| 21 Setembro 2016
Internacional - MÍDIA SEM MÁSCARA
Internacional - MÍDIA SEM MÁSCARA

Mao Tsé-Tung morreu há quarenta anos.
Maria João Marques recorda a vida e o legado do "grande timoneiro" e explica porque os chineses pouco choraram a sua morte.
Maria João Marques recorda a vida e o legado do "grande timoneiro" e explica porque os chineses pouco choraram a sua morte.
Quando na manhã de 9 de setembro de 1976, há quarenta anos, os autofalantes espalhados pelas ruas das cidades chinesas informaram, “com a mais profunda tristeza, que o Camarada Mao Tsé-Tung, o nosso estimado e amado grande líder”[i] morrera durante a madrugada, dias depois do seu terceiro ataque cardíaco em quatro meses, os chineses não ficaram surpreendidos. Durante os milénios da história chinesa os fenómenos naturais haviam sido sempre obedientes a informar as populações sobre a manutenção, ou não, do mandato do Céu pelos governantes. Inundações, terramotos e colheitas destruídas? Eram sinal inequívoco de que a dinastia perdera o favor do Céu e que as populações, seguindo os ensinamentos de Mêncio, poderiam substituir os governantes que tinham perdido a virtude.
Ora
a 26 de julho daquele ano, um terramoto violento destruíra a cidade de
Tangshan, perto (segundo a perceção das distâncias na China) de Pequim,
onde também se sentira o abalo. Evidentemente a informação dada à
população foi escassa – sobretudo sobre o número de mortos (estimados
entre quinhentos e setecentos mil), sobre a incompetência do Exército de
Libertação Popular a procurar sobreviventes entre os escombros e sobre
as valas comuns onde se enterraram os cadáveres cobertos de lixívia –
mas a notícia foi passando, bem como a claríssima mensagem da natureza: a
morte de algum poderoso aproximava-se.
Pelo
que aquando do anúncio da morte de Mao, o pesar oficial foi registado e
o luto público foi estritamente observado. No entanto, para a população
chinesa, bem como para a hierarquia do Partido Comunista Chinês, a
reação foi mais de alívio do que de dor. A notícia chegava ao fim dos
dez terríveis anos da Revolução Cultural – que proporcionou os
animadores números de uns estimados (números de Andrew Walder e Yang Su)
um milhão e meio de mortos e cem milhões de chineses perseguidos e
punidos. A China estava exausta. (N.do E.: Segundo o
cientista político R. J. Rummel, especialista no cálculo dos
"democídios", a vítimas de Mao chegam a 77 milhões de cidadão chineses.)
A
ausência de tristeza e de choros com a morte de Mao foi mais
sintomática por ter ocorrido meses depois da morte do primeiro-ministro
Zhou Enlai, a 8 de janeiro de 1976. Zhou era tido pela generalidade dos
chineses como a imagem da moderação – por oposição a Mao e aos radicais a
quem este, a espaços, dava rédea solta para atormentar as populações –
se não mesmo do humanismo no meio da loucura da Revolução Cultural.
Quando morreu, maciças manifestações foram espontaneamente organizadas
pelos chineses (e meticulosamente reprimidas pelas autoridades) em
cidades do norte e do sul da China, do litoral e do interior. Coroas de
flores acumulavam-se nas praças das cidades, pessoas choravam, e houve
até o desafio ostensivo às autoridades com a ocupação da praça
Tian’anmen a 4 e 5 de abril, por altura do Festival Qingming (em que
tradicionalmente se prestava honras aos mortos), com direito a carga
militar sobre os manifestantes.
Desafiando
a vigilância e delação comuns nos tempos maoistas, as reações populares
eram de fúria ostensiva perante os ataques póstumos a Zhou, que os
jornais e a rádio oficiais proferiam (encomendados pelo grupo de
radicais da mulher de Mao, Jiang Qing). O apoio a Deng Xiaoping, visto
como o sucessor do primeiro-ministro falecido e opositor dos radicais,
era publicamente declarado. Os chineses ousavam pedir para a governação
do país alguém que, à época, incorria no desfavor de Mao exigiam a velha
e confiável burocracia do Partido Comunista Chinês (PCC) a governar, em
vez dos carrascos radicais que só provocavam caos e destruição.
