Não
gosto, nunca gostei, desta sinalização política que divide o mundo de
forma estanque e maniqueísta em esquerda e direita. Penso que faz cada
vez menos sentido – e menos sentido ainda faz quando vemos o que a
“nossa” esquerda tem defendido nos últimos anos e qual a sua visão de
futuro. Por isso não resisti a tomar de empréstimo uma ideia
recentemente expressa por Fernando Alexandre – “uma coisa é óbvia: em Portugal, no século XXI, o progresso já não é de esquerda” – para a desenvolver e estender a um âmbito mais largo do que as nossas quatro paredes.
Não é
muito difícil olhar para o PCP e vê-lo agarrado a referências, valores e
lutas do passado. Basta andar um pouco pelas páginas do Avante
e verificar como tudo permanece congelado numa linguagem que se repete
como um disco rachado. Já o Bloco, excepto naqueles momentos em que lhe
dá para celebrar o marxismo,
disfarça melhor a sua natureza, mas quando ouvimos a sua fixação no
tema dos “precários” só podemos concluir: não estão a perceber nada do
mundo em que vivemos e ainda menos entendem aquele que está para vir.
De
facto, se não temos nem podemos ter muitas certezas sobre o que o futuro
nos reserva, algo é garantido: tudo mudará muito depressa, o que
significa que tudo é, no limite, precário. Numa economia cada vez mais
guiada pela necessidade de inovação, haverá empresas a nascer e empresas
a desaparecer a um ritmo que nem Joseph Schumpeter terá imaginado
possível quando identificou a “destruição criativa” como sendo um dos
mecanismos do progresso e um motor para a criação de mais riqueza.
Há uma
década andávamos todos com Nokias nos bolsos, hoje, no tempo dos
smartphones, perdemos o contacto directo com a “empresa-milagre” da
Finlândia. Da mesma forma há uma década muito poucos teriam ouvido falar
de uma empresa chinesa chamada Huawei, mas ela hoje fabrica telemóveis
capazes de concorrer com os iPhone e os Samsung topo-de-gama e é uma das
cinco empresas na linha da frente do desenvolvimento dos equipamentos
que servirão a nova tecnologia móvel, a 5G, uma tecnologia que deverá
chegar no início da próxima década.
Mais: entre essas cinco empresas há outra chinesa, a ZTE (e, já agora,
duas europeias, ambas nórdicas, a Ericsson e, surpresa, surpresa, a
Nokia).
Se mesmo
entre empresas gigantes e globais ocorrem estes realinhamentos
radicais, que dizer da miríade de pequenas empresas de um pequeno país
periférico como Portugal? É que os próximos tempos não trarão apenas
telemóveis mais potentes ou aplicações mais sofisticadas – trarão também
a vulgarização da Inteligência Artificial, a disseminação da “Internet
das coisas”, um processo de radical robotização de tudo o que permitir a
automação ou a impressão 3-D que revolucionará muitos processos
industriais.
Todas
estas mudanças – a chamada “quarta revolução industrial” – não vão
acontecer no tempo dos nossos filhos ou netos: estão previstas para
amanhã ou para depois de amanhã. Já estão a acontecer hoje.
Ora o
que é que esta esquerda tem defendido, e praticado, nos últimos anos,
com maior ou menor cumplicidade dos socialistas? Tem defendido
“reversões” e contra-reformas que, por regra, tendem a criar uma
sociedade e uma economia mais rígida, menos preparada para as
inevitáveis mudanças, com sectores inteiros congelados em torno de
“direitos adquiridos” num tempo em que, tendencialmente, nada se poderá
dar por adquirido.
É
possível, é até bastante provável, que aquilo que é hoje a nossa
trajectória normal de vida – uma infância e uma juventude em que
estudamos, uma idade adulta em que fazemos uma carreira, um fim de vida
sob a protecção dos sistemas de segurança social – deixe de ser a regra
no futuro. Há já experiências em que se tentaram criar condições para mudar radicalmente de especialização a meio da vida adulta,
ninguém sabe se funcionarão, mas quem trabalha em robótica, automação e
inteligência artificial acredita que é um dos caminhos possíveis para
tirarmos partido de um salto tecnológico que, como outros saltos
tecnológicos do passado, pode pôr as máquinas a fazer o que é mais duro e
mais repetitivo e dar-nos mais espaço, tempo e disponibilidade para
aquilo em que o ser humano não é substituível: a criatividade.
