MEDIÇÃO DE TERRA

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MEDIÇÃO DE TERRAS

sábado, 25 de junho de 2022

Seremos enganados de novo

 

BLOG  ORLANDO  TAMBOSI
Via Crusoé, a crônica semanal de Ruy Goiaba:


“Won’t Get Fooled Again” é um hino da desilusão política. Composta por Pete Townshend — aquele que aos 20 anos dizia “espero morrer antes de ficar velho”, sobreviveu e chegou aos 77 — e lançada pelo Who em seu disco de 1971, Who’s Next, a canção é um inventário das esperanças perdidas dos anos 60 (você sabe, “verão do amor”, “poder jovem”, “revolução”, aquela patacoada toda). É um misto de música exuberante, indispensável nos shows da banda até hoje, com letra entre o irônico e o depressivo, cujo último verso é “meet the new boss, same as the old boss” (conheça o novo chefe, igualzinho ao antigo). Uma espécie de versão roqueira de “se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, a frase clássica de Lampedusa em O Leopardo.

A perene atualidade de “Won’t Get Fooled Again” é, em si, um sinal de que as coisas não mudaram muito nos últimos 50 anos. Minto: não mudaram muito nos últimos 65 anos (o romance do grande escritor italiano, que se passa no século 19, foi lançado em 1958). Na verdade, talvez elas não tenham mudado essencialmente nos últimos 2.500 anos, data estimada da composição do Eclesiastes (“o que foi é o que será, e o que foi feito é o que será feito; não há nada de novo sob o sol”). OK, hoje temos algumas coisinhas diferentes: por exemplo, penicilina e uma porção de outros medicamentos, expectativa de vida bem maior que a de Qohélet — o narrador do livro bíblico — e a internet, que dá a muito mais pessoas o prazer de serem enganadas em muito menos tempo.

Eis o ponto: o ser humano GOSTA de ser enganado. O título da música do Who, “não seremos enganados de novo”, contradiz não só a própria letra como o comportamento geral da humanidade ao longo dos séculos: preferimos a historinha, bem ou mal contada, à realidade, as fake news às notícias que nos desagradem, o sonho de ficar rico entrando num esquema de pirâmide ao pesadelo cotidiano de morar numa casa caindo aos pedaços (ou na rua) em algum lugar especialmente insalubre do Bananão. A sociedade se divide entre os malandros que sabem manipular em proveito próprio essa necessidade de fantasia e nós, a grande massa de otários — não sei vocês, mas o máximo a que consigo aspirar é ser um otário com sorte. E, você sabe, todo dia representantes de um e outro grupo saem de casa: quando os dois se encontram, sai negócio.

E a política é, desde sempre, território de malandros profissionais, que têm à disposição — como uma fruta fácil de colher, pendente do galho mais baixo — uma variedade extraordinária de otários. Tem otário que acredita em Jair Bolsonaro dizendo pela enésima vez “não há corrupção no meu governo”, mesmo depois da prisão de Milton Ribeiro, aquele por quem o presidente disse que poria a cara no fogo; otário que acredita na inocência de Sua Lulidade (que, se voltar ao poder, será o próprio old boss, em vez de alguém igualzinho a ele); otário que acredita na tal Terceira Via, incapaz de viabilizar uma candidatura com votos no seu tubo de ensaio; otário que “acredita no Brasil” e que merece, por isso, ser surrado com um gato morto até o gato miar; otário que acredita que o mundo fora do Bananão é uma pocilga muito diferente, para melhor, da nossa.

Enfim, se há uma coisa certa para o ano (a década, o século, o milênio) que vem é que seremos enganados de novo. Só espero que as próximas gerações de enganadores sejam, pelo menos, mais criativas nos seus truques. Está ficando tediosa essa perpétua corrida do Brasil atrás do próprio rabo: tomara que apareça algum carrinho caindo aos pedaços para o vira-lata correr atrás.

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A GOIABICE DA SEMANA

O brilhante Jair Bolsonaro, que já confundiu John Kerry com Jim Carrey, chamou o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, de “Cyril Raposa” na última reunião dos Brics. Não é privilégio dele, claro: um amigo jornalista contou que, num encontro com o presidente da Fiat, Luca Cordero di Montezemolo, Lula só conseguia chamá-lo de “Montesinos”. Parece que chamar Jesus de Genésio é um pré-requisito básico para ser presidente do Brasil — o que explica muita coisa.

Cyril Ramaphosa, o líder reclassificado biologicamente por Bolsonaro

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