Com
a criação da República Popular da China em 1949, a administração do
país coube, claro, à estrutura partidária do PCC. Sem surpresa, depois
de uma guerra, o partido via como prioridade a estabilização do país, o
crescimento da economia e a melhoria da vida das populações. Ora,
segundo Mao, estas eram as prioridades erradas. Os objetivos da política
não podiam ser estes pormenores comezinhos de uns yuan a mais ou a
menos no rendimento de cada família, ou a escolaridade das crianças (de
resto Mao via como muito mais benéfico o fervor ideológico do que o
mérito académico), ou a existência de transportes entre as vastas
distâncias chinesas. Nada disso: os fins últimos da política eram a luta
de classes e o aprofundamento da coletivização. Mesmo que fossem
obtidos à custa dos objetivos anteriores e do bem-estar das populações –
ou, até, à custa da vida dos chineses.
Por
isso, Mao, que acreditava na desordem, conviveu tão bem com a violência
e a crueldade — explicitamente pedidas por Mao aos jovens e aos
“operários rebeldes” — dos primeiros anos da Revolução Cultural. A
revolução, lembrava uma das suas citações icónicas, não é uma festa.
Perante
a calamidade dos quarenta e cinco milhões de mortos do Grande Salto em
Frente (1958-62) – com as grandes comunas agrícolas onde tudo (como
dizia um secretário do PCC em Macheng, até os seres humanos) era
coletivo – o grande timoneiro manteve a opinião de que as suas políticas
agrícolas eram as corretas. Em 1959, já a população rural chinesa
morria à fome, Mao proferia a sua famosa frase “a situação em geral é
excelente”.
Esta
visão radical consternava até o mais empedernido dos marxistas. Quando
discursou em Moscou perante os líderes comunistas mundiais, em novembro
de 1957, Mao deixou-os em estado de choque com a sua conversa sobre uma
possível guerra mundial iminente: alegremente, sem evidenciar problemas
com tais estatísticas de mortandade, referiu que metade da população
mundial poderia morrer, mas a metade sobrevivente (aleluia!) viveria sob
o comunismo.
Pouco
acompanhado nesta disposição para tais sacrifícios, Mao desconfiava da
burocracia política do PCC. Supunha o partido que chefiava,
constantemente à beira de ser tomado por direitistas e saudosistas do
capitalismo, prenhe de espiões imperialistas ou do malvado Chiang
Kai-shek. Desprezava as cautelas dos seus colegas do PCC face às
consequências económicas das reformas comunistas e enfurecia-se com as
reticências sobre uma maior coletivização da economia. Referia-se-lhes
como “mulheres de pés enfaixados”, comparando a falta de entusiasmo dos
outros dirigentes do PCC aos passos lentos e hesitantes das senhoras a
quem os pés haviam sido enfaixados desde a infância – hábito bárbaro que
o regime comunista, e muito bem, proibiu. Torcia o nariz à forma como a
aristocracia partidária usava o seu poder para dele retirar benefícios
para si e para a sua família. A solução maoista típica para lidar com
todas estas aleivosias era uma ronda de purgas no partido, em ritmo
imparável a partir da segunda metade da década de 1950.
Chegar ao poder
Que Mao tenha sido bem-sucedido a torturar a burocracia do PCC era um estandarte do poder que acumulou desde os dias em que, durante a Longa Marcha, se tornou líder do Partido Comunista. Inicialmente, Mao não foi uma escolha evidente. Nascido a 26 de dezembro de 1893 em Shaoshan, no Hunan rural, segundo a sucinta descrição que faz Jonathan Spence, que o biografou, “as suas origens eram comuns, a sua educação episódica, os seus talentos nada excepcionais; no entanto, ele possuía uma energia infindável e uma implacável autoconfiança”.
Que Mao tenha sido bem-sucedido a torturar a burocracia do PCC era um estandarte do poder que acumulou desde os dias em que, durante a Longa Marcha, se tornou líder do Partido Comunista. Inicialmente, Mao não foi uma escolha evidente. Nascido a 26 de dezembro de 1893 em Shaoshan, no Hunan rural, segundo a sucinta descrição que faz Jonathan Spence, que o biografou, “as suas origens eram comuns, a sua educação episódica, os seus talentos nada excepcionais; no entanto, ele possuía uma energia infindável e uma implacável autoconfiança”.
Mao
não era o comunista intelectualmente mais esclarecido e admirado, nem
possuía o pedigree que as ligações à União Soviética ofereciam a outros.
