Em artigo
publicado no jornal O Globo, o fundador do Contas Abertas Gil Castello
Branco vai na jugular da República podre do lulopetismo: "O
Brasil anseia por mudanças. E não é só por estar molhado. Muito ainda
irá surgir até a Lava-Jato trocar as fraldas deste país". Segue o texto:
O
americano Roger von Oech, escritor e fundador da Creative Think —
empresa da Califórnia especializada em inovação —, costuma dizer que “só
quem gosta de mudança é bebê molhado”. A frase curiosa enfatiza o
espírito de resistência à mudança, que aumenta quando existem interesses
pessoais, políticos e corporativos envolvidos.
O Brasil é
um bom exemplo. Todos achavam absurda a esdrúxula quantidade de 39
ministérios que existia até maio. No entanto, quando a administração
paquidérmica foi reduzida para 23 pastas, surgiram reclamações de vários
segmentos. A Cultura, no grito, retomou o status ministerial, mas
grupos relacionados à Reforma Agrária e à Ciência e Tecnologia continuam
a protestar. Na verdade, a “reforma” foi realizada na marra, sem
maiores estudos e explicações. A berraria, contudo, tem origem na ideia
distorcida de que é imprescindível o status ministerial para a
eficiência e prestígio do setor, o que é uma falácia. A Polícia Federal,
por exemplo, está no terceiro escalão, mas é reconhecida como um órgão
de Estado, o que não acontece com vários ministérios. No Judiciário, o
juiz de primeira instância Sérgio Moro é mais respeitado do que dezenas
de juízes e ministros que vagam por tribunais superiores ou pela Suprema
Corte. Afinal, respeito não se impõe, se conquista...
Quanto às
despesas públicas, era consenso que o governo precisava reduzi-las. De
2008 a 2015, a despesa cresceu 51% acima da inflação, enquanto a receita
evoluiu apenas 14,5%. Dias antes de o governo encaminhar ao Congresso
proposta de limitar o crescimento das despesas à inflação, porém, o que
vimos foi um festival de aumentos salariais que irá elevar os gastos com
pessoal em cerca de R$ 97 bilhões até 2019. O presidente Michel Temer,
caminhando devagar com o andor porque o mandato ainda é de barro,
embarcou no trem, mas recuou quando percebeu a péssima repercussão. Vale
lembrar que o defensor do aumento do Judiciário junto ao Executivo foi o
próprio ministro-presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo
Lewandowski, que comanda o processo de impeachment de Dilma no Senado.
Em
resumo, apesar do rombo de R$ 170 bilhões em 2016, dos 11 milhões de
desempregados e do sufoco por que passa a maioria dos trabalhadores
brasileiros, os funcionários públicos terão aumentos, com reflexos nas
folhas de pagamento dos estados e municípios que já estão quebrados. O
“pacote barnabé” incluiu ainda a criação de 14 mil cargos, que irão
compor uma “reserva” e, segundo o governo, não serão preenchidos. Então,
precisavam criá-los em pleno ajuste fiscal?
As
empresas estatais são a Disneylândia dos corruptos, graças a muito
dinheiro, muita ingerência política e pouquíssima transparência. As mais
de cem empresas e sociedades de economia mista brasileiras movimentam
por ano cerca de R$ 1,4 trilhão — aproximadamente um PIB da Argentina — e
estão no olho do furacão da Lava-Jato. No entanto, quando surge a
intenção de moralizar a gestão, suas excelências, na Câmara dos
Deputados, inserem no texto a possibilidade de dirigentes partidários
ocuparem diretorias. É como colocar rato para tomar conta de queijo.
O pior,
no entanto, está vindo devagarinho. Para 65% dos brasileiros, a
corrupção é o principal problema do país (CNI/Ibope). Assim, é natural
que 70,4% da população apoie a Lava Jato (Instituto Paraná). Apesar das
estatísticas favoráveis à limpeza ética, conversas indecorosas de
políticos e autoridades versam, exatamente, sobre como esvaziar a
operação. Descaradamente, corruptos e prepostos discutem nas fitas
gravadas como frear delações, nomear paus-mandados para barrar as
investigações, soltar condenados, salvar empreiteiras corruptas via
acordos de leniência e influenciar decisões de tribunais superiores. Se
não bastasse, o presidente do Senado — com oito inquéritos no STF —
ameaça acatar pedido de impeachment contra o procurador-geral da
República, Rodrigo Janot, que formula denúncias sobre os investigados
com foro privilegiado.
Além
disso, 14 senadores — alguns citados nas delações — assinaram documento
pedindo ao CNJ abertura de processo disciplinar contra o juiz Sérgio
Moro. Lula, por sua vez, quer puni-lo por “abuso de autoridade”. Na
terra de Macunaíma, os investigados tentam julgar os que os estão
investigando. Para culminar, o STF pode suspender a decisão que
determinou a prisão dos condenados em segunda instância, o que será
lamentável.
O Brasil anseia por mudanças. E não é só por estar molhado. Muito ainda irá surgir até a Lava-Jato trocar as fraldas deste país.

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