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| Pilotos iranianos |
Coisa boa não pode ser: um avião de carga cheio de iranianos e venezuelanos suspeitos desliga o sistema de rastreamento obrigatório. Vilma Gryzinski:
Nada
como a Argentina para prover histórias dramáticas. A do momento envolve
um Boeing 747 que pertenceu até janeiro a uma companhia aérea iraniana e
foi transferido à Emtrasur, uma empresa venezuelana.
Pelo
manifesto, o avião vinha do México e levava um carregamento de cigarros
com destino a Aruba. Deveria pousar em Ezeiza, não conseguiu, foi para
Córdoba, tentou o Uruguai e voltou para Ezeiza, onde está embargado.
Trecho anterior: foi de Caracas para Ciudad del Este, notório centro de
atividades do Hezbollah, o grupo libanês unido ao Irã pela identidade
xiita e incontáveis operações clandestinas.
O avião levava também uma tripulação completamente incompatível com um voo de carga: catorze venezuelanos e cinco iranianos.
Entre
estes, o piloto Gholamreza Ghasemi, identidade que “coincide com o nome
de um membro da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e administrador
da Fars Air Qeshm, linha aérea iraniana que usa aviões 747 para traficar
armas para grupos terroristas”, segundo o serviço de inteligência da
argentina, a DAIA.
Além
da rota bizarra, o Boeing desligou o transponder, o equipamento que
rastreia os voos e evita que aviões colidam no ar. É proibido
desligá-lo, pelas normas internacionais.
Choveram
informações provenientes do Paraguai, do Uruguai – dois países que
negaram pouso ao Boeing – e de outras ”fontes” muito bem municiadas
sobre o avião misterioso.
A
oposição argentina deu o alarme e, por ordem da justiça, a tripulação
turbinada teve os passaportes e os celulares apreendidos.
A
Argentina tem antecedentes trágicos de operações terroristas produzidas
pelo conluio do Irã, que opera no exterior através de uma ala da Guarda
Revolucionária, e o Hezbollah.
O
país, que não tinha histórica de atentados internacionais nem a
consequente rede de segurança, foi escolhido para dois mortíferos
ataques contra Israel e judeus em geral. O primeiro foi o carro-bomba
que destruiu completamente a embaixada israelense em Buenos Aires,
deixando 29 mortos e 242 feridos, em 1991.
Como,
caracteristicamente, as investigações deram em nada, o Irã reincidiu
três anos depois, com outro atentado suicida mais violento ainda, contra
a AMIA, um centro voltado para a comunidade judia. Foram 85 mortos e
mais de 300 feridos.
Os
atentados tiveram graves desdobramentos políticos, entre os quais o
“memorando de entendimento” da época do governo de Cristina Kirchner que
consumava a operação abafa. O acordo foi assinado em 2013 e denunciado
por Alberto Nisman, o promotor que investigava os atentados. Dois anos
depois, Nisman apareceu suicidado dentro de seu apartamento, uma morte
explosiva que provocou intensa comoção nacional. A justiça acabou
concluindo que tinha sido um homicídio – mas o caso continua insepulto.
Aviões venezuelanos também têm um histórico de atração fatal pela Argentina.
Em
2007, foi interceptada uma maleta com 800 mil dólares num avião da
PDVSA, a petrolífera argentina que virou a maior fonte de subvenção
clandestina do chavismo.
O
portador, Guido Antonini, venezuelano com nacionalidade americana,
disse que no mesmo voo havia outra mala mais nutrida, com 4,2 milhões de
dólares. Estava sob a guarda do filho do presidente da PDVSA.
O dinheiro era todo para a campanha da companheira Cristina Kirchner.
Os detalhes só vieram à tona porque o caso foi levado à justiça americana.
Se
o histórico pesar, o mistério do avião embargado em Ezeiza vai seguir o
mesmo rumo: investigações que não investigam, governos que se sucedem
sem apurar nada, operações para abafar o que deveria ser esclarecido,
figuras que operam no mundo dos serviços de inteligência agindo para
causar desinteligência e políticos que sobrevivem a escândalos
devastadores em circunstâncias normais.
Como no Brasil, as circunstâncias são sempre anormais na Argentina.

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