Jair Bolsonaro vai ficando isolado na América Latina e nas Américas, à medida que candidatos de esquerda derrotam a direita populista e essa polarização empurra a centro-direita para fora do jogo. Fernando Dantas para o Estadão:
O presidente Jair Bolsonaro está ficando crescentemente isolado no contexto latino-americano e mesmo das Américas como um todo.
Nos mais importantes países da América Latina, candidatos de esquerda têm batido nas urnas a direita.
São
os casos das vitórias de Andrés Manuel López Obrador sobre Ricardo
Anaya e outros no México em julho de 2018, de Alberto Fernandez sobre
Mauricio Macri na Argentina em outubro de 2019, de Pedro Castillo sobre
Keiko Fujimori no Peru em abril de 2021, de Gabriel Boric sobre José
Antonio Kast no Chile em dezembro de 2021 e, nesse último domingo, de
Gustavo Petro sobre Rodolfo Hernández na Colômbia.
Esses
cinco países, com 277 milhões de habitantes, representam 42,5% da
população da América Latina e do Caribe. Se o favorito Lula derrotar
Bolsonaro em outubro deste ano, em quatro anos a esquerda terá derrotado
a direita em países latino-americanos correspondentes a 75% da
população da região, incluindo o Caribe.
E
essa conta não leva em conta países menores em que a esquerda está no
poder pelo voto, como a Bolívia, nem ditaduras de esquerda como Cuba,
Venezuela e Nicarágua.
Também
não está considerado que nos dois vizinhos ricos da América do Norte,
Estados Unidos e Canadá, com um total de 367 milhões de habitantes, os
eleitores colocaram na chefia do Poder Executivo políticos de
centro-esquerda, que também derrotaram a direita.
Na
verdade, a impressão é de que a maior vítima do fortalecimento do
populismo de direita no chamado “Hemisfério Ocidental”, isto é, nas
Américas (incluindo o Caribe) é a centro-direita, e não a esquerda.
Uma
possível maneira de se pensar esse fenômeno é a de que o radicalismo de
direita consegue galvanizar e fidelizar uma parcela expressiva do
eleitorado de uma forma que a centro-direita, com seu tom cosmopolita e
elitista, nunca conseguiu.
Esse
quinhão do eleitorado da direita populista, entretanto, é significativo
mas não majoritário, o que é um padrão recorrente em movimentos
políticos radicais. No final das contas, o condomínio eleitoral que vai
da esquerda até a centro-esquerda tende a reunir mais votos e a derrotar
a direita fumegante.
A
ressalva é que não se deve simplificar demais a história. Nem todas as
vitórias da esquerda citadas acima foram sobre a direita populista, como
nos importante exemplos do México e da Argentina. E em alguns casos o
candidato de esquerda vitorioso era ainda mais caricaturalmente
populista que o de direita, como no Peru. No Uruguai, a centro-direita
de Luis Lacalle Pou derrotou por margem muito apertada a centro-esquerda
em novembro de 2019.
Ainda
assim, quando se pensa em políticos como Bolsonaro e Donald Trump, de
países que juntos contêm mais da metade da população do Hemisfério
Ocidental, a destruição da centro-direita pela direita populista parece
evidente.
No
caso norte-americano, o fenômeno se deu por meio da conquista do
Partido Republicano pelo trumpismo. No Brasil, com a derrocada do PSDB
diante da polarização entre lulismo e bolsonarismo.
Tanto
no caso dos Estados Unidos como no Brasil, a direita populista chegou
ao poder e governou de forma sofrível, para dizer o mínimo. Não se pode
de forma nenhuma desconectar o despreparo, a ignorância e cultivo
sistemático da mentira, típicos desses dois líderes de extrema-direita,
dos maus resultados dos seus governos.
O
populismo é um trunfo para ganhar eleições, mas um fardo para governar.
No longo prazo, no caso da direita, é uma armadilha que inviabiliza as
bandeiras da centro-direita civilizada.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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