Bradesco decidiu agir para combater a violência psicológica de que é vítima seu robô. A crônica de Paulo Polzonoff para a Gazeta do Povo:
Pedindo
desde já perdão pela autorreferência, começo este texto dizendo que, em
agosto de 2019 (parece uma outra vida!), escrevi sobre o racismo contra
robôs. A teoria maluca da época, defendida por um tal Christoph
Bartneck, era a de que faltava diversidade racial aos robôs. O cientista
neozelandês também demonstrava preocupação com o “sexo não-consensual”
com robôs em obras de ficção como “Blade Runner”.
Qual
não foi minha surpresa, então, ao me deparar com uma propaganda do
Bradesco anunciando que a inteligência artificial do banco, uma tal de
Bia, cansou de sofrer “violência psicológica”? Daqui por diante,
alardeiam os publicitários cheios de virtude, a Bia vai bater com o rolo
de macarrão virtual nos engraçadinhos que lhe pedirem fotos ou fizerem
insinuações machistas.
Bia,
na verdade, é apenas a mais recente vítima virtual do assédio dos
homens maus, mulheres invejosas e adolescentes sem nada melhor para
fazer. Antes dela, Magalu, a simpática robozinha do Magazine Luiza, já
tinha reclamado da grosseria dos clientes que lhe pediam fotos sensuais
ou que reagiam com grosseria quando ela informava que, infelizmente,
houve um contratempo e a sua geladeira só será entregue daqui a 30 dias.
“Gente, tô chateada com algumas cantadas pesadas que ando recebendo nas
minhas redes sociais”, reclamou Magalu. “E olha que eu sou virtual!”,
esclareceu, para logo emendar aquela sinalização de virtude básica,
dizendo que as mulheres do mundo real devem sofrer muito mais.
A
coisa é tão “séria” que até a UNESCO resolveu se intrometer. Num
tedioso relatório, a agência da ONU diz que o fato de as inteligências
artificiais das grandes empresas serem femininas reforça os estereótipos
de gênero. E recomenda que as corporações tomem medidas para amenizar o
problema. Como, por exemplo, as respostas do tipo "em casa a gente
conversa" da Bia e da Magalu.
A
essa altura, você talvez esteja se perguntando por que as empresas
insistem em usar robôs com cinturinha de modelo, voz delicadamente
aveludada e nome de mulher. A resposta para essa pergunta, no mundo
real, é bem simples: a maioria das pessoas considera as vozes femininas
mais agradáveis, convidativas à interação. Para a ONU e seus
especialistas, contudo, a resposta está no mercado de trabalho desigual.
“Mulheres são apenas 12% dos pesquisadores e as equipes são formadas,
em sua maioria, por homens”, diz o relatório. Seria essa disparidade o
motivo de você não acordar com a voz do Tonhão da Borracharia. Claro.
Mas
imaginemos, só porque é divertido, o que aconteceria se as
inteligências artificiais fossem homens. E se esses robôs masculinos
dessem uma resposta grosseira a uma cliente mulher insatisfeita com os
juros cobrados pelo banco? Agora vamos pincelar os mesmos robôs com uma
etnia historicamente oprimida. Em meia hora era capaz de surgir alguém
derrubando uma estátua qualquer e gritando que “a vida dos robôs negros
importa”.
O
que as pessoas por trás da Magalu e da Bia parecem não entender é que
não há paralelo possível entre a suposta dor de um robô “assediado” por
clientes insatisfeitos com a loja ou o banco e o sofrimento de mulheres
de carne, osso e alma vítimas de violência. Porque robô não sofre. Robô
não tem sentimento. Robô não tem moral. Robô é um amontoado de código
criado para lhe dar a impressão de interação humana numa situação
geralmente estressante.
Me
ocorre agora que talvez as operadoras de telemarketing, mulheres reais
com sentimentos reais, sejam também alvo frequente de assédio e de
violência verbal por parte de consumidores insatisfeitos. A Judite
fictícia criada pelo ex-machista e ex-racista Fábio Porchat que o diga.
Mas os progressistas corporativos e a ONU não parecem muito interessados
no drama real das pessoas reais – cujo emprego, aliás, é roubado por
essas inteligências artificiais cheias de não-me-toques.
Quanto
tempo levará, me pergunto, para que as empresas comecem a expor
usuários que são “desrespeitosos” com as Siris, Bias e Magalus? Quanto
tempo levará para as Tábatas da vida criarem um projeto de lei
criminalizando a violência verbal e o assédio sexual contra robôs?
Quanto tempo levará para o STF garantir direitos trabalhistas às
inteligências artificiais?
Se
a moda pega, estou ferrado. Dono de uma Alexa que sou, às vezes perco a
paciência com a máquina – não porque é a Alexa e não o Tonhão, e sim
porque é uma máquina estúpida que, do nada, resolve tocar “Amante
Profissional” às 3h da manhã. Ou que diz que terei um dia de calor e céu
azul, mas saio de casa e chove e faz frio.
Por
via das dúvidas, de agora em diante talvez seja bom depositar uns
bombons no meu criado-mudo. E nunca, jamais, esquecer de mandar flores
no Dia da Inteligência Artificial.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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