Mas percebia que lirismos da estirpe “as palavras são mais poderosas
que as armas” eram conversa de fracos: Mao era um militar reconhecido e
lesto a usar as armas contra os inimigos, incluindo os outros líderes de
fação no PCC. Era propenso à ação; já nas primeiras reuniões do PCC um
outro camarada notava que Mao falava pouco e só para o fim das reuniões,
altura em que fazia um resumo do que se passara e sugeria soluções
concretas. A sua resistência, energia e iniciativa proporcionaram-lhe
que fosse, simultaneamente, um comandante militar de renome, um dos
escassos participantes no primeiro congresso do PCC em Shanghai em julho
de 1921 (com todos os benefícios que dá a antiguidade), e um
sobrevivente da Longa Marcha – essa demorada retirada do exército
comunista do soviete de Jinggangshan, na provícia sulista do Jiangxi,
para a zona de Yan’an, no noroeste da China, nos anos de 1934 e 1935.
Manter-se vivo e ser feroz foram os maiores trunfos de Mao para liderar o
PCC.
Quando
o Exército Vermelho estabeleceu o soviete de Yan’an, Mao, líder dos
insurgentes, vivia numa caverna nas montanhas de loesse com He Zhizhen, a
sua segunda mulher (ou terceira, se considerarmos o seu breve casamento
durante a adolescência, arranjado pelos seus pais e supostamente não
consumado). O casal juntara-se quando viviam ambos nas Montanhas
Jinggang, enquanto a primeira mulher de Mao, Yang Kaihui, permanecia na
província de Hunan, numa zona de guerra com os nacionalistas.
Debate-se
se Mao tinha ou não consciência do perigo que a sua mulher e três
rebentos corriam e se teve oportunidade para os resgatar para uma zona
comunista segura. Em todo o caso, Mao dava sinais em Jinggangshan de não
ter já memória da sua vida familiar no Hunan e por lá os deixou. Sem
saber da relação de Mao com He, Yang Kaihui foi capturada em 1930 pelo
exército nacionalista e executada pela sua ligação com Mao Zedong. Dois
dos filhos de Yang e Mao viveram da caridade alheia durante seis anos,
sem destino conhecido, sendo finalmente localizados e enviados para a
União Soviética; o filho mais novo morreu.
E
aqui chego a uma característica que causa perplexidade na vida de Mao: a
quantidade de filhos que (literalmente) perdeu. Ao lermos a biografia
escrita por Jonathan Spence, a sucessão de filhos perdidos em poucas
páginas é de tal ordem que às tantas estamos a comentar “olha, perdeu
mais um”. Além das deambulações dos filhos com Yang, e dos filhos que
morreram com doenças na infância, a primeira filha com He Zhizhen foi
entregue a um casal no Fujian e aparentemente não sobreviveu. O segundo
filho ficou no Jiangxi quando os pais iniciaram a retirada para o
noroeste, com um irmão de Mao, e mais nada se soube da criança. Uma
segunda filha, nascida durante a Longa Marcha, foi deixada com uma
família de camponeses e nunca reencontrada. É certo: as condições de uma
retirada militar na China dos anos 1930 não são semelhantes às das
maternidades europeias onde as crianças adquirem uma pulseira com o nome
dos pais mal nascem. Em todo o caso, não há registo de tantos filhos
mortos e perdidos terem provocado qualquer dor no seu pai, o que é
merecedor de ser assinalado.
As purgas
Regressemos a Yan’an. Mao, líder do PCC e da área controlada pelo Exército Vermelho, começou cedo a revelar alguns tiques da sua liderança a que daria rédea solta quando se tornou também presidente da República Popular da China (RPC). A primeira purga aos rivais do PCC, à moda estalinista, ocorreu com a “campanha de retificação” de 1942 a 1944. O anti-intelectualismo também deu sinais já nestes tempos. Porventura ressentido por ter sido desprezado pelos intelectuais de Pequim, no pequeno período em que lá trabalhara como bibliotecário na universidade, em 1919, ou escarnecido pelos colegas de escola em Changsha, no Hunan, pelas suas vestes de campónio, Mao retribuiu todas estas desconsiderações aos letrados que gravitavam em redor do PCC. Entre outros traços de personalidade, Mao era vingativo e não esquecia uma ofensa.
