Diante das evidências, já deveria estar claro para todo mundo que Gilmar Mendes é o homem mais poderoso do Brasil. Os partidos são dele. Todos. O governo é dele. Todo. Os poderes são dele. Todos. Mario Sabino para a Crusoé:
Não
existe ninguém mais poderoso no Brasil do que Gilmar Mendes. Se um
ministro do STF pode tudo, ele pode ainda mais. Não há ninguém capaz de
ombrear com ele. No Supremo, ele engoliu todos os presidentes do
tribunal, desde que Joaquim Barbosa deixou o cargo e retirou-se da
Corte. Engoliu Ricardo Lewandowski, engoliu Cármen Lúcia, engoliu Dias
Toffoli e está engolindo Luiz Fux, coitado. Por qual motivo ninguém lhe
faz frente? É que o decano do STF, ao contrário do resto, sabe que só
tem poder quem efetivamente o exerce por inteiro. Age sem peias por
instinto, por origem e também, reconheçamos, porque leu Maquiavel melhor
do que qualquer outro integrante atual da Corte. O Brasil não é muito
diferente politicamente da Florença do século XV. É só uma versão
tropicalizada, sem mecenato.
A
Lava Jato, fulminada, serviu a que Gilmar Mendes estendesse o seu poder
ao Legislativo. Ele, que era chapa, virou patrão. No Executivo, Jair
Bolsonaro lhe é tão devedor, que foi pedir a bênção para a indicação de
Kassio Nunes Marques. André Mendonça? Gilmar Mendes, outra vez. Se Lula
for eleito presidente da República, ele terá um credor no atual decano
do STF, porque foi Gilmar Mendes quem o tirou da prisão. O projeto de
instaurar o semipresidencialismo saiu da cachola de quem? Do nosso juiz
mais supremo, que, ao que tudo indica, sonha com o cargo de
primeiro-ministro no eventual novo regime.
O
reto e vertical Paulinho da Força, no lançamento daquele pastiche que o
PT apresentou como programa de governo, foi cristalino sobre quem está
no topo: “Em todo lugar que eu andava, alguém me falava assim: ‘fala
para o Lula não falar isso’. Do Gilmar Mendes ao peão da fábrica. Depois
fiquei pensando por que as pessoas falaram isso toda hora. É a
preocupação de que a gente não erre, porque, se Lula e Alckmin errarem, o
Brasil é quem perde com isso”.
A
medida desse poder ficou ainda mais visível nesta semana. Na
segunda-feira, Gilberto Kassab reuniu 300 pessoas em um restaurante, em
Brasília, para homenagear os 20 anos de Gilmar Mendes np STF. Dois dias
depois, na quarta-feira, foi a vez de Arthur Lira prestar o seu tributo.
Na residência oficial do presidente da Câmara dos Deputados, ele
promoveu um jantar em honra ao homem mais poderoso do Brasil. Foram
convidados o presidente da República, Jair Bolsonaro, o presidente do
Senado, Rodrigo Pacheco, os ministros Ciro Nogueira (Casa Civil) e
Anderson Torres (Justiça), os ministros do STF Alexandre de Moraes,
Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, além dos deputados Aécio Neves,
Reginaldo Lopes e Elmar Nascimento. Os regabofes aconteceram na mesma
semana em que Luiz Fux promoveu um encontro oficial com parlamentares,
para fazer uma DR do Judiciário com o Legislativo. Divertido.
Gilmar
Mendes também tem “correspondentes” nas redações (o termo é dele) e,
quando julga necessário, faz saber a donos de jornais que não gostou
desta ou daquela reportagem. Ou que gostou. Ou que gostaria. Na semana
passada, em sintonia com uma das capas desta Crusoé (É razoável ter medo do STF?),
O Globo alertou, em editorial, para o excesso de ativismo político do
Supremo durante o governo de Jair Bolsonaro, em nome da defesa da
democracia. Disse o jornal, para ilustrar o seu ponto: “O ministro Luís
Roberto Barroso deu até prazo para o governo tomar providências nas
buscas do indigenista e do jornalista desaparecidos na Amazônia, como se
isso tivesse algum poder de acelerá-las — ou algum cabimento. O
ministro Edson Fachin, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
se esforça para desvencilhar-se da desavença insólita que ele próprio
alimentou com os militares em torno das urnas eletrônicas. E o ministro
Gilmar Mendes teve nesta semana de reafirmar o óbvio, dizendo que o
Supremo não é ‘partido de oposição ao governo’. Não é, nem jamais
deveria ser”. O Globo fez também a seguinte observação geral: “a Corte,
que deveria manter-se equidistante e alheia a paixões, parece a cada dia
mais contaminada pelo noticiário, como se devesse prestar contas à
opinião pública, não à lei ou à Constituição”.
Concordo
totalmente com O Globo. Para ilustrar o ativismo político que rende
manchetes para a cúpula do Judiciário, eu citaria ainda o fato de Luiz
Fux, como presidente do CNJ, ter criado um “grupo de trabalho” do qual
faziam parte o ator Wagner Moura e o fotógrafo Sebastião Salgado, para
acompanhar as buscas pelo indigenista e pelo jornalista brutalmente
assassinados. Como se isso tivesse o poder de acelerá-las — ou algum
cabimento. Mas entendo os limites do jornal carioca da gema. O que
importa aqui é Gilmar Mendes ter sido apontado como a voz da sensatez
sobre o STF não poder se comportar como partido de oposição ao governo.
E, pelo jeito, a voz começa a ser ouvida: Alexandre de Moraes reuniu-se a
portas fechadas com Jair Bolsonaro, no jantar oferecido por Arthur Lira
ao decano do tribunal. Talvez seja preciso apenas que Gilmar Mendes
aconselhe Jair Bolsonaro a não ser oposição a si próprio.
Diante
das evidências, já deveria estar claro para todo mundo que Gilmar
Mendes é o homem mais poderoso do Brasil. Os partidos são dele. Todos. O
governo é dele. Todo. Os poderes são dele. Todos. Gilmar Mendes é a
situação, não importa quem ocupe o Palácio do Planalto, as presidências
do Senado e da Câmara ou a presidência do STF. Qualquer resistência ao
ministro é inútil. Ele é um forte em território de fracos. Atacar Gilmar
Mendes é como querer trocar o darwinismo pelo criacionismo. Na nossa
selva selvaggia, ele é o topo da cadeia alimentar a quem devemos temer e
ouvir. Não existe nada mais sensato a fazer.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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