Apenas 30% dos americanos acreditam que os meios de comunicação cobrem os fatos como eles são e 25% que administram bem a informação. Vilma Gryzinski:
O
público americano, principalmente fora dos grandes centros, é de Marte e
os jornalistas são de Vênus. Esta é, metaforicamente, a conclusão de
uma pesquisa do Pew Research Center, que consultou 12 mil jornalistas e
cotejou sua opiniões com a do público em geral.
Dos
profissionais da imprensa, 65% disseram que seus veículos fazem um
trabalho sério na cobertura dos assuntos mais importantes do dia. Apenas
30% do público acha a mesma coisa.
Fiscalizar
os detentores do poder político é uma das missões que 52% dos
jornalistas consideram que fazem bem. Menos de três em cada dez
americanos fora da profissão acham a mesma coisa.
Outro dado: 43% dos jornalistas acham que administram bem a desinformação, contra 25% do público em geral.
Um
número parecido, de 46%, se considera bem conectado com seus leitores e
ouvintes, mas só um quarto do público sente a mesma coisa.
Escrevendo
no The Hill, Joe Concha atribuiu o fenômeno ao fato de que a maioria
esmagadora dos jornalistas se concentra no eixo Nova York e Washington
(o equivalente a São Paulo-Rio-Brasília). “A bolha é real”, comentou.
Ele
lembra que em 2020, Donald Trump teve exatamente 9% dos votos em
Manhattan, proporção mais baixa ainda em Washington – 5,4%. É claro que
os meios de comunicação refletem este bioma mental. “Não conheço ninguém
que votou nele”, se tornou uma das maiores desculpas para o choque de
realidade nos meios de comunicação quando Trump foi eleito, em 2016.
O
desaparecimento dos pequenos jornais do interior, tragados pela era
digital, acabou com o equilíbrio entre liberais e conservadores que a
imprensa regional tinha. Restaram os grandes veículos entre os quais,
com a única exceção da Fox, prevalece o progressismo.
A
maneira apaixonadamente partidária, militante, com que a eleição de
2020 foi coberta produziu até uma aberração. Quando o New York Post
publicou uma reportagem mostrando e-mails comprometedores de Hunter
Biden, o filho problema (apesar de já estar com 52 anos), do então
candidato democrata, a repercussão foi de extrema negação.
O
Twitter baniu o Post e a grande imprensa caiu matando para desmerecer
os fatos apresentados. Só este ano o Washington Post admitiu que havia
errado e o New York Times enterrou o desmentido no milionésimo parágrafo
de uma reportagem: os e-mails eram autênticos e mostravam Hunter usando
o nome do pai, quando era vice-presidente de Barack Obama, para
promover seus negócios com investidores estrangeiros.
Joe
Concha deu como exemplo da desconexão com a realidade que o excesso de
partidarismo provoca uma declaração, que parece saída de um programa
humorístico, do apresentador Don Lemmon: “Aqui na CNN não estamos no
ramo da opinião, apresentamos a reportagem e procuramos ficar no caminho
do meio”.
Nos primeiros cem dias de Trump, 93% das reportagens da CNN sobre o presidente outsider foram negativas.
Agora,
quando até os veículos mais militantemente democratas estão
decepcionados com Joe Biden – e que as audiências despencaram, com o fim
do “efeito Trump -, estão sendo feitas algumas correções. O novo
presidente da CNN (o anterior caiu por causa de uma relação não revelada
com a chefe de publicidade da rede), Chris Licht, quer “menos opinião e
mais jornalismo”, evocando os tempos em que o canal pioneiro das 24
horas de notícias apresentava fatos sem o excesso de comentaristas – e
partidarismos.
“As pessoas perderam a confiança na mídia”, constatou Licht.
Quando
canais a cabo, jornais ou sites dedicam-se inteiramente a criticar com
virulência, às vezes até com antifatos, um presidente como Donald Trump
é claro que uma parcela importante do público se sente mal servida. Só
para lembrar: Trump teve 75 milhões de votos em 2020, embora ache que
teve mais e que a eleição foi roubada.
No
mesmo programa em que declarou a CNN isenta, Don Lemmon disse que
“existe um partido que está enganando o público americano, e este é o
Partido Republicano”. Já o Partido Democrata “está defendendo a
democracia”.
Joe Concha lembrou um estudo feito em 2013 mostrando que apenas 7% dos jornalistas se identificavam com o Partido Republicano.
O
relatório anual chamado Digital News Report, feito pelo Instituto
Reuters, em 46 países, mostrou que a confiança na mídia caiu em 39
deles. No Brasil, este índice é comparativamente alto – 48% -, mas caiu
seis pontos.
Donald Trump se elegeu pelo Twitter, Jair Bolsonaro
pelas lives na mesma plataforma e “o velhinho do TikTok”, Rodolfo
Hernández, quase chegou lá na Colômbia. Todos eram considerados
candidatos folclóricos, outsiders sem chances de disputar o primeiro
plano. As reações de choque que a vitória de Trump causou em 2016 na
grande imprensa tornaram-se legendárias e deram a pista de como seria a
cobertura dali em diante.
Agora,
até o New York Times, onde os comitês internos de inquisição
praticamente tomaram o poder, está dando uma sutil recalibrada com o
novo diretor de redação, Joe Kahn.
Uma
fonte, obviamente anônima, disse ao Guardian que havia uma sensação de
alívio diante do fato de que Kahn é uma pessoas “com pouca paciência
para as eclosões de guerrilha cultural na redação que tanto nos
desviaram do principal nos últimos tempos”.
Um
New York Times menos devorado pelas fogueiras da inquisição digital é
bom para si mesmo, depois de ter incinerado profissionais formidáveis
como Bari Weiss, e para o resto da imprensa.
Ninguém
espera que se torne menos liberal. Inclusive porque perderíamos as
oportunidades de sorrir um pouco quando o maior jornal do mundo revela
suas tendências em reportagens como a em que tentou desmentir que “os
caras bons com armas” são um modo importante para interromper os autores
de tiroteios que matam criancinhas e outros inocentes.
O
jornal publicou um estudo com 433 casos desse tipo de matança, entre os
anos 2000 e 2021. Em 131 deles, a polícia matou ou dominou o atirador.
Em 64, foram pessoas comuns, armadas, que subjugaram ou eliminaram os
malditos. Ou seja, um total de 195 casos em que os “bons” prevaleceram.
“Mesmo
quando agentes da lei respondem rapidamente – às vezes em questão de
segundos – ou se policiais já estão no local do crime quando o ataque
começa, atiradores ativos podem ferir e matar pessoas”, disse o Times.
A reportagem não se pergunta o que teria acontecido se os “caras bons com armas” não estivessem lá.
Aliás,
no último grande caso do tipo, em Uvalde, onde um desgraçado matou 19
alunos e duas professoras de uma escola, a polícia apareceu em questão
de poucos minutos, mas o homem no comando não permitiu que usassem suas
armas e equipamentos de proteção para salvar vidas inocentes.
Errar
faz parte inerente do exercício do jornalismo, que lida com uma
dinâmica inexoravelmente fadada a superar os profissionais. Mas quando
as opiniões – que obviamente têm um lugar importante – contaminam a
esfera dos fatos ou se tornam onipresentes, todos perdem: jornalistas,
os veículos onde trabalham e o público que deveria confiar no contrato
social implícito entre as partes, mas passa a desconfiar que está sendo
mal informado ou manipulado pelos que cedem à tentação da arrogância dos
sabe-tudo que desprezam a própria audiência como sabe-nada.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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