tornar um adorador de
falsos deuses como o dinheiro, o poder ou o desejo”.
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| Pirro de Élis, o cético. |
A dúvida cética: questionar as regras sem deixar de obedecê-las
Os
céticos eram os seguidores de Pirro de Élis, um homem que acreditava
que o conhecimento é uma questão de perspectiva e, portanto, não fazia
afirmações categóricas, apenas expressava sua opinião. Hoje, os
pirrônicos poderiam nos dizer que há algo de subjetivo em toda suposta
verdade.
Os
cientistas, em geral, são nossos céticos saudáveis, prudentes e
informados, porque sabem que a dúvida é a ferramenta mais eficaz para
obter o conhecimento verdadeiro. Hoje, chamamos os céticos radicais e
arbitrários de negacionistas, paranoicos conspiratórios ou terraplanistas,
mas Pirro não teria muito a dizer a eles. A ênfase que os distinguia de
outras escolas da época tem a ver “com a relutância em assumir de
maneira acrítica as normas da matilha”. O indivíduo tem o privilégio e a
obrigação de pensar por si mesmo e tirar as próprias conclusões,
“aceitar as ideias alheias de forma acrítica equivale a trair a própria
razão”. Mas isso não implica desconsiderar nem desobedecer às leis e
normas do comportamento coletivo quando são racionais e justas: “Os
céticos não eram relativistas morais radicais, rebeldes sem causa nem
insubmissos crônicos”.
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| Diógenes de Sinope, sempre procurando homens honestos. |
O descaramento cínico: não é se comportar como um cachorro, mas pensar como um
Cínico
por excelência era Diógenes de Sinope, o filósofo que, segundo a lenda,
vivia em um barril e caminhava pelas ruas de Atenas com uma lamparina à
procura de homens honestos de verdade. A linha desta escola era uma
síntese revolucionária do estoicismo e do ceticismo. Individualistas
radicais, eles nos teriam exortado a pensar por nós mesmos, com rigor,
mas sem preconceitos, sem medo e com liberdade.
O
cinismo tem reputação muito ruim. Hoje atribuímos essa qualidade a quem
se comporta de maneira interesseira, egoísta e mesquinha. Os cínicos de
Diógenes estavam mais para livre-pensadores, propensos a protestos
fundamentados e à desobediência civil justificada. Infante encontra a
essência do cinismo na exortação de Diógenes a viver e pensar “como um
cachorro”. Ou seja, a “retornar à essência, à natureza e, em certo
sentido, à vida selvagem”. Para o filósofo de Sinope, “o homem é uma
criatura domesticada pela conformidade com as normas da tribo. Para
recuperar a sua plena dignidade e independência deveria pensar como o
cão, que se guia pelos próprios instintos, mas agregando essa qualidade
humana que é o uso da razão”. Infante destaca também o caráter
“descarado” dessa escola: “O cínico é descarado porque pensa por si
mesmo e não renuncia à sua liberdade e integridade. Vamos comparar isso
com a quantidade de situações do cotidiano em que o sentimento de
vergonha nos leva hoje em dia a trair a nós mesmos no mundo do trabalho
ou nas redes sociais”.
Em
suma, Gómez Pin considera que em todas essas escolas é possível
encontrar lições de vida significativas. O que não está tão claro para
ele é que a função da filosofia, a do período helenístico ou de qualquer
outro, seja fornecer certezas e consolo: “Claro que se pode recorrer à
filosofia em momentos de aflição. Mas a calma ou o alívio que pode
trazer não devem ser confundidos com algum tipo de anestésico. É até
possível que ao pôr o dedo na ferida a dor se torne mais aguda, pois a
filosofia responde a uma exigência de lucidez, e a lucidez não é um
sedativo”.






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