BLOG ORLANDO TAMBOSI
Imensa é a vergonha alheia sentida em relação a um grupo que se encerra projetando vídeos de tortura animal – todos datados, fora de contexto, feitos de propósito, ou gravados em países longínquos. Narciso Antunes para o Observador:
Demorou-se
décadas para dissipar o estereótipo do ambientalista hippie de higiene
questionável, que, num momento de euforia, tinha a pia ideia de se
amarrar a uma árvore, gritando em plenos pulmões, qual gibão arrancado à
floresta mãe, reclamando direito exclusivo de a manter de pé. Note-se
que a árvore até podia estar doente ou ser um perigo para vidas humanas,
mas o ambientalista já nessa altura ignorava tudo o que era razão,
dados e factos.
Esta
caricatura encontra as sua génese na aurora de movimentos pacifistas
americanos, na segunda metade do século XX, entrosando-se no pensamento
colectivo, durando até há relativamente poucos anos, quando ainda se
acreditava que todo aquele que se preocupava com o ambiente, mais dia,
menos dia, ia dar-lhe na cabeça e ir amarrar-se a uma árvore.
O
mundo avançou, mudou, ficou mais populoso, mais cheio de gente, menos
arborizado, menos selvagem, mas mais rico e mais industrializado. Do
seio dos movimentos tecnológicos, urbanos e progressistas, ergue-se uma
nova vaga de “ambientalistas”, assumindo muitas formas, facilmente
ridicularizados e desprezados.
Por
exemplo, esta semana, um fulano mascara-se de velhinha de cadeira de
rodas e vai esfregar creme (ou gelado, depende das fontes) no vidro que
separa o misterioso sorriso da Gioconda. Nota máxima para criatividade!
Chumbo total do seu objectivo.
Depois
outros há que cortam estradas, com cordões humanos, algemando-se uns
aos outros. Bloqueiam o trânsito durante horas, fazendo da vida dos
comuns mortais um inferno. Pensam que é o Sr. Armando, na sua senda
diária de levar umas couves ao Mercado de Arroios, vindo da outra banda,
na sua carrinha a gasóleo que vai reduzir as emissões carbónicas.
Sozinho! Salvando assim o planeta! Ponto provado: centenas de motores em
ralenti irão emitir mais CO2.
Há
aqueles que chamam assassinos a quem degusta o seu bife, fazendo
manifestações à porta dum insuspeito restaurante onde o João e a
Patrícia só queriam ir para aproveitar o primeiro jantar fora de casa
sem os filhos, depois de mais de dois anos sem uma noite a dois.
Imensa
é a vergonha alheia sentida em relação a um grupo bem agressivo,
mascarado até, que se encerra em magote, projectando vídeos de tortura
animal – todos datados, fora de contexto, feitos de propósito, ou
gravados em países longínquos.
Os
princípios de manifestações deverão sensibilizar para uma causa,
granjear apoio junto do público e encontrar soluções para os problemas
encontrados. Estes ambientalistas falham em todos os níveis, tornando-se
chacota e alvo de desprezo.
Quem
realmente se preocupa com o ambiente assume também muitas formas,
deixando de ser uma caricatura, para ser um CEO, um académico, um
trabalhador anónimo. Este “verdadeiro” ambientalista prático encontra um
problema, procura uma solução e luta por ela, por vezes com custos
pessoais, económicos, sociais e legais (note-se o trabalho incansável de
Arlindo Marques, o “guardião do Tejo”). Quem realmente afasta as gotas
do suor da frente para cuidar do ambiente luta contra os elementos,
contra ideias e pessoas, mas com objetivos, com clarividência, diálogo
e, acima de tudo, trabalho no terreno.
Tantas
pessoas que investem o seu tempo e recursos para credibilizar problemas
urgentes, ignorados por sociedades e partidos políticos, vêm os seus
esforços serem deturpados por um grupo de tolinhos mimados, mal
informados, deitando por terra trabalhos de anos ou décadas.
Quem
anda pelas serras deste país a tentar replantar a floresta autóctone,
na luta contra a erosão e a desertificação, raramente se vê numa praça
com papelinhos ou a bloquear uma estrada. Enquanto isso, estão com as
costas ao sol, a escavar buracos, a plantar carvalhos ou a desbastar
terrenos repletos de espécies invasoras. Outros estão envolvidos em
discussões profundas, definindo o futuro de políticas e estratégias que
terão verdadeiros impactos nas pessoas e nas espécies, defendendo ideias
e sistemas muito complexos que facilmente encontram resistência ou
descrédito. Cada um lutando com as suas armas.
Há
imensas plataformas, locais e maneiras de lutar pelo futuro da nossa
casa e há muita gente a fazê-lo. No entanto, com toda a certeza,
esborrachar um bolo com creme num quadro famoso é um tiro no pé daqueles
todos que querem dar um passo em frente, rumo a um amanhã melhor.
Portanto, caros ambientalistas, deixem o ambiente em paz.

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