Regressemos a Yan’an. Mao, líder do PCC e da área controlada pelo Exército Vermelho, começou cedo a revelar alguns tiques da sua liderança a que daria rédea solta quando se tornou também presidente da República Popular da China (RPC). A primeira purga aos rivais do PCC, à moda estalinista, ocorreu com a “campanha de retificação” de 1942 a 1944. O anti-intelectualismo também deu sinais já nestes tempos. Porventura ressentido por ter sido desprezado pelos intelectuais de Pequim, no pequeno período em que lá trabalhara como bibliotecário na universidade, em 1919, ou escarnecido pelos colegas de escola em Changsha, no Hunan, pelas suas vestes de campónio, Mao retribuiu todas estas desconsiderações aos letrados que gravitavam em redor do PCC. Entre outros traços de personalidade, Mao era vingativo e não esquecia uma ofensa.
Em
1942, Mao afirmava que o saber dos operários e dos camponeses era maior
que o dos intelectuais. Nas famosas Conversas de Yan’an decidiu
explicar o que seria a sua política cultural, escolhendo para tal uma
audiência de soldados maioritariamente iletrados. Afirmou que os
intelectuais eram “espiritualmente sujos”[ii] e desligados das massas, a
quem deviam servir.
Saltando
no tempo, os intelectuais foram particularmente massacrados na Campanha
das Cem Flores (1956) e na Revolução Cultural (1966-76). Para evitar os
malefícios intelectuais, uma das primeiras medidas da dita Revolução
Cultural foi a suspensão das aulas em todos os níveis de ensino – o
saber livresco fazia mal às criancinhas. Os exames para entrar na
universidade foram outro grande alvo desta última década da vida de Mao:
a maior acusação feita pela Gangue dos Quatro a Deng Xiaoping (a
caminho da sua terceira purga) foi a reintrodução dos exames em 1973,
por pretender ter novamente nas universidades os melhores alunos em vez
dos mais excitados politicamente.
Ligado
a este anti-intelectualismo estava o deliberado uso de hábitos dos
camponeses e a ostensiva falta de maneiras. Consistente com a caverna
onde vivia em Yan’an, tornou-se comum, durante as reuniões políticas,
Mao abrir a roupa para caçar piolhos no seu corpo ou baixar as calças
para se deitar e refrescar. Nos últimos anos de vida, recusava-se a
tomar banho e a escovar os dentes. (Jung Chang, no seu
livro-barra-manifesto antimaoista Mao, a História Desconhecida, exibe
uma fotografia da audiência de Mao de dentes negros ao então
primeiro-ministro paquistanês Zulfikar Ali Bhutto.)
Também
em Yan’an se iniciou o culto de Mao. A primeira imagem de Mao numa
posição proeminente apareceu no jornal local, o Jiefang Ribao (Diário da
Libertação), em 1937. Em 1943, o culto já estava alinhavado: o
departamento de propaganda reescrevia a história revolucionária do PCC
para colocar Mao no centro de tudo.
Mais
tarde, durante (outra vez) a Revolução Cultural, o culto de Mao seria
levado a extremos risíveis. Desde umas mangas (sim, a fruta) que andaram
em peregrinação pela China por terem sido tocadas por Mao quando um
diplomata paquistanês lhas ofereceu, até às qualidades salvíficas do
Pensamento de Mao Zedong, cujo estudo produziu mesmo milagres de cura de
casos de cancro e de surdez. O plástico era desviado da produção de
sapatos para a produção das capas do Livrinho Encarnado e a produção de
papel era alocada aos mesmos livrinhos, deixando de haver papel
disponível para quaisquer outros fins, incluindo manuais escolares
(mesmo quando os jovens impressionáveis foram reenviados para as aulas).
As mulheres
Em Yan’an houve outra aquisição importante na vida de Mao Zedong: a sua terceira (ou quarta) mulher, Jiang Qing. Muitos altos dirigentes do PCC criticaram Mao por trocar a sólida revolucionária He Zhizhen, seis filhos depois, por uma atriz de Shanghai de vinte e quatro anos. No entanto Mao não foi original nesta decisão. O soviete tornara-se o destino de muitos (e muitas) jovens citadinos convertidos ao comunismo. Perante as jovens de pedigree urbano (algo socialmente valorizado na China), mais bonitas e mais novas do que as suas mulheres camponesas, os cadres do PCC maciçamente se divorciaram e casaram com as recém-chegadas. Curiosamente, como o bom comunista não se deixa convencer por pormenores mundanos como a aparência física ou a conversa espirituosa das gentes das cidades, a justificação oficial para o novo casamento era o superior esclarecimento ideológico que estas raparigas citadinas possuíam e que faltava às mentes mais simples das suas primeiras mulheres.