Esta
quarta revolução industrial poderá vir acompanhada de uma outra quarta
revolução, esta nas funções e no funcionamento dos Estados. John
Mickethwait e Adrian Wooldridge falaram-nos disso mesmo num livro recente que,
não por acaso, vê sinais desse novo modelo de Estado a nascer a
Oriente. Depois do Estado-Nação, do Estado liberal e do Estado Social
também não sabemos como será esse novo modelo de Estado, mas sabemos que
concentrar no Estado todas as funções, missões e funcionários não é
seguramente o caminho.
E o que
nos dizem as prioridades das nossas esquerdas? Que as soluções continuam
a estar no Estado e a depender de políticos, a maioria dos quais nunca
sequer teve de se preocupar com ter salários para pagar ao fim do mês.
Não é possível, por exemplo, imaginar um sistema educativo mais flexível
e melhor preparado para responder a desafios como os que referi quando
todos os professores são funcionários presos a uma mesma carreira,
quando é em Lisboa que se decide que professor trabalha em que escola,
quando tudo se tem feito para enfraquecer o ensino privado – onde há
mais diversidade e pode haver mais flexibilidade, mas que em Portugal só
é acessível a uma minoria
O
mecanismo mental é sempre o mesmo, é defensivo, senão mesmo
reaccionário: é por isso que a luta pelas carreiras dos professores ou
pela integração incondicional de todos os precários é a mesma luta pela
destruição dos poucos elementos de maior flexibilidade recentemente
introduzidos na lei laboral, mesmo quando isso vai a contra-vapor
do que se faz na Europa (aquela Europa para onde vai a maioria das
nossas exportações, que aí têm de ser concorrenciais).
Estamos
numa daquelas alturas em que todos os que se preocupam com o progresso –
ou mais prosaicamente não desejam que fiquemos para trás quando outros
aceleram – têm de questionar as rotinas existentes, os modelos de um
Estado Social que nos seus termos actuais não só não é sustentável como
torna as sociedades mais rígidas e mais acomodadas, menos preparadas
para as mudanças que aí vêm.
Tudo tem
de ser posto em cima da mesa e debatido, mesmo aquilo que nos possa
parecer chocante (e digo já alguns dos temas que enuncio a seguir
fazem-me franzir o sobrolho, mesmo sentindo que não posso ignorá-los).
Alguns exemplos: devem os sistemas de impostos sobre o rendimento
continuar a ser progressivos quando já se provou que isso já não diminui
as desigualdades, ou devemos antes adoptar uma “flat tax”? Faz sentido
falar de rendimento básico incondicional capaz de substituir muitas das
prestações sociais hoje existentes? Se vivemos tendencialmente até aos
80/85 anos quando é que começamos a falar de trabalho a tempo parcial
que possa prolongar-se até aos 70/75 anos? E até que idade faz sentido
que o Estado garanta cuidados de saúde caríssimos que prolongam vidas já
com pouca qualidade? O cheque-educação e o cheque-saúde não deviam
tornar-se universais, transferindo para os indivíduos e as famílias a
responsabilidade pelas suas escolhas, e dando-lhes toda a liberdade de
optarem de forma diferente daquela que lhes seria destinada pelos
serviços do Estado?
Imagino
que nesta altura alguns dos meus leitores já estejam aos saltos, e eu
próprio hesitei sobre se deveria levantar questões tão complexas e
difíceis. Penso contudo que essa é a atitude correcta: perceber que
quando tudo muda à nossa volta a nossa resposta não pode ser o
imobilismo, muito menos as “reversões” e os “direitos adquiridos”. Mais:
a nossa atitude tem de ser de abertura, exactamente a oposta da de uma
das omnipresenças mediáticas da nossa esquerda, Daniel Oliveira, que,
sobre o rendimento básico incondicional raciocinou em função de quem
apareceu a defender a ideia (“a direita que conta”, como ele escreveu),
sendo isso razão suficiente para “matar a serpente ainda dentro do ovo”.
É também
este “fechamento do espírito”, esta reacção quase pavloviana para
descartar um debate sério, estas atitudes hoje tão comuns aos que gostam
de se ver como sendo de esquerda, que fazem dela um inimigo do
progresso no século XXI.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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