Ao parirem a assombração orçamentária, os lídimos representantes do povo mandaram às favas a responsabilidade fiscal. Sobra para o pagador de impostos. Ubiratan Jorge Iorio para a revista Oeste:
“Os dois pilares do governo democrático são a primazia da lei e do orçamento.”
Ludwig von Mises
Nestes
tempos insólitos, nada mais parece ser capaz de nos surpreender. Somos
diariamente abastecidos com relatos de decisões estapafúrdias, atitudes
disparatadas e condutas bizarras, de intensidade e estranheza
inaceitáveis, em um ambiente de incerteza e insegurança jurídica sem
precedentes. A tarefa desgastante de buscar alguma racionalidade nesses
fatos só nos fornece uma resposta, que é a carência absoluta de limites
éticos e legais consagrados pela tradição e indispensáveis para
conformar as ações humanas em busca de poder às requeridas por uma
sociedade livre e virtuosa.
Um
dos exemplos mais recentes do manicômio em que se transformou a
política no Brasil é a polêmica entre o Legislativo e o Executivo
provocada pelo Orçamento da União para 2021 que o Congresso aprovou no
final de março. Trata-se de uma obra indecorosa, peça inacreditável de
cinismo, em que os representantes do “povo” — ou seja, dos pagadores dos
impostos que os sustentam — arreganham seus pontudos dentes não apenas
sobre o Executivo, mas para qualquer ser, ou coisa, que ouse atrapalhar
seus intentos de se locupletarem com o poder. Não importam as mortes, o
pânico, a clausura e os problemas econômicos associados à pandemia, nem o
momento gravíssimo que o país e o mundo atravessam, porque o que
realmente os motiva são intentos individuais e corporativos.
A
obra dos ilustres congressistas vem sendo chamada de peça de ficção —
como a própria Secretaria do Tesouro Nacional já classificou. O
orçamento aprovado no Parlamento é um retrocesso na incruenta e
extremamente difícil batalha do controle das contas públicas, a tal
ponto que, antes mesmo da sanção presidencial, a discussão já bateu às
portas do Tribunal de Contas da União. É algo pouco comum, porque, em
geral, o órgão só analisa orçamentos depois de publicados no Diário
Oficial.
Enfeixam
a polêmica dois elementos bem definidos e que tornam mais penoso do que
o razoável o trabalho de formular e executar o Orçamento da União. O
primeiro é o injustificável nível de despesas obrigatórias ou não
discricionárias que engessam permanentemente o Executivo, que hoje
atingem impressionantes 95% de todo o orçamento federal. São gastos que o
governo não pode suprimir, nem contingenciar ou mesmo adiar, tais como
folha salarial, Previdência, transferências para Estados e municípios e
despesas com a dívida pública. E o segundo, vigente desde 2016, é a
regra do teto de gastos, que impede o crescimento acima da inflação das
despesas totais dos três Poderes da República. A norma impõe aos
formuladores do orçamento o requisito salutar de que qualquer aumento
nas despesas obrigatórias deve ser compensado por cortes correspondentes
nas despesas discricionárias.
O
núcleo da polêmica está na estimativa de despesas obrigatórias, uma vez
que o Parlamento decidiu desviar parte desses gastos, remanejando-a
para o custeio de emendas parlamentares. Mais precisamente, a peça
aprovada no Congresso transferiu R$ 26,45 bilhões das despesas
obrigatórias para as emendas, “sem nenhuma justificativa técnica
robusta”, como afirmou o secretário do Tesouro. Desse montante, R$ 23,5
bilhões originalmente estavam vinculados a despesas com benefícios
previdenciários, abonos salariais e seguro-desemprego.
Prevalece,
entre economistas e outros observadores isentos do teatro brasiliense, a
percepção de que a preocupação principal dos parlamentares foi defender
— com o garbo e a valentia dos soldados de Leônidas, mas com as armas e
a astúcia do Chapolin Colorado — as suas emendas, que são o seu meio de
amealhar recursos subtraídos dos pagadores de impostos para projetos em
suas bases estaduais e municipais. O problema é que, ao se empenharem
nessa batalha, lançaram mão de expedientes extremamente criativos,
facilmente identificáveis como ad hoc e sem a desejável anuência do
Ministério da Economia. Há unanimidade quanto ao irrealismo da
estrovenga contábil produzida, o que significa que, para tornar
exequível a regra fiscal, a equipe econômica do governo será forçada,
rapidamente, a executar bloqueios substanciais indesejados de despesas.
O
Congresso, de olho nas eleições de 2022, prodigamente cortou R$ 26,45
bilhões em gastos da União para inflar as emendas previstas para 2021,
aumentando-as para a inacreditável soma de R$ 46 bilhões. Para
exemplificar, R$ 10,2 bilhões foram remanejados para obras do Ministério
do Desenvolvimento Regional nos Estados e R$ 8,6 bilhões para ações de
saúde pública, despesas de interesse dos futuros candidatos a deputado,
senador, governador e presidente da República, em que se incluem,
diga-se, algumas figuras do próprio governo.