Em Yan’an houve outra aquisição importante na vida de Mao Zedong: a sua terceira (ou quarta) mulher, Jiang Qing. Muitos altos dirigentes do PCC criticaram Mao por trocar a sólida revolucionária He Zhizhen, seis filhos depois, por uma atriz de Shanghai de vinte e quatro anos. No entanto Mao não foi original nesta decisão. O soviete tornara-se o destino de muitos (e muitas) jovens citadinos convertidos ao comunismo. Perante as jovens de pedigree urbano (algo socialmente valorizado na China), mais bonitas e mais novas do que as suas mulheres camponesas, os cadres do PCC maciçamente se divorciaram e casaram com as recém-chegadas. Curiosamente, como o bom comunista não se deixa convencer por pormenores mundanos como a aparência física ou a conversa espirituosa das gentes das cidades, a justificação oficial para o novo casamento era o superior esclarecimento ideológico que estas raparigas citadinas possuíam e que faltava às mentes mais simples das suas primeiras mulheres.
E
por falar em seres femininos. Apesar de Mao não costumar revelar
respeito político por camaradas femininas, o recorde de Mao no que toca à
condição feminina não foi terrível. Em Yan’an as leis de família,
incluindo de divórcio, protegiam as mulheres e os filhos do casal.
Depois de 1949, produziram-se leis proibindo o rapto e a venda de
mulheres, os casamentos forçados e a violência doméstica. Duas famosas
tiradas de Mao pretendiam mostrar que as mulheres não eram objetos de
diversão masculina, mas pessoas capazes de participar inteiramente na
construção do mundo socialista, em igualdade com os homens. Uma rezava:
“As mulheres conseguem segurar metade do céu”. Outra: “As filhas da
China não gostam de sedas e cetins, gostam de vestes de batalha”.
Sem
fazer caso das suas citações feministas, o hedonismo sexual de Mao
acentuou-se à medida que envelheceu. O seu médico, Li Zhisui, contou no
seu livro testemunhal como lhe procuravam uma sucessão contínua de
jovens com quem tinha sexo e a quem transmitia doenças venéreas (que
recusava tratar, indiferente ao contágio, porque o próprio era
assintomático). Estes hábitos originavam repulsa nos quadros do PCC mais
ascetas, que se escandalizavam também por Mao manter várias casas
luxuosas em diferentes locais da China, prontas para o receber. (O
presidente não recusava para si os luxos que o enfureciam quando os
vislumbrava nos seus colegas de partido.)
O imperador
Sintomaticamente, vários sinólogos têm discutido se Mao, nos últimos anos de vida, se tornou ou não um novo imperador. Certo é que Mao crescentemente admirava o primeiro imperador que unificou a China, Qin Shi Huangdi. Quando Nixon visitou Mao, em 1972, a propaganda apresentou o evento como uma reedição das visitas dos diplomatas dos países do antigo sistema tributário chinês que vinham fazer o kowtow e prestar vassalagem ao imperador-filho do Céu. Mas, como Jeff Wasserstrom escreveu no seu ensaio Mao Matters (e mais superficialmente aqui), há muitos Mao. Desde o mais apelativo Mao dos tempos da guerra civil, descrito em tons elegíacos pelo jornalista Edgar Snow em Red Star Over China – The Trise of the Red Army, até ao Mao tirânico e cruel dos últimos anos.
Sintomaticamente, vários sinólogos têm discutido se Mao, nos últimos anos de vida, se tornou ou não um novo imperador. Certo é que Mao crescentemente admirava o primeiro imperador que unificou a China, Qin Shi Huangdi. Quando Nixon visitou Mao, em 1972, a propaganda apresentou o evento como uma reedição das visitas dos diplomatas dos países do antigo sistema tributário chinês que vinham fazer o kowtow e prestar vassalagem ao imperador-filho do Céu. Mas, como Jeff Wasserstrom escreveu no seu ensaio Mao Matters (e mais superficialmente aqui), há muitos Mao. Desde o mais apelativo Mao dos tempos da guerra civil, descrito em tons elegíacos pelo jornalista Edgar Snow em Red Star Over China – The Trise of the Red Army, até ao Mao tirânico e cruel dos últimos anos.
