A Polícia Federal descobriu ameaças de morte ao cartunista francês
Laurent Sourisseau, o Riss, diretor do jornal ‘Charlie Hebdo’, que
esteve em São Paulo para participar do congresso da Abraji (Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo). Agentes da PF foram destacados
para monitorar um homem que, na internet, postou mensagem que falava em
“erradicar esta larva de uma vez por todas”. Ele foi seguido pelos
policiais nas ruas da cidade até que Riss embarcasse de volta para a
França, no início da noite deste sábado. Sourisseau foi ferido no ombro
direito no atentado, em janeiro, ao ‘Charlie Hebdo’ — 12 pessoas
morreram no ataque, motivado pela publicação de charges do profeta
Maomé. Ele foi protegido por agentes da PF durante todo o tempo em que
ficou no Brasil e circulou por São Paulo em carros blindados. Cães
farejadores foram usados na vistoria do auditório da Universidade
Anhembi Morumbi, local da palestra. Todos os espectadores tiveram que
passar por detector de metais. Riss, de 49 anos, destacou que a
publicação de charges é uma tradição dos jornais franceses, mas que o
medo havia gerado uma autocensura na imprensa de seu país mesmo antes do
ataque de janeiro. Reclamou que apenas o ‘Charlie’ se mantém disposto a
enfrentar as ameaças. Ele lembrou que seu jornal já ironizou outras
religiões, como o cristianismo e o judaísmo, e frisou que esse tipo de
humor raramente é punido pela Justiça — em Paris há um tribunal
especializado em julgar supostos delitos cometidos pela imprensa. “A
democracia não pode ser guiada por dogmas religiosos”, disse. Ressalvou,
porém, que o ‘Charlie’ não tem fixação por este tipo de assunto: “Só
tratamos de religiões quando o tema se impõe.” Segundo ele, o ataque não
foi ao seu jornal, mas à democracia e à liberdade de expressão —
lembrou que os 39 mortos numa praia da Tunísia no último dia 26 não eram
cartunistas e, mesmo assim, foram vítimas do terror. No final do
encontro, perguntaram a Riss se ele estava otimista. A reposta foi
curta: “Não”. Depois, acrescentou: “Mas tenho que manter uma cara de
otimismo, estamos preparados para enfrentar o que for necessário.”
Antes do início da palestra, o público, de pé, promoveu um minuto de
aplausos em homenagem aos mortos no atentado ao ‘Charlie Hebdo’. Depois
do encontro, Riss disse ter ficado emocionado com a manifestação. (O
Dia)

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