A história está cheia de políticos que crescem com a própria prisão. Não foi o caso de Lula. Texto de J. R. Guzzo sobre o circo vivido pelo país nas últimas 48 horas:
Tudo em que Lula
encosta a mão, já há muito tempo, fica estragado na hora. Neste seu
momento de desgraça, quando não podia mais evitar a prisão e sua única
saída era tentar manter a cabeça erguida, fez o contrário – baixou a
cabeça e acabou entrando na cadeia como um homem pequeno. Teve a
oportunidade plena de fazer alguma coisa mais decente. Foi ajudado pela
gentileza extrema da Polícia Federal e demais autoridades encarregadas
de cumprir a ordem judicial, que lhe deram todo o tempo do mundo para
preparar uma apresentação às autoridades que tivesse um pouco mais de
compostura. Foi tratado com uma paciência que não está à disposição de
nenhum outro brasileiro. Teve o privilégio de uma “negociação” sem pé
nem cabeça para se entregar, como se o cumprimento da ordem dependesse
da sua concordância. Mas acabou, apenas, estragando tudo. Conseguiu
tornar a sua biografia, que já está para lá de ruim, ainda pior – este
capítulo da sua ida para o xadrez, condenado a doze anos por corrupção
passiva e lavagem de dinheiro, concorre, certamente, para ser um dos
piores da sua triste passagem pela política brasileira.
O PT, a esquerda em
geral e o próprio Lula imaginavam, talvez, uma despedida com mais cara
de cinema, ou pelo menos de novela de televisão. O problema, como sempre
acontece, é que esses planos bonitos exigem coragem para ser colocados
em prática. E onde encontrar coragem, na hora de enfrentar a dureza?
Nada de Salvador Allende e de sua heroica resistência até a morte, no
Palácio de La Moneda em Santiago do Chile, onde enfrentou à bala a tropa
do exército chileno que veio prendê-lo. Allende? Imaginem. O que o
brasileiro viu pela televisão, durante as vinte e tantas horas de
tumulto que se seguiram ao prazo concedido para o ex-presidente se
apresentar à prisão, foi um homem confuso, vacilante, amedrontado,
tentando pequenas espertezas – nada que lembrasse um líder em modo de
“resistência”. Uma hora parecia querer uma coisa. Dali dez minutos
estava querendo o contrário. Sua “trincheira” durante as horas que
antecederam a prisão, o prédio do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo, não era uma trincheira de verdade. Entravam engradados de
cerveja, sacos de carvão e carne para churrasco. E que trincheira é
esta, que só resiste porque a tropa do outro lado não aparece? Lula,
mais uma vez, ficou fingindo que queria briga – mas amarelou, como
sempre, na hora em que teria mesmo de ir para o pau.
O único gesto do
ex-presidente e o seu entorno foi aproveitar a moleza da polícia
encarregada de prendê-lo para dar a impressão de que ele se “recusava” a
ser preso. Não se recusava coisa nenhuma – só ficou entocado dentro do
prédio porque a Polícia Federal não foi buscá-lo. Que valentia existe
nisso? O que houve de verdade, na vida real, foi o arrasta-pé de um
político assustado, sem ação e obcecado com a própria pele,
escondendo-se atrás da moita para ver se a confusão passa e ele pode
sair ao céu aberto. As últimas horas que Lula passou em seu esconderijo,
antes de tomar o avião que enfim o levou já preso para Curitiba,
deixaram claro, também, que nem ele e nem toda a estrutura do seu
partido tinham a menor noção do que estavam fazendo. Não tinham um
plano, A, B ou C. Não tinham uma única ideia a respeito do que fazer.