Muitos
chineses viam Mao como deus, imperador, o único ser humano que nunca se
havia enganado, a pessoa que as crianças deviam amar mais que às suas
mães e aos seus pais. Em todo o caso, a centelha de espírito crítico e
de reconhecimento das contradições resistiu, ainda e sempre, ao invasor
das consciências. Fang Zhongmou, de 44 anos em 1970, desabafou um dia
com a família: queria saber para que estava Mao a criar um culto de
personalidade, ameaçou retirar das paredes de casa os posters de Mao e
declarou que Liu Shaoqi (o sucessor de Mao no cargo cerimonial de
presidente da RPC, purgado e deixado a morrer sem tratamento médico
durante a Revolução Cultural) seria reabilitado (no que estava plena de
razão). O marido e o filho, horrorizados com tal ataque ao Presidente,
denunciaram Fang, que terminou executada. É a história ilustrativa de
uma família chinesa, onde coexistiam a mais absoluta lealdade a Mao, de
pai e filho, com a clarividência da mãe. Rae Yang, nas suas memórias
Spider Eaters, conta como a chocou a perseguição a uma camponesa na
província nortenha do Heilongjiang por um crime hediondo: enquanto
costurava, e porque tinha as paredes de casa cobertas de posters do
Presidente Mao, espetava as agulhas na cara do retratado quando não as
estava a usar.
Também
os escritos de Lin Liguo (filho do Marechal Lin Biao, sucessor oficial
do Presidente) revelam uma visão funesta de Mao. Depois da morte da
família Lin, enquanto fugia para a União Soviética, em setembro de 1971,
foi revelada esta descrição de Mao por Lin Liguo: “Hoje, ele usa esta
força para atacar aquela força amanhã usa aquela força para atacar esta
força. Hoje usa palavras doces e conversa melosa para aqueles a quem
enfeitiça, e amanhã manda-os para a morte por alguns crimes fabricados
[…] Olhando para trás, alguém que ele suportou inicialmente não
terminou, no fim, com uma sentença de morte política? Há alguma força
política com a qual ele tenha conseguido trabalhar do princípio ao fim?
Os seus antigos secretários ou cometeram suicídio ou foram presos. Os
seus poucos camaradas de armas ou conselheiros de confiança foram
enviados para a prisão por ele… Ele é um paranóico e um sádico […] uma
vez que te persegue, vai perseguir-te até ao fim e põe as culpas de
todas as coisas más em cima dos outros”. [iii]
É
difícil não supor que parte do PCC e da população chinesa partilhava
esta opinião, desde logo por ser tão fiel decalque da real e cínica
atuação política de Mao. Talvez por – nas zonas íntimas do cérebro que a
vigilância opressiva maoista não conseguia perscrutar – haver esta
perceção da duplicidade de Mao, os chineses tenham de forma tão natural
aceite o caminho oposto ao maoismo, o das reformas económicas
capitalistas de Deng Xiaoping. Como diz Anchee Min, autora agora
expatriada nos Estados Unidos: “No meu tempo, metade da população do
país foi enviada para os campos de trabalho ou para as zonas rurais.
Pelo que sabemos o que não funciona. A nossa geração é uma geração
desiludida, politicamente madura e muito prática”.
É
uma doce ironia da história que a desilusão com o maoismo tenha
permitido a emergência da China capitalista que Mao com tanto vigor e
crueldade combateu. O partido que Mao desconfiava querer traí-lo aprovou
em 1981 uma resolução reconhecendo os erros de Mao e frisando a sua
inclinação (reprovável) pela decisão individual – em vez da coletiva, ao
bom velho estilo comunista. Entretanto, a venda de memorabilia de Mao,
uma nova imagem kitsch chinesa, é um negócio fulgurante. Agora temos um
culto comercializado. E os académicos entretêm-se a discutir se Mao era
mesmo um monstro.
Notas:
Notas:
[i] Em Frank Dikötter (2016), The Cultural Revolution, A People’s History 1962-1976.
[ii] Em Timothy Cheek (2002), Mao Zedong and China’s Revolution, A Brief History with Documents.
[iii] Em Roderick Macfarquhar e Michael Schoenhals (2006), Mao´s Last Revolution.
[ii] Em Timothy Cheek (2002), Mao Zedong and China’s Revolution, A Brief History with Documents.
[iii] Em Roderick Macfarquhar e Michael Schoenhals (2006), Mao´s Last Revolution.
Publicado no Observador.
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