O modo como os nativos digitais vão lidar com o dinheiro determinará muitos dos acontecimentos futuros. Dagomir Marquezi via Oeste:
Definir
gerações não é uma ciência exata. Consultorias de marketing adoram
juntar pessoas que nasceram em datas próximas. Classificam esses grupos
com uma letra ou um nome exótico. Já tem gente falando em “geração C”. C
de covid. Talvez seja dar prestígio demais para esse vírus.
As
gerações mais recentes que ganharam nomes são: Boomers (hoje entre 56 e
74 anos), Geração X (entre 40 e 55) e Millennials (24 a 39). São
classificações meio genéricas e imprecisas. A geração seguinte é a Z.
Alguns fatos sobre esse grupo são indiscutíveis.
Nascidos
a partir de 1997, os “Zs” formam a primeira geração que já cresceu com
um celular lotado de aplicativos no bolso e a permanente busca por likes
nas redes sociais. São também chamados de “nativos digitais”. Não
chegou a existir um mundo totalmente analógico para eles. Os Zs mais
velhos acabaram de chegar aos 24 anos. Assumem suas posições no mundo
dos adultos. Estão herdando a Terra. Qualquer opinião simplista sobre
eles é um erro.
Certos
aspectos dessa Geração Z são notáveis. Eles já nasceram desligados de
certos comportamentos destrutivos do passado. Você não precisa dizer a
eles, por exemplo, que cuidados ambientais são uma necessidade. Ou que
racismo é errado. Eles aprenderam isso desde o berço. Alguns erram na
dose e radicalizam. Estão na idade certa para isso. O problema é se
continuarem sendo moleques radicais pelo resto da vida.
Outro
aspecto para refletir: nunca existiu uma geração mais mimada que essa.
Eles consideram o apoio constante dos pais quase que uma obrigação,
aprenderam a justificar seus erros e consideram-se vítimas. Ultimamente,
por causa da pandemia, muitos flertaram com a ideia de que é justo o
direito de ficar trancados em casa fazendo maratonas de séries enquanto
esperam a ajuda emergencial do governo. Felizmente só uma parte da
geração Z pensa assim.
Mas,
pelas facilidades que sempre receberam, muitos vão ter mais dificuldade
para amadurecer. E essa característica pode ter consequências ruins
para uma das áreas mais sensíveis da vida: a economia. A previsão para
os Zs não é das melhores.
A
revista britânica The Economist leu com atenção o anuário estratégico
do banco Credit Suisse. Chegou à conclusão de que os rendimentos
financeiros da Geração Z poderão ser decepcionantes. Tanto no mercado de
ações quanto no de renda fixa. O estudo foi dirigido por especialistas
de instituições como a Universidade de Cambridge e a London Business
School. Eles compararam a situação dos Zs com a de outras gerações do
passado. Todas as anteriores tiveram ganhos de pelo menos 5% em ações e
3,6% em renda fixa.
A
perspectiva para a geração Z é de, respectivamente, 3,5% em ações e um
porcentual negativo em renda fixa. É um cenário potencialmente
assustador para uma geração acostumada com segurança e conforto. Tempos
difíceis pedem empreendedores ousados, dispostos a enfrentar situações
inéditas, desafiadoras. Richard Branson está com 70 anos, pertence aos
Boomers. Elon Musk tem 49, é da Geração X. Os Zs terão capacidade e
imaginação para dar respostas aos grandes problemas? Ou reagirão às
crises mais graves com clichês políticos?
Mais
básico ainda: a geração Z saberá se cuidar financeiramente? Se não
souberem se cuidar, não vão conseguir cuidar do mundo. Segundo o estudo
do Credit Suisse, esses jovens de hoje terão de economizar muito se
quiserem ter uma velhice mais segura.
Um
dos autores do estudo, Paul Marsh, sugere algo difícil numa era de
informações instantâneas no celular: investimentos a longo prazo. Olhar
com mais distanciamento os índices financeiros, optar por decisões
estratégicas. “Começar cedo, diversificar o risco e evitar altas taxas
bancárias”, resumiu Marsh. Ou, nas palavras da Economist: “Em vez de
checar a cotação da bolsa de dez em dez minutos, eles deverão exercitar a
paciência e se preparar para choques e turbulência temporários”.
