Algumas brincadeiras ditas como inocentes, nem sempre são tão inocentes
assim. Comprova-se isso quando pensamos em nossas crianças e em
insinuações do tipo: “Que lindos!!! São namoradinhos”. Típicas
brincadeiras que fomentam a “adultização” de nossos pequenos. Isto
porque a infância é conhecida como o período da inocência e quando
crianças não compreendemos o mundo a nossa volta como os adultos, pois
estamos em fases distintas, cognitivamente falando.
Portanto, existe uma sensibilização enorme no que diz respeito a
promover a aceleração destes estágios de desenvolvimento.
A infância necessita de um olhar um pouco mais cuidadoso, mas às vezes,
ao lidarmos com nossas próprias crianças esquecemos de que um dia
vivenciamos aquele período e acabamos por projetar nelas comportamentos
nossos, de adultos. Um desses comportamentos é o namoro, algo
intrinsicamente adulto que atribuímos a criança como se fosse algo
normal.
Mas vamos pensar juntos, qual o maior problema disso? A grande questão é
que o desenvolvimento é pautado por etapas, cada etapa possui o seu
nível de importância para um desenvolvimento saudável.
E quando atribuímos a uma criança o ato de namorar, estamos precocemente
“adultizando” uma fase que não deveria ser “adultizada”.
O resultado é que, quando uma criança fala que namora, ela imita um
comportamento que vê em casa ou na sociedade a sua volta, sem
compreender o que aquele comportamento significa. O perigo encontrado ao
incentivar o namoro de crianças é o encurtamento da infância e a
sexualização precoce. Esse encurtamento acontece quando se leva ao
universo infantil um conteúdo (o namoro) que pertence ao universo do
adolescente e do adulto. Ou seja, assim como os marcos do
desenvolvimento infantil e outras diversas situações do universo das
crianças, não existe nenhum manual ou regra que determine qual a idade
certa para começar a namorar. No entanto, não devemos romantizar o
crescimento precoce.
A compreensão do sentimento amoroso e do desejo sexual é algo do mundo
adulto, pois, por mais que a sexualidade esteja presente desde o
nascimento, a criança ainda não entende sua complexidade. Ela busca o
outro pelo desejo de contato humano, e olhar isso através da ótica da
erotização é algo provocado pelos adultos e que as empurra para um tipo
de interação para qual ainda não estão preparadas e que pode lhes causar
muita angústia.
Mas e se a criança um dia chegar em casa dizendo que têm um namoradinho,
o que fazer? Nosso papel como pais, responsáveis e educadores é explicar
que namoro é coisa de adulto e que as crianças possuem amigos e colegas.
Lembre-se que a criança não tem maturidade para compreender o que
significa namoro e por isso não deve ser estimulada a tanto.
É importante que ela receba a orientação de que, certas coisas, só
poderá fazer quando “crescer”. Respeitando suas etapas e períodos de
crescimento.
Portanto, apesar de termos evidências de que a erotização da infância
acontece hoje com uma naturalidade assustadora, não podemos nos omitir
ao dever de educar e orientar a criança, abominando atos que possam
roubar a inocência. Afinal, criança feliz é aquela que vive a infância
sendo criança e que completa em sua plenitude, todas as etapas de seu
desenvolvimento infantil.
Dra. Andréa Ladislau / Psicanalista
sexta-feira, 24 de junho de 2022
Os riscos psicológicos da Adultização da infância
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