Note-se
que antes da aprovação do orçamento o Ministério da Economia já havia
alertado para o fato de que, para impedir o estouro do teto de gastos,
teria de bloquear cerca de R$ 17,5 bilhões em despesas não obrigatórias.
A ser consumada a aleivosia proposta, o gasto ficará acima do teto em
um valor, para efeito de comparação, equivalente ao da totalidade dos
recursos para pagar o auxílio emergencial, aprovado por emenda
constitucional.
Ao
parirem a assombração orçamentária, os lídimos representantes do povo
mandaram a responsabilidade fiscal às favas, elaborando um orçamento
fake, abastecido por um arsenal de triste lembrança: contabilidade
“criativa”, pedalada fiscal, transferência de despesas para a iniciativa
privada e outros ardis e maquiagens para burlar o teto de gastos,
liberando irresponsavelmente recursos acima dos amparados pela lei e
pelas finanças do país, com o único objetivo de satisfazer desejos
políticos e interesses corporativos. O estratagema usado foi voltar aos
tempos de criança, sentar no chão e brincar de fazer de conta,
despejando ao vento o argumento infantil de que várias despesas
obrigatórias estavam superestimadas e, portanto, poderiam ser cortadas e
— voilà! — redirecionadas para as emendas.
Eis
alguns dos artifícios a que recorreram nossos parlamentares: (a)
redução de R$ 13,5 bilhões na previsão para os gastos previdenciários
(que, como vimos, são obrigatórios); (b) corte de R$ 7,4 bilhões na
previsão de gastos com o abono salarial, ardil que soa como pedalada, já
que transfere para o ano seguinte a realização das despesas; (c)
diminuição de R$ 2,6 bilhões na estimativa de gastos com o
seguro-desemprego (que, como também sabemos, não são discricionários); é
um corte extremamente ilógico e imprudente, em face da esperada
necessidade de aumento dessas despesas em consequência dos efeitos das
políticas de isolamento do tipo “Fique em casa” defendidas por alguns
governadores, muitos prefeitos e por não poucos parlamentares; (d)
redução de R$ 1,35 bilhão na previsão de pagamentos de subsídios
agrícolas; (e) mudança na forma de pagamento do auxílio-doença (também
uma despesa obrigatória), a ser aprovada legalmente, para que as
empresas passem a pagar esses valores com recursos próprios, sendo
depois reembolsadas com abatimento em tributos devidos, artifício que
reduziria em R$ 4 bilhões a projeção de gastos.
No
último dia de março, o relator do Orçamento enviou ofício ao presidente
Bolsonaro informando-o de que o Congresso decidiu “cancelar” R$ 10
bilhões previstos para emendas parlamentares no texto original. Porém,
mesmo reconhecendo que o corte é significativo, a aparente demonstração
de boa vontade está longe de ser suficiente para resolver a
impossibilidade de cumprimento do orçamento proposto. No ofício, o
senador responsabilizou o governo e disse que esses cancelamentos foram
pedidos pelo próprio Executivo e se aplicam às áreas de infraestrutura,
desenvolvimento regional, cidadania, justiça, agricultura, turismo e
ciência e tecnologia.
Cabe
lembrar, Parlamento à parte, que qualquer governo tem duas “equipes”, a
política e a econômica. Espera-se que ambas atuem de modo cooperativo.
No entanto, dado o cenário que se apresenta, é natural a impressão de
que hoje estejam em curso alguns conflitos entre os dois grupos. A
equipe econômica, tecnicamente embasada, colocou-se desde o início
contra a proposta de orçamento e sugeriu que o presidente deveria,
mediante vetos, reduzir o volume de emendas e, posteriormente, enviar ao
Congresso um novo projeto de lei alterando a peça anterior e
restabelecendo as despesas obrigatórias que foram cortadas. Além disso,
propôs que as emendas remanescentes — ou seja, as que resistirem ao bom
senso e à aritmética e permanecerem — sejam compensadas por cortes
equivalentes em outras despesas discricionárias, que, aliás, estão no
nível mais baixo da série histórica do Tesouro. Como se vê, trata-se de
uma horta inteira de pepinos.
A
verdade é que os congressistas não aprovaram um orçamento, mas um hino
ao inexequível, um tributo à insensatez, um laudatório de desrespeito à
legislação, visto que não cabe ao Congresso deliberar sobre o que é
atribuição exclusiva do Executivo. Trata-se, em suma, de um monstro que
vai paralisar o governo. E Deus queira que não tenha sido exatamente com
essa intenção.
Mises,
em seu livro Bureaucracy, de 1944, ao enfatizar a primazia da lei e do
orçamento, estava alertando contra desvios da gestão democrática —
exatamente os desvios que, quase oito décadas depois, estão acontecendo
no Brasil: insegurança jurídica e licenciosidade orçamentária. Os
cidadãos, que sustentam o Estado e seus tentáculos, já tão escravizados
por medidas ditatoriais que governadores e prefeitos vêm adotando em
nome da “saúde”, possivelmente serão convocados a exercer com mais
esforço “patriótico” a sua função de “contribuintes”, pagando mais
impostos para alimentar os animais de hábitos orçamentívoros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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