Uma
pesquisa da empresa Pollfish entre os Zs norte-americanos dá uma ideia
mais precisa da forma como eles estão preparando o futuro. Noventa por
cento dizem que poupar para a aposentadoria é importante, mas 58% não
tomaram nenhuma atitude concreta para isso. Quem está levando mais a
sério a ideia de um colchão para a velhice são os que cresceram ouvindo
conversas sobre administração financeira em casa.
Esse
é um fator fundamental nessa evolução. A falta de educação financeira é
uma praga no Brasil. Cria, por exemplo, endividamentos fora de
controle. Os pais muitas vezes falham feio nessa tarefa. O sistema
educacional costuma ter outras prioridades. Uma pesquisa com foco na
geração Z brasileira realizada pela CNDL/SPC Brasil indica uma situação
não muito otimista. A pesquisa deu conta de que quase metade dos jovens
não realiza nenhum controle financeiro, por ignorância (19%) ou preguiça
(18%). Setenta e cinco por cento não têm preocupação alguma em poupar
para a aposentadoria.
Como
ensinar a esse pessoal os princípios mais básicos de responsabilidade
financeira? E mais: de uma maneira interessante, prática, divertida e
efetiva? Uma das soluções mais interessantes surgiu nos Estados Unidos
com a fintech Greenlight, que oferece cartões a adolescentes. Seu
aplicativo só funciona com débito. Dessa forma, ninguém gasta o que não
tem.
O
gasto é monitorado pelos pais ou responsáveis. Cada movimentação é
avisada em tempo real. E o aplicativo aproveita para ensinar alguma
coisa do mundo do dinheiro. Meninos e meninas aprendem a ler tabelas,
analisar gráficos básicos, planejar novos passos, e (com um upgrade e
monitoramento dos pais) até aplicar na bolsa. Boomers jogavam Banco
Imobiliário. Zs podem pedir ações da Disney como presente de
aniversário.
Um
grupo muito jovem de empresários brasileiros aproveitou a experiência
do Greenlight e criou o Z1 usando basicamente o mesmo modelo. Para se
ter ideia da transformação do perfil financeiro dessa geração, não
existe idade mínima para abrir uma conta no Z1. Seu filho ou filha de 7
anos, por exemplo, pode receber um cartão internacional de “crébito”. E
manejar (com seu controle) compras no exterior. Logo aprende que só pode
fazer compras ou assinaturas no cartão de crédito se tiver saldo
suficiente para pagar. Tudo também monitorado pelos pais.
A
geração Z conta com outros pontos fortes a seu favor. Eles cresceram
sabendo que a “estabilidade no emprego” não existe (pelo menos fora do
aparelho estatal). Os Zs reconhecem que não podem se acomodar. Precisam
estar abertos a novas possibilidades profissionais numa era de mudanças
muito rápidas. Essa agilidade e concorrência só podem ajudar a aprimorar
o mercado de trabalho.
Os
Zs também mostram uma tendência ao frugalismo, uma vida de menos
desperdícios e ostentações. Com menos gastos supérfluos, menos dívidas
em potencial. Melhor que invistam em planos inteligentes de
autoeducação.
O
modo como essa geração lidar com o dinheiro vai determinar muitos dos
acontecimentos futuros. Tudo aquilo de que o Brasil não precisa agora é
de jovens acomodados e ignorantes com relação à realidade da economia. A
simples e básica noção de educação financeira já é um poderoso antídoto
contra a demagogia e o populismo irresponsável que permanentemente nos
assombram. Crianças que aprendem que não se gasta o que não se tem
tendem a ser adultos mais responsáveis e honestos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Geração com menos tempo de vivência, mais vulnerável à doutrinação, mais disprovida de intensidade, num meio cada vez mais superficial,tóxico, censurado (ainda que fale contra a censura, porque não se vê alem das aparências), que trata como vergonhoso e ultrapassado toda e qualquer coisa ("cringe") que represente ou atribua profundidade,emoção, valores, espiritualidade. Refletem o que a sociedade andou fazendo: trocando instinto por modismos, espontaneidade por redes sociais, sentimento por hashtags. Mas toda essa robotização e decadência não são culpa deles, e sim das gerações que os educam (ou deixam de fazê-la). Todas as gerações sempre foram um reflexo ou produto no meio de suas respectivas épocas. As gerações mais antigas sempre ensinaram ainda que indiretamente que maturidade e felicidade é consumismo, frieza e ser preso a tradições. Talvez a geração z seja apenas um espelho disso.
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