MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

quinta-feira, 8 de abril de 2021

A importância decisiva do anonimato

 



É de Madison o famoso artigo onde se diz que “se os homens fossem anjos nenhum governo seria necessário…” para concluir que, não sendo, o problema principal consistia em “como governar o governo”. Fernão Lara Mesquita:


A Constituição Americana só chegou a ser o que é porque foi feita em segredo. Se as deliberações da Convenção da Filadélfia (de 25 de maio a 17 de setembro de 1787) “fossem abertas enquanto estavam acontecendo, o clamor das facções teria abortado qualquer resultado satisfatório”, registrou Alexander Hamilton, o maior dos pais da obra, ao lado de James Madison. “E se tivesse sido suspenso o compromisso solene de segredo (sobre quem defendeu o quê nela) mesmo depois do encerramento, toneladas de alimento para discursos incendiários teriam atravancado a cena. Foi o fato de tudo ter transcorrido a portas fechadas que inspirou um debate desinibido e trouxe à tona o mais luminoso documento já registrado pela História”.

Parece um contrassenso que regras aparentemente tão “antidemocráticas” tenham sido o requisito decisivo para o ato de fundação do primeiro governo verdadeiramente democrático. Mas esse é um raciocínio falso. O caráter democrático da Constituição e do governo americanos está no direito que, pela primeira vez na história da humanidade, foi dado ao povo de referenda-los ou não, e não numa tentativa vã de escrevê-la a 4 milhões de mãos que era ao que quase chegava a população dos estados desunidos daquele momento.

Estou lendo o “Alexander Hamilton” de Ron Chernow. É um livro brilhante sobre um personagem brilhante, escrito por um biógrafo à altura do seu biografado. O capítulo 13, “Publius”, o pseudônimo usado por Hamilton para escrever a sua parte dos Artigos Federalistas publicados nos jornais de Nova York, a primeira capital provisória da República recém criada, para mobilizar um mínimo de 9 dos 13 estados vencedores da Guerra de Independência contra a Inglaterra a aderirem à nova constituição, é um primor de pesquisa e recriação não só dos acontecimentos que levaram à instituição dos Estados Unidos da América como, principalmente, de suas circunstâncias, como só esta safra contemporânea de grandes jornalistas-historiadores tem sido capaz de dar ao público.

“Ao imaginar o projeto dos “Artigos Federalistas” Hamilton e Madison concordaram em entregar quatro artigos por semana, dois cada um, em intervalos de três dias, com pouco tempo para revisão” (o total editado no livro que acabou sendo universalmente reconhecido como o mais perfeito tratado de ciência política de todos tempos foi de 85 dos que foram escritos). Endividados, divididos, disputados por políticos populistas e precariamente organizados sob as Leis da Confederação, os vencedores da Guerra de Independência estavam ameaçados de deixar-se envolver em outra, civil, de consequências funestas.

“Para se entender a produtividade de Hamilton é importante notar que a maior parte do seu trabalho nada mais era que jornalismo, tratando de assuntos concretos e escrito sob a pressão da controvérsia”, diz Chernow. “Ele nunca escreveu como um filósofo solitário. Sua eloquência parecia requerer oposição para ganhar toda a força que tinha. Era um metabolismo que crescia no conflito”.

Hamilton era essencialmente um intelectual solitário que tirava um prazer enorme em colocar-se contra a corrente. Madison e ele eram personalidades complementares – aquele um profundo conhecedor da História e ele, vindo de uma infância miserável no Caribe, um profundo conhecedor das fraquezas humanas – que chegaram por caminhos diferentes à mesma conclusão fundamental: o que empurrava as pessoas a agir irracionalmente era, quase sempre, a ambição e a ganância…

É de Madison o famoso artigo onde se diz que “se os homens fossem anjos nenhum governo seria necessário…” para concluir que, não sendo, o problema principal consistia em “como governar o governo”. E os dois estavam de acordo em que o melhor caminho para isso seria ser dócil às forças da natureza, sem ilusões, e “fazer com que a ambição se contrapusesse à ambição”.

“A questão principal”, diz a abertura dos Artigos Federalistas escrita por Hamilton, “está em saber se o bom governo poderia ser fruto da reflexão e da escolha ou se estaria para sempre destinado a ser um resultado da mistura de acidentes e de força”.

O “mais luminoso documento jamais registrado pela História” foi, essencialmente fruto das providências tomadas por Alexander Hamilton para expulsar a vaidade e as paixões revolucionárias ferventes do dia seguinte da vitória, da pequena e despretenciosa sala onde se reuniu a Convenção de Filadélfia.

A obra ameaçou perder-se mais uma vez na negociação para a adesão dos estados, onde o principal foco de resistência vinha dos representantes de Nova York em cuja comissão Hamilton era minoritário, quando se instalou a competição de egos para anexar aos famosos sete artigos uma “Carta de Direitos” que poderia ter transformado a Constituição Americana em algo parecido com o que conhecemos por aqui, não fosse o gênio de Hamilton ter detido a competição das vaidades em chamas com a 10a emenda, que diz que “Todos os direitos não delegados à União por esta constituição, nem proibidos por ela aos estados, estão reservados aos estados, respectivamente, ou ao povo”. Foi ela que entreabriu a porta para as reformas da Progressive Era, na virada do século 19 para o 20, hoje desafiadas e em refluxo, que levaram a democracia ao ponto mais alto que ela jamais alcançou.

De fato, como bem sabe o Brasil, a vaidade é o maior inimigo da democracia que é, fundamentalmente, institucionalização – isto é, diluição, média, des-personificação, des-mono-arquização – do poder.

Aquela baba pegajosa que mela toda manifestação dos gilmares mendes e, STF abaixo, vem triturando os últimos resquícios de democracia que havia no Brasil, é de encantamento deles por eles próprios. Enquanto a vida institucional e política brasileira continuar sendo televisionada todos os dias, do café da manhã ao travesseiro, com foco especial nas passagens de cada um de seus atores pelo banheiro, continuaremos vivendo dentro desse novelão onde não pode haver nem um momento de sossego ou a audiência cai.

Dentro do próprio jornalismo acontece fenômeno parecido. Ele foi um poder essencial da República enquanto respeitou a voluntária aniquilação da pessoa do jornalista. A primeira exigência do bom jornalismo, enquanto houve um, era que se apagasse da re-portagem dos fatos todas as marcas da individualidade do repórter. A impessoalidade era a lei porque só a impessoalidade tem a História como referência. O resto é vaidade, o pecado preferido do demônio.

A internet é a apoteose do ego. O altar para que qualquer um faça de si mesmo o seu bezerro de ouro. É aí que se esconde o potencial de destruição da humanidade que ela tão assustadora e veementemente está mostrando.

Do “Primeiro” ao “Quarto” poderes, é preciso recuperar a importância decisiva do anonimato. Só o editorial anônimo, libertado da necessidade do autor de brilhar, tenderá para os necessários equilíbrio e moderação do que deve e tem de ser “institucional”. E mil vezes mais ainda as discussões da norma constitucional, da lei e do oferecimento de justiça.
 
BLOG  ORLANDO  TAMBOSI

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