Não tinham nada. Até a última hora, na verdade, não imaginavam que fosse
expedida, realmente, uma ordem de prisão contra ele; não conseguiam
acreditar, simplesmente, no que estava acontecendo. Lula e o PT
contavam, isto sim, com os escritórios de advocacia milionários que
iriam salvá-lo no STF. Contavam com um Marco Aurélio, Lewandovski ou
Gilmar Mendes para dar um golpe de última hora no tapetão. Contavam com
qualquer coisa – menos a ordem de prisão que acabou por levá-lo ao
xadrez da Laja Jato. Na hora que a realidade teve de ser encarada,
entraram em parafuso.
O final desta comédia
foi uma tristeza. Durante um dia inteiro, e a maior parte do dia
seguinte, um bolinho de gente ficou em volta do sindicato — era o apoio
popular que foi possível juntar. Às vezes, nas imagens aéreas da
televisão, parecia uma concentração mais encorpada. Mas assim que o
helicóptero se afastava um pouco ficava claro que a mobilização do povo
brasileiro para defender Lula era só aquele bolinho mesmo – em Mauá, por
exemplo, a quinze minutos dali, não havia um único manifestante à
vista. Nem em Santo André, ou São Caetano, ou no resto do Brasil. A
população estava trabalhando. No carro de som, falando para si próprios,
sucediam-se dinossauros velhos e novos, de Luisa Erundina a Manoela
D’Ávila, gritando coisas desconexas. Ninguém, ali, tinha qualquer
relação com o mundo do trabalho. Nem na plateia, formada por
sindicalistas, desocupados ou professores que faltaram ao serviço, com a
coragem de quem não pode ser demitido do emprego. Dentro do prédio Lula
limitou-se a não resolver nada, cercado por um cardume de puxa-sacos e
mediocridades. Não havia, na hora máxima, ninguém de valor, mérito ou
boa reputação em torno dele – só os serviçais de sempre, gente que sabe
gritar, sacudir bandeira vermelha e atrapalhar o trânsito, mas não é
capaz de ter uma única ideia ou fazer uma sugestão que preste. Como o
nosso grande líder de massas pode acabar cercado, numa hora dessas, por
figuras como Gleisi Hoffman e Eduardo Suplicy? Muita coisa,
positivamente, deu muito errado.
O heroísmo da
“resistência” de Lula acabou limitado à agressão de um infeliz que
despertou a ira dos “militantes” e foi surrado até acabar no hospital
com traumatismo craniano. Ou à depredação no prédio da ministra Carmen
Lucia em Belo Horizonte, mais pixações aqui e ali. Quanto ao próprio
Lula, o que deu para verificar é que a soma total de suas ações no
momento de ir para a cadeia resumiu-se a empurrar as coisas com a
barriga até a hora de entregar os pontos — depois de fingir que “não
estava conseguindo” se render por causa de um tumulto barato encenado
pela turma que cercava o sindicato. Esperou escurecer para não ser preso
à noite, no dia seguinte inventou uma espécie de missa, um discurso que
não acabava mais, um almoço “com parentes” e, por fim, armou a farsa do
tal bloqueio dos portões de saída por parte dos seus “apoiadores”, o
que o “impediria” de se entregar. Chegou ao limite extremo da
irresponsabilidade, mais uma vez – e só quando não deu para continuar
fazendo a polícia de idiota, como fez durante dois dias seguidos,
embarcou no camburão da PF, e depois, no avião rumo à Curitiba. No tal
discurso, com frases mal copiadas de Martin Luther King, chegou a dizer
que é a favor – isso mesmo, a favor – da Lava Jato, depois de passar os
últimos dois anos fazendo os ataques mais enfurecidos contra a operação
anti-corrupção. Agora, na hora de ir para a cadeia, diz que é contra a
roubalheira, e que só está preso por causa “da imprensa” – o que, além
de falso, é mais uma demonstração de que está cuspindo no prato no qual
tem comido há anos. Afirmou, enfim, que estava indo para a “prisão
deles”. Mentira. Não é prisão deles. É do Brasil inteiro e do sistema
legal que ainda existe por aqui.
A história está cheia de políticos que crescem com a própria prisão. Não foi o caso de Lula.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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